ilhós

@brontopsbaruq

Antunes

Diante do espelho, trançava o cadarço pelos ilhós em um caminho tortuoso e apertado, até o pé contrair dentro do couro, da sola e da meia. Depois fez um nó e um outro nó sobre aquele. O cadarço, embora suave ao toque, possui uma textura longilínea: parece uma serpente de duas cabeças. Quando conclui, acha bonito o desenho das amarras sobre a língua de couro. Só então fica em pé.

Mas o sapato está pegando, não tem espaço entre o dedão e o final do calçado. Antunes decide não levar.

Alencar

De repente, deu o tranco e o veículo capotou oito vezes. Não que os ocupantes estivessem contando.

Antonino

A nenê ria submersa na cantoria da mãe. Essa beijava e pegava os pés, num mesmo gesto de cheirar, lamber, mastigar. A nenê se sacudia todo, explodindo felicidade e a mãe também, contente por ela estar contente. Então o celular toca, a adulta para, precisa atender. A nenê aguarda, olhando para o teto. Escuta vindo do aparelho uma voz baixinha e imperiosa.

Alison

De repente, percebeu que não tinha mais tesão pela Alison, mas agora não poderia escapar dela nunca mais.

Amélia

Sonhou que estava se casando e, dentre os convidados, estava seu irmão falecido num atropelamento. Como costuma acontecer com os mortos nos sonhos, ele participava da festa, mas não dizia nada. Apenas ela sabia e evitava falar a respeito para que não despertasse. Só no final de tudo, pouco antes do alarme tocar, o irmão se aproximou para dizer: “Seu noivo passou por cima de mim e não socorreu. Foi ele quem me matou.”

Abraão

Como Deus não apareceu, Abraão preferiu mentir que ouvira Sua voz e sacrificou o carneiro no lugar do filho.

Aurora

Lágrimas congeladas sobre o globo ocular da mulher morta refletiam as luzes boreais, que ela tanto queria ver e não viu.

Arrrrrh

O tigre dentes de sabre nem imagina o que seja sabre e que um dia receberá esse nome. Mas ele observa o cerrado do alto de um morro sob uma árvore. Ofega como um cachorro que nunca irá conhecer. Sua pata traseira tem um abcesso e um enxame de varejeiras, tataravós daquelas de sua cozinha, tentam botar ovos naquela ferida feia.

Sente fome. Mais adiante há alguns animais. Gostaria de investir contra um deles, talvez o grande e forte pastando logo adiante. Mas o herbívoro além de forte, é grande.

A perna dói, ele se sente esvaindo, os borrachudos e mosquitos arrancam-lhe sangue. Mas o sol está se pondo e uma pequena família caminha no meio daquele sertão sob um céu de mil cores. O tigre acha tudo bonito e ruge um sentimento ainda sem nome.

Ana

Quebrou o ovo e de lá saíram duas gemas. Sorte. Dia seguinte, ganhou na Mega. Passados dois anos terminou seu processo de transição. Olhou-se no espelho sem roupas. Estava feliz.

Aírton

Mexendo nas coisas do falecido pai, descartando boletos, jogando fora livros, revistas, cartas, resgatando documentos, escrituras, fotos. Toda a papelada de uma vida. Dentro de uma pasta de arquivo, achou um desenho que ele próprio tinha feito. O pai havia guardado e botado data: 22 de outubro de 1982. Um monte de rabisco com esferográfica e giz de cera. Letra de fôrma incompreensível.  Não reconheceu a imagem, nem relembrou o momento. Lixo.

Aruanã

O programa acabou há muitos anos e só passou na TV a cabo, mas ainda está no You Tube para quem quiser conferir. Daniela Suzuki na aldeia, vivendo no meio da tribo. O produtor queria a imagens dos índios vivendo como índios, como o telespectador imagina os índios, pelados, ingênuos, bons selvagens. Também servia como desculpa para apresentar a modelo seminua. Olha ela lá se banhando junto com as cunhatãs na beira do rio.

Daniela Suzuki iria acompanhar uma caçada. Dá para perceber que não queriam a presença dela, mas ela estava lá. Eram indígenas de short e camiseta caminhando entre as árvores, todos quietos, emburrados. A maioria descalço mas um de havaianas. Não usavam arcos ou lanças e sim espingardas velhas. Daniela Suzuki parecia tensa, coçava-se, comentava que não precisavam matar nada de verdade, era somente para ver como seria.

