Entranhas

por Américo Paim (a partir de comentário de Susy Freitas)

De cara, você não gosta dessa arrumação. O piano, dominante, longe do ataque do sol. Não é um Steinway, mas é bem bonito, você admite. As poltronas lhe incomodam muito. À esquerda da entrada da sala de estar, de costas para as grandes janelas, são vistas logo que se entra, antes de você. E a pequena mesa de apoio entre elas? Toalha branca? O certo era uma cor mais escura. A poeira não perdoa. Deviam lhe cobrir e às poltronas. Forro simples, fácil de tirar quando chegar visita. E mais: as poltronas são estreitas. Só para magrinhos ou muito jovens.

Lustres exagerados. Segunda mão de casa mais rica? É isso. Igual à mesa de centro, refinada demais. Combina mais com seu estilo, é certo, mas um tampo de madeira daria mais harmonia. O estilo mais moderno, com vidro, incomoda você.

Sua posição na sala não lhe valoriza, à direta da entrada, quase de frente para o piano. Iluminação inadequada. Você se ressente disso. Vive das memórias dos bons tempos da Rua da Graça, na casa dos Ribeiro. Você era o centro das atenções, lhe limpavam todos os dias. Aqui, na Pituba, às vezes nem abrem a sala. Você passa dias no escuro. Não é porque os Souza viajam muito. Lhe parece ser por economia mesmo.

A poltrona da direita, escrota, lhe provoca:

– Aí, gordão, hoje tem, viu…

– Não entendi.

– Qualé, véi. Ói o movimento na casa. É dia de visita.

– Como sabe?

– Abriram tudo cedo, zoada da porra no corredor.

– Precisa desse linguajar chulo?

– É o quê, papá?

– O baixo calão.

– Fala de novo aê, fio.

– Xingamentos. Fale com elegância, por favor.

– Ah, tá… Me largue, véi, isso é pra você.

– Deixa ele em paz, criatura – intervém a poltrona da esquerda, mais equilibrada.

– Oxe, só tô falando…

– Agradeço sua atenção, esquerda. Será um dia tenso – você observa.

– Se os meninos vierem, né?

Os netos Souza. Isso lhe estressa. Dois demônios em forma de pessoas. Energia inesgotável. Você lembra de quando foram esquecidos na sala por meia hora e testaram sua resistência à exaustão com pulos intermináveis e tapas fortes para subir a poeira. Você teve sorte por não ter sofrido danos maiores. Ou aquela outra vez, que derramaram refrigerante e colocaram uma almofada em cima da mancha. Só se descobriu dois dias depois. Dona Catita veio para a limpeza semanal. Você aguentou formigas, cheiro de baratas e suas fezes. Um horror. Se lhe fosse possível, você vomitaria.

– Espero que tenham melhorado o comportamento desde a última vez.

– Rá! Fica aí esperando, gordão – diz a direita.

– Quase me quebraram, lembra? – fala a mesa de vidro.

– Uma temeridade – você completa.

– Eles só pioram. Colocaram chicletes nas minhas cordas – cita o piano.

– Opa, alguém tá chegando – alardeia a esquerda.

Dona Catita entra. Varre o local com energia e o pó sobe generoso. Se você tivesse um nariz, espirraria sem parar. Enquanto ela trabalha, você devaneia. Foi tudo tão rápido. De peça destacada na história dos Ribeiro, a parque de diversões de netos insuportáveis, na casa dos Souza.

Você recorda com prazer o pedido de casamento de Reinaldo a Leandra. Como ele escondeu cuidadoso a caixa com a aliança sob o seu assento. E o dia em que Dona Artemísia, a matriarca viúva, passou mal por causa do sumiço, nunca resolvido, do seu caríssimo anel de brilhantes e ficou deitada em você enquanto o médico chegava? Foi o último momento de vocês juntos. Ela lhe deixou saudade. Sempre lhe cuidava tão bem. E não esquece que foi esparramado em você que Rômulo, o irmão do meio, anunciou que ia morar fora de casa. A mãe chorou um bom tempo abraçada às suas almofadas. E o dia que Rodrigo, o caçula, reuniu a família e contou sobre a sua promoção, pouco antes de se mudar? Brindaram e beberam ali naquela sala, você com ocupação máxima. O barulho dos cristais sempre lhe fez feliz. Nesses dias a cristaleira ganhava relevância. Você sempre teve uma quedinha por ela. Impossível, você se conforma.

Era tudo lindo e você absoluto, centro de referência naquela sala. Nenhum item de mobília ou decoração lhe era superior. Um sonho. Até aquele dia.

