por Américo Paim
Acordo e esfrego os olhos. Macio demais, estranho. É terçol? Onde peguei essa merda? Na balada de ontem? Agora é que deu. E é nos dois olhos. Vou devagar até o banheiro. Lento até demais. Por que tão cansado assim? Não foi pra tudo isso ontem. Vou direto ao espelho.
– Caralho! Que porra é essa?
Não acredito, véi. Puxo e estico a pele do rosto e ainda não dá pra levar a sério. Parece a capa de “Standing on a beach”! E tô careca? É algum pesadelo 3D? Se é alguma brincadeira, eu mato o fidiputa… Será que rolou alguma criatura ontem? Se foi, saiu que nem vi…
Ainda sem entender minha nova cara de cachorro chinês, tiro o short pra tomar banho e me dou conta do bagaço. Eu sou as dobrinhas do boneco da Michelin! Véi, eu tô todo velho! Pelanca pra todo lado! Não é só no olho, que já é puxado. Acabou tudo, mermão! Barriga tanquinho, bíceps, peitoral de pombo, perna de jogador de futebol… E cadê… epa, epa, parô, parô… Que diabo molengo é esse aqui no meio das perna, papá? Num tô achando graça disso, sério.
Todo gasturado, corro pra cozinha. Bem, corro é modo de dizer. Não ganho nem de tartaruga nessa pegada que eu tô. Bebo água e olho o calendário: 7 de dezembro desse ano! Engraçado, essa data me diz alguma coisa. Mas a balada do níver de Debi não foi ontem, dia 6? Como é que eu fui dormir todo primeira divisão e acordei nessa repescagem? Porreéssa? Sento no sofá da sala. Tô cansado. Minha mão descobre meu relógio embaixo do assento. Tá funcionando, mas o tempo acelerou, véi! Tento organizar o juízo. Com quem estive, fazendo o quê? Não lembro de porra niúma. Velho é foda.
Vou até a janela. A paisagem tá lá. O bar de Burunga, igual. Ele é bem mais velho e não morreu nem nada. Tá ali igualzinho, na porta, de papo com os clientes. A camisa verde, o pano no pescoço, o cabelo seboso, lambido e a calça jeans fedorenta. Ele tá novo e eu nesse caco? Tô velho e o mundo parou, é isso?
Ligo pra Tridente, Sobrado, Deusémais. Nenhum fidi atende. Consigo Bastião. Chamo ele para chegar aqui em casa. É uma emergência. Num vou sair daqui desse jeito, nem fodendo!
– Clarito, é tu mermo? Tô conhecendo pelo branco do olho…
– Vai se lascar… Oxe, num tá vendo que sou eu?
– Cê tá dizendo, só que num tô acreditando, não. Deixe eu acostumar a vista…
– Cê sabe de alguma coisa, fiodocão? Como é que eu fiquei velho assim?
– Rapaz, tu tá acabado…
– Porra, num tá ajudando. Nós fomo junto pra festa ontem! E aí?
– Cê só lembra disso?
– E olhe lá… Desde que saí da prisão, me lembro de tudo, mas de ontem pra cá, babau…
Ele me conta. Nada estranho até eu pegar uma tal criatura. Um espetáculo, corpo maravilhoso e tal e coisa. Gostou do japa aqui. A gente se agarrou atrás do palco onde tava o DJ. Num lembro de nada, véi. Ele garante que é verdade. Tava tudo de boa, até que outra mulher, bem esquisita, se chegou nos meus amigos. Sabe lá de onde ela veio. Tridente, que já tinha mapeado todas as fêmeas do lugar, jura que ela num tava na festa antes. Bastião diz que tinha cara de rodada, mais velha, e ainda bonita. Ela chegou largando o doce: a criatura que eu tava me atracando era mulher do dono da boca de fumo perto da festa. Ele ia baixar ali, matar todo mundo e depois perguntar. E ia ser logo. Deu a real e se picou, papá.
– Eita porra, é sério?
– Tô lhe dizendo.
– E eu já tava velho desse jeito?
– Claro que não! Ia pegar quem assim, fio?
– Então rolou o quê?
– Véi, ninguém mais viu sua cara. Nem a toda uda.
– E agora? Num lembro de porra niúma.
– Também, véi desse jeito…
– Oxe, e é assim?
– Quer ver? Tomou café hoje? Comeu o quê?
Eu não me lembro nem se comi. Tempo eu tive, depois que desliguei o celular. Ele me leva na cozinha e mostra no lixo que eu comi banana e maçã. Começo a me preocupar. Também confesso que achei meus dentes estranhos, muito branquinhos e arrumados. Dentadura, véi… Só não escovei porque não achei pasta. E dói junta, perna, cabeça, dói é tudo. E essa careca? Tô parecendo um samurai.
– Aproveita e volta pro caratê. Vai lhe fazer bem.
– Tá maluco? Velho desse jeito vou morrer quando dobrar a espinha pra cumprimentar.
– É verdade. E seus remédios, Clarito?
– Que remédios?
– Ué, tu deve tomar um monte, velho assim.
– Com é que vou saber? Sou novo nesse negócio de ser velho.
– Melhor dar um google…
– Oxe, deixa quieto. Quero saber da festa. O cara apareceu?
– O dono da mulher?
– Não, Papai Noel… Quéquetuacha?
– Opa, pode ter certeza.
– Como ele era?
– Do tamanho de uns três campos de futebol. E brabo que só a porra…
– Eita… Mas ficou tudo certo?
– Véi, ficou não.
