
Beatriz Bracher, 63, paulistana, é uma das principais autoras contemporâneas, com uma obra sólida e consistente na abordagem dos conflitos sociais (no conteúdo) e na multiplicidade de vozes, de pontos de vista e de lugares de fala (na forma), com um trabalho de linguagem sempre inventivo. Ex-editora da 34 (que publicou todos os seus livros) e atual editora da Chão, escreveu romances premiados como Azul e Dura, Antonio, Anatomia do Paraíso e Não Falei, e livros de contos como Garimpo e Meu Amor, de onde o conto abaixo foi retirado. Escreveu também os roteiros dos filmes Cronicamente Inviável e Os Inquilinos, de Sergio Bianchi, e O Abismo Prateado, de Karim Aïnouz. Sua obra mais recente é a impressionante trilogia Guerra, de cerca de 2000 páginas, uma proeza da prosa de edição: trata-se de uma colagem de centenas de cartas, fragmentos de diários, correspondências oficiais e notas jornalísticas redigidas por militares, engenheiros, enfermeiras, mulheres e outros personagens menores da Guerra do Paraguay.



Este conto perfeito traz uma história muito simples, cujo conflito se introduz pouco depois do meio e cujo desfecho é implacável no último parágrafo. O título é enganoso, mas sugestivo. Uma mulher da classe alta, não totalmente alienada do estado de violência devido à desigualdade, porém morrendo de medo de ser assaltada, acaba “cedendo” ao carro blindado. A mulher anônima passa metade do conto se justificando (na primeira pessoa, no passado). Porém um dia, parada no sinal, um homem bate em seu vidro com um revólver, ordenando-a que o abra. Fascinada com o espetáculo da violência tão perto, sentindo-se segura pela blindagem porém hipnotizada, encara o homem, que vai ficando furioso. No entanto, quando tudo parece se resolver bem para a mulher, ela se lembra de que justamente naquele dia saiu com o carro não-blindando, pois é dia do rodízio. Ou seja, ela realmente pode morrer – esta lembrança é narrada no presente. Pede piedade ao ladrão. O homem então tem uma atitude inusitada: quebra o vidro do carro com o revólver e foge – e a mulher percebe que o revólver era de brinquedo. O que justifica o título “Ficção” mas acrescenta outras camadas: seu medo também não seria uma ficção? Ou seria também ficção a sensação de estar protegida por uma blindagem? Uma blindagem não seria uma espécie de ficção?
PROPOSTA
A ideia é você criar sua história usando elementos da história acima:
- seu personagem sente medo de receber alguma violência;
- com medo, seu personagem tenta se proteger;
- mas não adianta nada, a violência vem visitar seu personagem;
- seu personagem não conseguirá escapar à violência;
- o desfecho pode ser trágico, cômico ou dramático (pense nele desde o começo).
Ainda que elementos da vida do seu personagem possam aparecer no começo do conto, antes do conflito propriamente dito (quem é, o que faz, onde vive, como é sua rotina etc etc), toda a ação deverá acontecer em um único dia. De preferência em uma única cena, em um único lugar, único tempo.
Narre na primeira pessoa, em até 9 mil toques.
