Você sai do quartinho de paredes descascadas pela última vez. Sai de mais um quartinho. Leva uma mochila carregando só o que julga ser essencial. Celular, carregador, cuecas, para caso consiga trocá-las, três pares de meia. Uma pasta com seus documentos: cópia do RG, certidão de nascimento, remédios, uma carteirinha de vacinação que sua mãe guardou da infância, cópia de um processo que hoje já não é mais capaz de mudar sua vida. Chaves não tem mais. Nos últimos dias, sabendo do inexorável despejo, você começou a traçar planos. Em que esquina dormiria? Foi observando os tantos moradores de rua, seus hábitos, a arquitetura de suas casas de papel ou tecido, os cachorros que eles tinham. Não é uma possibilidade de outro mundo. Você chegou a morar umas noites na rua há dez anos, quando foi tentar a sorte em um trabalho que deu errado no interior. Mas aí você dormia na rodoviária, daquelas que cortam uma rua da cidade. A rua sem vivalma. Conseguiu juntar no gogó o dinheiro da volta. Agora é diferente. Agora você tem pressão alta, artrite no joelho, sente dores. Agora você tem mais medo.
Você passa a primeira noite na marquise de uma esquina entre ruas escondidas do bairro, longe das avenidas e do disputado canteiro central do Minhocão. Deve ser preciso alguma moral pra conquistar aquele espaço. Senta apoiado na parede, não olha o celular, que não tem mais internet. A noite é fresca, quieta. Você respira melhor do que no bafo de roupa suja do quartinho. O plano é não dormir, ficar atento. Mas você acaba pegando no sono, e acorda todo troncho, formando um L entre parede e calçada. E é claro que roubaram sua mochila. Coloca a mão no bolso, o RG original e seu parco conjunto de notas de dinheiro continuam lá. Um banho te ajudaria a pensar melhor.
Na Praça da República, você descobre que as cabines de banho da prefeitura estão sendo desativadas. Tem gente usando a água do meio fio mesmo pra se limpar. Você não vai entrar nessa, mas tudo bem. Não tem mais cueca limpa mesmo. Perto do meio dia, a fome bate, e você vai até o Largo do Arouche, onde sabe que um pessoal distribui quentinhas. Entra na fila, mas logo vira alvo de um cara. É um homem alto e largo, de cabelo descolorido, sem um dente da frente. Ele fala alto e discute com outras pessoas. O cara te impede de ficar na fila e diz pra você nunca mais aparecer ali. Isso aqui é pra quem não tem dinheiro pra comer, caralho. Outro homem, também alto e impositivo, usando colete amarelo, intervêm. Tem ares de professor de meia idade, rabo de cavalo, olhos azuis opacos, rugas profundas ano rosto. Aqui a gente dá pra quem pede, já falei. Para de causar Zé! Enfim você consegue a quentinha, que já não é tão mais quente assim, e almoça ali no meio mesmo, onde julga estar mais protegido. Come macarrão com salsicha na colher de plástico, sentado no meio-fio. Depois, você se dá ao luxo de gastar três reais tomando um copo grande de café no carrinho do Carlos. Ele te conhece dos tempos do penúltimo do quartinho, perto da Luz. Você senta no banquinho. E naquele momento, cafézinho quente e doce pra danar na mão, você se sente quase normal.
Sua cabeça está começando a girar um pouco. Talvez seja a pressão subindo. Precisa ir logo no postinho buscar remédios. Antes disso, tem uma ideia. Gasta mais dois reais com uma barrigudinha e vai tomar no pequeno Parque que visitava anos atrás. Talvez lá tenha bons banheiros, talvez você consiga descansar um pouco na grama, enquanto ainda se parece com um cidadão. No Parque, você não dá sorte: banheiros interditados. Se senta perto do lago, e nota como ele também parece pior. A água verde-radioativo, tipos estranhos de alga na superfície. Ainda assim, você decide coletar um pouco de água dali com a garrafa de barrigudinha pra se limpar mais tarde. Deve ser melhor que a do meio fio. Ao tirar a garrafinha do lago, para a sua surpresa você descobre que capturou um peixe.
É um peixinho cinza e esbugalhado, com uma pele grossa feito duro, cheia de relevos que lembram tumores. Você resolve ficar com o peixe. E vai chamar ele de Barrigudinho. Sai do parque com a garrafa embaixo da camiseta, pensando onde vai dormir de noite. No dia seguinte, o peixe já parece maior. Te olha no fundo dos olhos. A cabeça roda. Você dá de café da manhã pro peixe pedaços duros de pão francês que achou no lixo. Esconde o Barrigudinho num buraco de árvore e sai pra tentar arrumar um bico nas mil construções nos arredores. Nada. Volta semana que vem, aí sim vai precisar de gente. Come no Arouche, hoje tem arroz, feijão e carne cozida. Faz amizade na fila com um homem tranquilo, o Vander, que reclama que precisa de óculos novos. Conta pra ele sua história, e o Vander fala que tem lugar do lado da barraca dele, perto do Terminal Amaral Gurgel. Se você não ligar pros cachorros, que não fazem nada, mas latem muito. Você não liga, claro, já teve muito cachorro na vida.
De noite, você chega lá e conhece a turma do Vander. Te explicam regras simples: não acumular lixo, revezamento pra varrer a área, dividir tudo que pintar de comida, cozinhar no fogareiro improvisado, dar uma contribuição diária sempre que possível. Ter proceder. Não talaricar. Te oferecem um gole de barrigudinha, e depois de outros tantos goles você revela o Barrigudinho, que agora no fim do dia cresceu mais ainda. A couraça começa a encostar no plástico. O olho esbulhagado encara o pessoal incrédulo, e um amigo do Vander pensa estar em uma viagem errada de crack.
Você acorda com uma gota do minhocão caindo bem no seu olho. E vê uma cena de filme de terror. O couro do Barrigudinho estirado no meio fio. E um cheiro de peixe frito no fogareiro.