A câmera mostrou um macaco lá no alto. Aruanã não hesitou. Atirou e o bicho despencou. O índio recolheu do chão e o entregou para ela: Tó. As mulheres devem preparar a caça para a refeição. O macaco encolhia-se abraçado pela morte e pela modelo, atriz e apresentadora Daniela Suzuki. Transtornada, transfigurada, a moça do Rio de Janeiro começou a chorar de uma forma que nunca precisou representar na TV brasileira. Em agonia, ela dizia que a mãozinha do macaco parecia a de um bebê e eu, telespectador, chinelo no pé, sentado no sofá de casa, concordei silenciosamente.

Ahmed

Escutou as sirenes e as buzinas, mas ainda não havia terminado de se limpar. Escutou os gritos do outro lado da porta. Tremendo, apressado, Ahmed puxou o rolo até formar um chumaço de papel, quase buquê de noiva. Encaixou de qualquer jeito entre o cu sujo e a cueca e saiu sem lavar as mãos. Nessa hora, o míssil caiu.

Ashley

A alta pressão e os gases tóxicos da atmosfera venusiana esmagam a estrutura e os componentes do satélite da agência espacial europeia inclusive um longo fio de cabelo ruivo que havia se desprendido do couro cabeludo para se infiltrar discretamente no equipamento e ir muito mais longe que o restante do seu corpo jamais sonharia.

Alarico

O Império Romano agonizava e tribos bárbaras voejavam sobre a Península Itálica. Alarico comandava um bando saqueando uma aldeia. Apareceu um homem abrindo os braços, pedindo piedade em nome de Cristo. Um bárbaro não teve nenhuma e, antes do ataque, apostou uns denários com Alarico que deceparia aquele num golpe só.

Aposta aceita, lá foi o bárbaro. TCHÁÁÁ. A cabeça ficou pendurada por teco de pele, a cabeça ficou invertida, feito uma bolsa barbuda. O cristão sem parar de falar, a boca enxaguada de sangue, o vermelho brotando do corte e correndo em direção da testa e do chão. Alarico balançou a cabeça, aproximou lentamente do homem santo e – sem descer da montaria – terminou o serviço do outro. Só então, totalmente desprovido, o homem caiu. Alarico ficou algumas moedas mais rico.

No ano seguinte, quando Alarico retornou para saquear a mesma região, havia um ajuntamento de pedras que chamavam de Igreja e o Santo Protetor era aquele sujeito semidecapitado. Alarico não riu. Arriou do cavalo, fez o sinal da cruz e pediu para o Santo uma benção a seu bando.

Depois foi matar os cristãos daquele ano.

Atílio

Antes do estudante chupar, sentiu um caroço nos testículos dele. Afonso soube o que era, havia estudado para prova. Sorriu só de maldade, mas Professor Atílio pensou que era paixão.

Abe

Ao retornarem depois do terremoto e de tsunami, a família encontrou um cão, um gato e uma galinha sobre o telhado que sobrou da casa. Pareciam donos de tudo, reis e rainhas em seus tronos.

Alma

O sol da tarde ofuscava o dia lá fora e não muito longe escutavam-se crianças brincando às margens do lago. As crianças daqui não gritam como as de lá. Parecem que já nascem educadas, cruz credo. Alma esparramava-se sobre a cama, aguardando-o. A cortina ondulava na brisa preguiçosa da tarde, ele não pensou em fechá-la: aqui não é perigoso como Natal. Alma era a mulher mais vermelha e mais sardenta que já havia visto, eram manchas e mais manchas, como se fosse varíola. Ele a virou várias vezes, como quem avalia uma peça, contando as sardas. Percebeu que sob a penugem aloirada a bunda era toda pintadinha mas o ventre e a virilha não. Esqueceu-se daqui, apontou com o dedo em português.

Alma só riu, não se sentiu embaraçada. Abriu as pernas e sob o mato vermelho de pentelhos, a buceta exibia uma gengiva úmida e delicada.

-Aiotko naida minua vai et?

-Da rolinha que o carcará comeu, só ficou pena. – ele disse antes de partir para a lida.

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