Essa cidade talvez seja sobre isso

Por Susy Freitas

É a terceira vez que você me faz responder a mesma pergunta: débito, cartão de inserir. O Rapaz do Caixa simplesmente não entende, por mais que seus comandos sejam claros, quase automáticos, embora conscientes. Só que quando eu aciono a língua e o aparelho fonador, as palavras saem lentas e truncadas, e a expressão dele sugere algo ainda pior do que talvez você ter vindo do Rio de Janeiro – o que não é verdade. Os mecanismos por trás daquela boca que entorta sutilmente, da sobrancelha que cai e do corpo que se afasta da maquineta podem muito bem estar dizendo que você veio de outro planeta – o que também não é verdade, e por algum motivo acho importante relembrarmos isso. 

Essa parte, você não percebe, só eu. Ou melhor, você percebe porque eu sou o seu corpo e você está dentro de mim, mas eu oculto de você a eletricidade do outro por um tempo porque não é a hora de processar isso. Você só vai notar quando for tarde demais. Quando achar que vai chorar. Quando não chorar. Quando endurecer um pouco mais por causa disso.

O impasse no pagamento do café da manhã continua até que você tenta algo não exatamente inovador, que é ficar parado e deixar O Rapaz do Caixa cuidar de tudo. Afinal de contas, se há alguém que não tem a opção de desistir e simplesmente deixar você sair da padaria sem pagar, esse alguém é ele. Dá certo. O Rapaz do Caixa toca o visor da maquineta na primeira opção e observa que você acena um sim com a cabeça. Microinterações executadas com sucesso. Deseja comprovante, senhooor? Não abra a boca. Não abra a boca. Não abra a boca. A entropia não é uma opção. 

Você estende a palma mole de uma das mãos em negativa e se despede. Abre a boca. Solta um agradecimento baixinho e amarelo, que não demanda resposta, automático demais para cair nas graças dele, acostumado com rostos e vozes conhecidos, que projetam fonemas do jeito correto. Mas pela necessidade de nós três (dele, que precisa pagar as contas; sua, que precisa comer; e minha, que libero o comando da fome em você), amanhã de manhã estaremos todos no mesmo lugar, desempenhando os mesmos papéis: o dele, de ser um atendente de caixa; e o seu, de ser um forasteiro com o cartão em punho e o moletom eternamente amarrotado; e eu, que só falo porque você quer falar.

Passado o perrengue, não permito que você pense muito sobre o seu sotaque intenso, molenga e arrastado. Escolherei o momento mais inadequado para repassar essa cena diversas vezes na sua cabeça: em caminhadas do boteco para casa no domingo de noite, com a saideira na mão, ou quando eu fizer você acordar para mijar umas três e pouco da madrugada. Vamos lembrar das aulas de Introdução à Linguística, na qual os alunos dissecavam cada som do idioma e decoravam seus respectivos símbolos no alfabeto fonético, com especial atenção àqueles que inexistiam na língua portuguesa. /ð/: fricativo. O ar flui por meio de um estreitamento oral que bloqueia parcialmente a corrente aérea, podendo contar com uma vibração na garganta (se vozeado) ou suprimi-la (não vozeado). 

Mas você não está no exterior, e não precisa dominar a arte dos novos fonemas. Você fala a língua d’O Rapaz do Caixa e dos outros também, embora não como eles gostariam que você falasse. É o que eu faço você constatar. E friso as asserções mais desagradáveis para que cada suposição vista a roupa de uma Verdade Absoluta, e juntos entramos num looping de pensamentos, de forma que as estampas dessa roupa virem Tatuagens. Impossibilitado de dormir, resta a você pesquisar reels com dicas de dicção e treino vocal, emitindo baixinho sons que, na manhã seguinte, serão rapidamente esquecidos. Sim, na manhã seguinte, sonolento e distraído, o seu rosto marrento enfrentará apenas duas coisas: os semáforos e as incertezas sobre o futuro.

