A teia

A teia (Carol Schettini)

Por ter caído na teia, morri. Se eu não tivesse marcado consulta, se tivesse ficado quieta. Você não se cuida, não faz um exame, não quer saber. Saber? Não quero saber. Você precisa ir. Marquei a consulta. Caí na teia. Foram exames e mais exames. Tira sangue, espera aqui, radiografia várias. Consultas muitas. E o resultado? Foi buscar? Buscou? Olhou? Nada, não tenho tempo. Preciso trabalhar para pagar as contas, depois teve a viagem programada para a praia e trocar o pneu do carro que furou na estrada. Com o pneu veio a tremedeira na minha mão e no volante. Troca bobina e parafusos e lá se foram cinco mil reais e o exame extra o convênio não cobria, se eu pagasse em vinte e quatro prestações de duzentos com fiador e avalista e crédito bancário. Não dava. O carro era mais importante. Leva em qualquer oficina e troca as peças. Deixa, eu faço o exame depois. 

Estão ligando do laboratório, a contagem foi baixa, bem baixa. Sem problemas, tomo couve e laranja e passo base nas olheiras cada dia mais escuras. Olhou o e-mail? Tem e-mail marcado com urgente. Deve ser golpe, vírus, desliga o computador, coloca um vpn, sei lá, vou abrir só no serviço, lá não abre e-mail pessoal, deixa para amanhã, para o outono, primavera. Para quê fui na consulta? Eu tava tão bem, sentia nada, rotina, rotina, todo mundo deve fazer, melhor encontrar logo, melhor encontrar nada, melhor viver feliz como está sem essa preocupação, mensagem urgente, telefone fixo ligando, cancela a conta, não quero que toque, cada tirm trim dá um nervoso, uma chatura. Que dia você vem? Quando der, eu vou. Quando vai dar? A qualquer hora passo aí, não liga mais, por favor. Melhor cancelar o telefone, quem liga para número fixo?

Dói?

Dói? 

O quê?

Dói aqui? 

Não, o quê?

Dor não é substantivo abstrato. Talvez, na gramática. Na escola tudo era concreto pra mim. Tudo. Amor? Concreto? Esperança? Concreta. E vai, vai, vai. Isso é que dá. Inventar de ir ao médico sem dor, sem nada. Precisa se cuidar. Há quanto tempo você não faz um exame de sangue. Exame? Olha sua cor. Cor de falta de praia. Cor de falta de sol. Só chove e passo protetor solar sessenta ou noventa e uva e uvb e faz exame de sangue e falta vitamina d. D de demais. Não é d de dor, dói.

Onde?

Aqui tem um caroço?

Um caroço?

Encosta.

Uma bolinha.

É um caroço. 

Caroço é caroço de azeitona, de manga, de pequi. Pequi, caroço espinhento. Virei um arroz (estou branca) com um pequi. Um único pequi. Todos os espinhos que deixei de jogar nos outros, no chefe, na amiga invejosa, na pessoa sem educação. Uma bolinha. Uma bolinha espinhenta de nada. Não dói. Se doer é melhor, disse o médico. Se dói não tem problema, disse o médico. O senhor que vai sentir a dor? É? É? Olhei para ele com cara emburrada e não disse nada. Saí de lá agarrada na teia com uma resma de papel com exames e exames e exames. Uma punção. Precisa fazer uma punção. 

Punção

1 Ato de pungir. (…) 4 Med Procedimento que consiste em introduzir um instrumento pontiagudo, capaz de extrair material líquido ou purulento de qualquer tecido vivo.

Procurei no dicionário, cadê o aurélio?, o dicionário azul, tinha dois na estante, tinha três. Cada ano, comprava um novo, não achava o anterior, comprava outro, ninguém nunca abriu um dicionário depois do google, ninguém brinca de achar palavras e dar significados, tirei nota baixa na redação porque não escrevi na caixa, não segui a regra, não usei o repertório, não colei, não colei, não colei, inventei uma história pra nada. Uma história pra mim, sem teia, sem médico. Por que fui ao médico? Você não se cuida, não faz exame. Fui à farmácia. Pedi um termômetro antigo de mercúrio. Não tem. Tem digital, de testa, nem precisa encostar, que?. Quero um de vidro, de sovaco, cai no chão, quebra, a bolinha do mercúrio se esparrama, se alguém encosta, vira mil e uma bolinhas, quero furar a bolinha, vão furar o caroço pode virar monte de bolinhas monte de carocinhos e vai e anda a bolinha vai para um lado, para o outro, para o gol. Gol. Amanhã, faço o exame, vou ao jogo do Brasil no estádio, todo mundo vai, vou também, dane-se o exame, ano que vem faço, mês que vem de tarde, não me liga, desliguei o telefone fixo da parede, vou deslogar o computador, não quero ver e-mail nada. Se eu não tivesse entrado na teia, não teria exame, punção, mercúrio. Mercúrio retrógrado. Marquei uma cartomante. 

Vejo Paris.

Paris?

Na Europa.

Tem chuva?

Chuva só de arroz.

Foi um boa ideia ouvir a cartomante. Por dinheiro falou do meu belo futuro, filhos, viagens, casamento nas ilhas Maurício, Europa, melhor do que o laboratório, ligou, mandou e-mail, encontraram meu whatsapp. A senhora não vem buscar o exame? Tem que repetir. Três dias seguidos em horários diferentes. A ressonância manchou. Precisa marcar outra. Urgente. Meu Deus! Quem informou meu número?, deveria ser proibido. Não quero resultados, mais exames, mais nada. “Uma urgência inadiável de ser feliz”, fala Caio, conta pra eles. Só vou porque se adiar vou ter que pagar tudo de novo. 

Espalhou.

Espalhou?

Acontece.

E agora?

Espera.

A bolinha do mercúrio quando caía no chão, virava mil bolinhas, espalhavam. Tóxicas, tóxicas, ninguém encostava na bolinha. Junta a bolinha com luvas. Antes da punção, a bolinha estava encaroçada sozinha sem dor, sem reclamar, agora dói, dói, dói. 

Por que o médico não usou o verbo esparramar? Esparramaria meu corpo na cama, esparramaria meu corpo na areia. Espalhando não tem como debandar. A culpa foi toda minha. Quem mandou eu ir à consulta? Triste se apegar a detalhes idiotas quando a vida está prestes a demandar. Mas, por causa da teia, morri. Tenho certeza. 

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