– Num tô gostando.
– Oxe, logo tu, que é o bruto, manda-chuva da prisão…
– Velho como eu tô? Num guento nem comigo. Cê vai ver quando chegar na minha idade.
– Perdeu a coragem?
– É diferente. Num quero putaria com traficante. Você falou com ele?
– Oxe, vazei dali rapidinho. Tá maluco? Os cara ficaram lá…
– Que amigo, hein?
– Véi, tu num tava em canto nenhum. E o bruto bradou que ninguém saía.
– E aí?
– Ele espremeu foi gente. Ele pode tá atrás de você nesse minuto.
– Que maravilha…
– Mas, fique calmo. Ele num vai bater num idoso.
– Ah, claro. Vai é matar logo, que é mais rápido. Resolve no peteleco.
– Tu vai fazer o quê?
– Nessa condição? E outra: saí da cadeia outro dia, não foi?
– Deve ter uns cem anos – ele fala e ri.
Foi muita sorte e dinheiro não pegar condenação pesada. Se eu der mole agora, volto pra lá. Preciso resolver essa porra. O pior é que nem me lembro se foi bom com a mulher. Coisa escrota essa velhice. E eu aqui pensando na gostosidão da criatura, de acordo com o que Bastião falou, e nada acontecendo no meio das pernas? O moleque tá mortinho. Tô lascado… Foco, Clarito! Vou atrás da tal salvadora da pátria. Ela deve saber tudo que rolou. Saio de casa com Bastião. Reclamo da porra toda. Velho é foda. Paro em dois bares porque preciso mijar. Chegamos ao nosso point, o bar de Travoso. Ninguém me reconhece! Que merda. Bastião pergunta sobre a tal mulher. Inútil.
Volto pra casa. Bato um mingau e fico ali ruminando o que fazer. A campainha toca. São dez da noite. Como alguém entrou aqui sem eu autorizar? Não alcanço o olho mágico, de tão encurvado que eu tô. Pergunto quem é. Responde um grito de “abre essa porra”. Recuo a tempo de não ser atingido pela porta arrombada. O cara entra, enorme e agreste. A legenda da cena é “Tô fodido”. Ele circula no apê, gritando “cadê ele?”, barulhento. Espero na sala, me acalmando. Ele volta virado no estopô.
– Não sei de nenhum Clarito – digo, sonso.
– Não minta, velhote. Perdeu a noção do perigo?
– Você não agrediria um idoso.
– Tá louco, gagá? Mato é a porra toda. Cadê o filadaputa? O endereço é esse!
– Essa pessoa não está aqui. Por que tá procurando ele?
– Mexeu com minha mulé!
Convido o monstro pra sentar. Ele tá babando e me manda tomar no cu. Ofereço salgadinho. Nada. Ganho ele quando peço que se abaixe e pegue um dezoito anos no armário da sala. Estranho me lembrar disso. Ele enfim aceita. Puxo conversa, solidário. Falamos sobre cornitude, mulheres. Ele desabafa e aos poucos me sinto no controle. Me conta sobre a boca de fumo, seu poder, como é temido e que o cara que pegou sua mulher vai se foder todo.
– Por que não esquece o assunto?
– Vou fatiar o desgraçado e comer o fígado dele frito.
– Fritura não é saudável.
– Tá me zoando, vovô?
– Conselho para você chegar bem na minha idade.
– Quero não. Todo acabado assim?
– A outra opção é pior.
– Esse papo tá me enchendo o culhão, num sabe? Tu mora aqui com ele?
– Não conheço a pessoa.
– Mas é aqui. Tua cara parece com a foto que me deram do desgraçado. É seu neto?
– Já disse. Não sei quem é.
Dou corda e o animal continua puto. Reclama do calor e tira a camisa. Bate o medo. O homem é um tanque. Lembro da academia. Bons tempos… Aliás como é que lembrei disso? Coço a cabeça e percebo uma penugem. Ué, eu não tava carecaço? Faço um teste. Finjo buscar mais gelo. Vou mesmo é olhar o lugar que eu guardava dinheiro pra emergência – outra lembrança que veio assim, do nada. Encontro uma grana boa. Tô recordando umas coisas, mas não sei onde guardo o revólver ou o tantō. Sigo na conversa fiada, enchendo ele de uísque. A energia tá melhor, já ando mais firme pela sala. Tá passando o efeito? É um bozó? Ele tá ficando neném, tá quase lá.
– Uísque catiguria. Tem mais aí, vovô? – ele fala enrolando a língua e dá uma longa talagada.
– Vou ver lá dentro.
Me dá um estalo sobre onde tá o que preciso. Encontro. Volto. Ele se levanta do sofá e anda pela sala falando merda. Senta na poltrona e algo lhe aporrinha. Mete a mão embaixo do assento e puxa uma pulseira grande e brega, que reconhece de imediato. Foi presente pra sua mulher. Ele me procura com o olhar, mas já tô é atrás dele. Ágil como sempre, com o tantō rasgo sua barriga de tanque da direita para a esquerda. O sangue jorra. Faço o corte vertical. Fica como um sete de cabeça para baixo. Sabia que aquela data me dizia alguma coisa. Ele não ia fazer um seppuku se eu pedisse. Fiz a gentileza do Jumonji Giri. É só para os fortes, aliás me sinto bem mais forte, mas cansei. Vou dormir enquanto ele acaba de morrer. Depois limpo essa zona. Quem sabe acordo com a cara resolvida. Nunca gostei muito do The Cure.