No trabalho, as pessoas ficarão felizes quando você comentar que o que menos sente falta em Manaus é do trânsito. Com voz e pensamentos embolados, você explicará que ele era intenso, molenga e arrastado, que o crescimento desordenado da cidade e o transporte público precário fez do carro o objeto de desejo definitivo de todo manauara – isso e dar o fora de lá, claro. E com o tempo, eu vou te sugerir, numa dessas madrugadas insones, que a satisfação deles naquela conversa surgiu por você saber o que são carros e o que é trânsito e o que é engarrafamento, conceitos que até então eles acreditavam ser de uma megalópole, e que, através desse entendimento, você poderá, talvez, um dia, elevar-se em direção ao que é ser como eles – sim, elevar-se no máximo até eles, um pouco abaixo, nunca acima. Porque no fundo, bem no fundo, todos sabemos que tu é um caboco velho burro do caralho, não? 

Você dormirá com essa única certeza, mas, na sexta à noite, a terceira dose de pinga numa noite glacial (glacial para você, porque para eles, a sensação térmica é de 16°) revelará a você uma nova Verdade Absoluta, servida num rolo compressor: que você é genial, foda, melhor que todos eles, que seu conhecimento técnico e habilidades sociais garantirão um futuro brilhante, como claramente está escrito no rosto dos peões que te acompanham bebedeira adentro, rostos de linhas fundas e sotaque cearense, talvez, um sotaque que se mescla um pouco com o seu, com palavras e ideias expressas da forma mais desconexa possível e que, no entanto, dizem tudo que precisa ser dito: que é melhor sair quando o sol esfriar, cuidar para a luz não dormir acesa e sentir coisas como “gastura” e “fastio”, eles sim sabem que você é foda, e eu, assim como eles, não quero que você se integre, eu quero você de verdade, que seus fonemas sejam incompreensíveis, que eles que lutem, que apertem os olhos na tentativa de te entender melhor e foda-se essa Porra Toda, e as emanações dessa Verdade Absoluta geram ondas imbatíveis de desconforto autóctone, e que por isso os outros vão tentar diminuir você. Para você caber na caixinha deles. 

E na manhã seguinte, atrasado, com uma ressaca fenomenal, você vai acordar com a seguinte Verdade Absoluta: a expressão “não se diminua para caber” era apenas o resquício de uma mensagem motivacional enfeitada com elementos do Canvas versão gratuita que você viu num post da Obvious alguns dias atrás, que você é banal por se deixar levar por isso, e que mais dia, menos dia, um coach com camisa de botão coladinha, jeans e sapatênis vai berrar imbecilidades na sua cara em recortes de redes sociais e você vai dizer isso bem que faz sentido, é isso mesmo, esse cara daria um jeito nessa cidade, com certeza, temos que tomar medidas extremas, começar tudo do zero, e assim você adiará o recomeço inevitável dos pensamentos obsessivos e não precisará pensar que você não consegue nem falar direito, falar como eles, falar que nem gente.

A placa uniforme de cinza pairará no céu, a única testemunha da sua corrida desembestada até a panificadora no caminho do metrô. Ela te faz pensar na empena que dá vista para o quarto. Eu suo, você sua, mesmo no vento frio que impala o salão e desaba sobre o cheiro do presunto na chapa. Eu faço você ignorar isso e muito mais até certo ponto, isso e o ranger do liquidificador, as interjeições do âncora do jornal sobre os efeitos da nova onda de fumaça de queimadas na região metropolitana. O atraso, o pão, requeijão na saída, que diabos isso quer dizer. Eu suo, você sua, você não está cansado, mas não faria mal meter um louco,não seria nada mal,  a entropia deixa de ser um medo e torna-se uma esperança e essa cidade talvez seja sobre isso e você já era um estrangeiro antes e esse agora é só um terceiro país, onde você se torna cada vez mais você mesmo, o Gran Duque Alienígena, mas eu não deixo você perceber isso, não é a hora, não é a hora de processar isso. Nunca é. É hora de pedir um pão com manteiga, um pingado, botar tudo pra dentro e responder: é débito ou crédito? Débito, de inserir.

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