anunciação

Quando soube que poderia ser violentada, decidiu envelhecer. Engoliu ano após ano, as rugas demarcando linhas, a pele se soltando dos ossos, os músculos e os cabelos rareando, a pança submetendo-se à gravidade. Sentindo-se acuada, decidiu vomitar toda a idade, rejuvenescer, os peitos enfiando-se na pele, o corpo tornando-se rijo. Mas o homem escreveu que desejo não enxerga o tempo, vê apenas o corpo.

Quando soube que poderia ser violentada, decidiu tornar-se grotesca, repulsiva. Confinou-se em seu quarto, em um regime repleto de carboidratos. Com agulha e tinta, rascunhou em sua pele, monstros, blasfêmias, maldições. Evitou o sol e os banhos. Deitou-se com animais sarnentos, rolou por pastagens de carrapatos. Raspou o cabelo da cabeça e deixou crescer em outros lugares. Cobriu-se de panos para ocultar sua forma, exibiu-se em nudez constante para que se desinteressassem. Mas um homem sentiu seu cheiro e deitou-se diante da porta do seu quarto esperando a hora que abrisse.

Quando soube que poderia ser violentada, decidiu desaparecer. Escapou pela janela, pegou a estrada, afastou-se no ermo, apagou seu rastro, distanciou-se de todos, deletou endereços, desligou telefones, ausentou-se. Fez-se eremita. Buscou sua caverna, construiu sua cabana, cultivou alimentos, fez sua carne, cavou seu poço. Desencontrou-se de todos os corpos, anulou sua presença, buscou o máximo de egoísmo. Mas um dia notou uma estrela no horizonte. Não era Vênus, era um reflexo de uma luneta atrás de sua buceta.

Quando soube que poderia ser violentada, decidiu se espalhar. Tornou-se floresta, encheu-se de árvores e criaturas, abriu-se em oceano, estremeceu-se em ondas e profundezas. Quis ser montanha, quis ser deserto. Mas a mata era queimada, os rios traziam lixo, montanhas mineiradas até serem planícies e desertos eram preenchidos com cassinos. Tentou ser atmosfera, mas um homem soprou-lhe fumaça de charuto.

Quando soube que poderia ser violentada, decidiu se vingar. Invadiu quartéis e lupanares, atacou presídios e mosteiros, buscou em vestiários e academias. Cada homem capturado era castrado e torado. Mas eles tinham mãos e dedos e mesmo após amputá-los, eles a ameaçavam com cotos e línguas.

Quando soube que poderia ser violentada, decidiu ser Rainha. Senhora de seus palácios, castelos, casarões. Cercou-se de muralhas, torres, ameias, exércitos, legionários. Exigiu protocolos, comandos, etiquetas, respeito. Submeteram-se, beijaram sua mão, subornaram-na. Mas havia leis e acordos, alianças e acordos, e queriam um Rei, um Príncipe, alguém para manter seu país. Pois não muito distante, na fronteira, havia outros Reis e Inimigos esperando a oportunidade para estuprar a ela e a todos os outros.

Quando soube que poderia ser violentada, desistiu. Não queria saber seu nome, nem o que tinha para dizer, mas o anjo se anunciou mesmo assim: sou Gabriel, prepare-se para ser a mãe de Deus.

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