Você lembra muito bem. Era madrugada. Você ali, tranquilo, à espera da luz da manhã, quando ouviu sussurros apaixonados. Você estranhou o horário, mas não aquela voz sacana que já conhecia de outros tempos. Reinaldo. Como assim? Ele e Leandra iam transar em cima de você? Não combinava, nunca tinha acontecido. No máximo umas bolinações, uns trancos, que você absorvia bem. Mas você sabia que não era ela. Estava viajando. Luzes acesas. Uma desconhecida! Como ele foi capaz disso? Logo com Leandra, seu xodó, dona das mãos mais bonitas e da bunda mais elegante a sentar em você? Logo ela, que costumava deitar-se em você para ler à tarde. Às vezes adormecia e lhe aquecia por mais tempo. Logo ela, a única que costurou cuidadosa seus rasgos abaixo do assento, lhe remendou, lhe reconstruiu paciente. Você sofreu com o vaivém dos corpos traidores sobre você. Temeu que se desconjuntasse todo. Ela não estava à altura de Leandra! Por que aquela traição? Outras noites se seguiram, enquanto Leandra permanecia fora. Os outros móveis em silêncio cúmplice. Fizeram gato e sapato de você. Sobre você experimentaram as mais diversas posições. A cada noite lhe sujavam e limpavam, mas deixavam rastros. Os encontros na casa vazia só cessaram na véspera de ela chegar. Aí tudo voltou ao normal. Até aquele outro dia.

Você lembra muito bem. Leandra mudando de comportamento, diante das pistas. Naquela tarde entrou diferente, tensa. Guardou sob seu assento algo pesado e frio. Saiu da sala, furtiva. Altas horas da noite, voltou, agora com Reinaldo. Brindaram, beberam, sentados em você. Palavras começaram amorosas e terminaram em ofensas a ele. Muitas. Após alguns minutos, Leandra pegou o objeto com rapidez e habilidade. Riu estranha, ameaçadora, diante do susto de Reinaldo. Ele, longe de se entregar ou admitir nada, usou de conversa manhosa para distraí-la. Tentou tomar-lhe o revólver, ela reagiu e enquanto lutavam pela arma, um disparo acidental. Ele tombou sobre você. Silêncio. Ela, assustada, foi embora correndo, lhe abandonando, testemunha silente. As manchas de sangue demoraram a ser limpas. Só o fizeram muitos depois, quando a casa já estava quase vazia de tudo. Os irmãos decidiram que você seria leiloado, junto com outras peças de mobília. Você e a cristaleira separados para sempre. Você, com pequenas nódoas e grandes lembranças, partiria para uma nova casa e nada mais seria igual.

– Ouviram isso? – provoca a direita, lhe despertando das memórias.

– Eu ouvi – suspira a mesa de centro, com ares de apreensão.

– Não bastassem as pestes…

Você, ainda distraído, não ouve o som, sinônimo de estresse para qualquer sofá: um miado. Os netos Souza entram, aos gritos. Com eles, um gato, nem tão novo, cinzento, forte e atrevido. Você não percebe a gravidade. Os meninos endiabrados o seguram, mas logo se aborrecem e correm para fora da sala, deixando o felino à vontade para explorar o território.

Ele começa arranhando os pés de madeira das mesas. Se farta, vai à poltrona direita, deitando-se com preguiça. Arranha o estofado com prazer. Começa a lamber-se. Em instantes volta o olhar agudo para você e lhe encara, seguro. Você é grande, confortável, atraente. Ele repousa o corpo peludo sobre você, lhe experimentando. O cheiro dele lhe tortura. Ele começa a lhe arranhar, com energia. Encosto, assento, braços, pés, nada escapa ao ataque agressivo. Ele se diverte com sua destruição. Você gritaria por socorro se pudesse. Que lhe resgatassem o pouco de dignidade restante. O gato, esquecido nessa sala de fim de mundo, segue seus exercícios. Você sofre e sente, está desfigurado. Os outros móveis contemplam sua agonia. Ele morde, rasga, puxa, estica, bate. Seu fim está próximo, mas você é salvo pela mãe dos meninos, que chega e contempla o desastre, horrorizada. A gritos e tapas, o gato é levado. A você resta o olhar de pena dos colegas e a expectativa sobre o que lhe será feito.

A decisão é pela recuperação. Eles não têm como comprar um novo agora. Você é operado. São removidos estofado e espuma. Depois atuam nas percintas, na manta acrílica, no tecido interno, no revestimento de madeira, nas molas. Nunca lhe remexeram tão fundo. As dores são fortes, a tristeza, a desconstrução da personalidade, mas você está aflito. A qualquer minuto vai acontecer. E o que você será após isso? O que será que vão pensar? O que poderão fazer com a foragida Leandra, quando dentro de instantes encontrarem o anel de brilhantes de Dona Artemísia, preso com cuidado em suas entranhas?

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