
Terça-feira, 17 horas. Ainda é meio de outubro. Você leva um choque ao ver o primeiro panetone à venda, mesclado a uma decoração furreca de Dia das Bruxas. Vem o peso da preguiça ao pressentir a obrigação árdua da compra dos presentes de Natal. Uma quase enxaqueca seguida de arrepios rememora o caos que é a disputa das vagas nos estacionamento dos shoppings centers. Tarefa que esvazia a carteira e infla o tempo morto na espera das entregas do online. O seu prédio não dispõe de portaria. Após um longo hiato de solteirice assumida, você se encontra no início de um relacionamento. Poucos meses, dois, três. Não mais que quatro. Não sabe a data exata porque não fez o pedido formal de namoro. Uma mulher interessante, porem você não a ama. Ela passa longe do seu ideal de beleza. Mas mora perto, é inteligente, independente. E mãe de uma menina de seis anos. Sem vocação para a paternidade, você vê-se encurralado com a proximidade do Natal: não sabe se deverá comprar um brinquedo gigante ou dar apenas uma lembrancinha para uma criança que não é tua, que pouco convive, menos ainda sabe se gosta. Você não suporta mais dissertações sobre educação alternativa, escolas com nomes esquisitos e o fato de a garotinha lanchar pepinos cortados e cenouras palito entre as aulas. Então você se recorda que sua mãe enfiava na sua lancheira um bolo do Bozo recheado com o puro creme da gordura trans, embalado por um plástico metalizado e regado a um Ki Suco que tingia sua língua de um rosa radioativo sabor tutti frutti. No fundo, bem no fundo, você sabe o que quer. Viajar. Viajar. Só. Sozinho. Fugir da convivência, da comilança, do social constrangimento familiar. Coadjuvante de uma tragédia ou comédia da qual ainda não faz ideia do fim que terá o roteiro, você é um covarde que evita o olho no olho. Envia de supetão uma mensagem de texto dúbia na qual se dispensa de todo e qualquer vínculo com aquela que neste momento considera ser a sua namorada. O panetone pula para dentro da cestinha de compras. Em casa, sente-se aliviado em devorá-lo sozinho.
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Embora viva em 2024, você é uma senhora criada à outra maneira. Tutelada, oprimida. sob uma suposta fraqueza física, pasmem emocional. Com uma inteligência que por anos foi subestimada, tal pretexto hoje lhe parece irrisório. Você nunca teve voz para engajar opiniões, tampouco orelhas dispostas a escutá-las. Aprendeu a renunciar. Dominou muito bem, os impulsos, os instintos. Tornou-se a leoa que defende na unha o lar, os filhos, a si mesma. Uma confusão lamentável ainda perdura nos seus setenta e sete anos de idade quando descobre, através dos diálogos que tem com sua neta Jamilla a propriedade e o significado da palavra feminismo. E navega em uma nova consciência de valores que já não acata como exagero. Excepcionalmente esta noite Jamilla não terá aula no curso de Direito da universidade mais concorrida do país. Embora se orgulhe da sua neta que está a um ano de se tornar doutora, lhe soa esquisito o fato dela ser vegetariana, lésbica e comer lasanha sem o constrangimento de engordar. Em poucas horas jantarão juntas. Se reconhecerão mais. O novo capítulo dessa história necessita de braços abertos, compreensão, um pacote de massa, uma lata de molho de tomate, meio quilo de mozzarella e bastante parmesão ralado.
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Aos 25 anos, você conquistou cedo o espaço só seu. Chama isso de independência e maturidade. Embrenhada na aventura da vida adulta, você percebe que o idílico vem acompanhado de doses cruéis de uma realidade até então ignorada. Roupas não se limpam sozinhas, nem a poeira do chão magicamente desaparece. Há uma semana a lava-louças resolveu não mais trabalhar e hoje, a pia da cozinha não escoou a água da panela lavada. Do cano surgiram sons borbulhantes e odores desagradáveis. Diante do ralo bloqueado, você, de luvas amarelas e cheia de nojinho retira com o próprio dedo o excesso de alimentos, gordura e caroços acumulados. Busca no google o que fazer e se dá conta de que não há em sua casa um mísero desentupidor manual para bombear a superfície do dreno. Mas há vários cabides comuns, desses horrorosos de alumínio que a lavanderia devolve com seus vestidos passados. Você estica um da maneira mais tosca possível, dobra uma extremidade e empurra o pequeno gancho para dentro do cano. Do limbo da sujeira pesca greemlins e detritos acumulados. Você ferve uma chaleira de água que despeja lentamente na tubulação. Horror. O entupimento persiste. Antes de apelar para a soda cáustica ou pagar pelo serviço de um canalizador profissional, você descobre que bicarbonato de sódio, vinagre e coca-cola são também alternativas viáveis.
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Você é um homem que não se destaca na multidão. Não é alto, não é baixo, tem peso compatível e rosto comum. O perfil dissimulado de comportamento está sempre a representar. Você finge bem ser mais um. Decepciona pessoas com as quais convive. Sente prazer em fazê-las verem-se culpadas diante da sua rejeição. Ainda mora com seus pais. Não contribui com dinheiro em casa. Raramente se oferece para rachar a conta do restaurante. Popular com as mulheres, é infiel nos relacionamentos. Mente mesmo quando não há razão para isso. Pouco se mostra além do olhar fixo, do sorriso artificial. O lado violento é tido de forma simplista como um ah, ele é mesmo doido. Protegido pelo anonimato do outro lado da tela e VPM irrastreável, você é uma fraude infiltrada em empresas e organizações. O temível predador. No seu bairro há uma praça onde crianças pedem dinheiro no farol. Todos os dias você compra uma dúzia de pãezinhos e distribui a elas.
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Ontem você foi diagnosticada com depressão. A sua cabeça está uma bagunça. Moral, emocional, física e jurídica. Hoje você arrumou a cama. Decidiu abrir armários. Visitar antigas gavetas. Da mais baixa, trancada há anos, saltam souvenirs banais, objetos entulhados, cartas carcomidas. Dentre pequenas coisas, encontra uma flor. Morta, desperfumada, sem resquício algum do cravo vermelho que uma noite prendeu nos cabelos. Você encosta a testa no vidro da janela. Tem vergonha de si mesma. O som impreciso de um blues reverbera notas desafinadas no teu quarto. A memória recua três casas no jogo da vida. Esfumaça contornos do que não mais distingue. A flor vai para o lixo. Um papel tolha embebido com álcool gel desinfecta o móvel. Tudo o que você deseja nesse momento é enfiar na boca uma bela bomba de chocolate.
(Glaucia Faria)
