Então é assim?

por Américo Paim

Melhor fechar aquela cerca direitinho. Umas frestas aqui e ali. Pode passar bicho grande. Ou coisa pior. Amanhã eu chamo Dedinho e ele dá um jeito nisso. Hoje é aproveitar esse sol. Adoro essa sensação do calor na pele. Aqui é sempre tão diferente. Fazia tempo que não dormia tão bem, delícia. O quarto limpinho, cheiroso. O que seria de mim sem Odete? Uma benção. Ainda bem que ela topou morar nesse sítio. É que eu pago bem e ela sabe que a situação do país tá difícil. E assino carteira, tudo certinho.

Que calor é esse… Nem dez horas da manhã e tô aqui suando feito uma porca. Vento escroto, faz de conta que essa cozinha nem existe. Ela viu isso na hora que comprou esse lugar? Ou só ligou o foda-se mesmo? Só vem aqui pegar água, copo de leite, biscoito sem graça. Não quer engordar, mas tá ficando é fraca. Só malhação não resolve. Tá novinha ainda, de carne dura, só que num guenta um murro. Tá lá tomando sol. Também… branquela como é… O que não se salva é aquele nariz, pontudo feito sariguê. E gasguita ainda por cima. Quem guenta? Num vai ter mais homem nenhum. Se algum soubesse o que eu sei…

Essa horta foi uma ideia boa. Nada de química e dá uma levantada no quintal. Ainda tem essa vista maravilhosa do vale. Morar aqui foi a melhor decisão. Quarenta e cinco minutinhos de cidade grande e tô muito mais segura. Ninguém me conhece. Não vão me achar aqui. Nadir é uma corretora retada. Achei que só queria dinheiro e ela mandou bem com esse sítio. Nem sinto falta do pique de antes… Tem tudo aqui. Até a Internet é boa, nem posso me queixar. Talvez nem precisasse colocar as câmeras, mas me sinto melhor. E são discretas. Se eu não tivesse tanto medo de cachorro…

Ainda bem que resolveu comer carne com verdura hoje. Saco cheio daquelas receitas de site, de WhatsApp. Uma amiguinha que nunca botou o pé no fogão escreve qualquer merda e ela entuba. E tenho que explicar o trampo todo pra ela me deixar em paz. Despensa cheia, freezer lotado e ainda quer inventar novidade. Devia pegar outro homem, só que agora já deu. Fica ali no computador. Diz que é só trabalho, mas já vi site de putaria e tantas outras coisas. Também vi o que ela num queria. Ela larga a tela escancarada toda hora. Deve achar que num entendo as coisas. Azar dela.

E se eu colocasse umas pedras rústicas, um caminho estilizado até a estufa? Olha que bonito ia ficar. E pensar que achei isso um elefante branco no dia que cheguei. Só preciso dar uma arrumada. Depois de tudo resolvido, claro. Aí vou cultivar peônias, scabiosas. Dona Bartira podia ter deixado umas aqui. Velha casquinha. Foi pra um sítio bem maior, com duas estufas. Tá bagunçado, mas por enquanto tem que ficar assim, Leila. Não esqueça: ninguém pode entrar aqui. Nem Odete. Seja, vigilante, Leila. Não dê mole. Se entrarem aqui, sabe bem como vai acabar. Ah, o carro da segurança passando. Bem na hora.

Tá na estufa de novo. É lá, com certeza. De manhã é até bom ela ficar ali. Me dá sossego e não tira minha concentração, mesmo com esse silêncio. Essa paradeira aqui dá um medo às vezes. Só escuto bicho, vento. Sem cachorro, gato… Num fosse o carro da segurança por aqui cada hora, eu podia dizer que tava em Marte, um lugar assim esquecido. Marcinho tem que passar no horário hoje. E sozinho. Aquele parceiro dele me irrita. A ronda sempre tem dois caras. Pra quê? Ele que lute e num me deixe na mão. De hoje num passa. Ele sabe disso. E tem que ter cuidado. Dona Leila é toda certinha.

O vento hoje tá meio estranho. Vindo do sul. Aos poucos eu aprendo. E tá menos quente pra essa hora. Nunca vi assim. Tem mais urubu no céu e não tô sentindo cheiro ruim. Aliás, é outra coisa boa daqui… Além do silêncio, da segurança, tem esse ar maravilhoso, cheio de aroma bom. De mato molhado, adoro! De jasmim, uma delícia. E da comida de Odete, né? Vou dar um chego na cozinha. Será que ela entendeu o que eu pedi? Não pode assar demais o filé. E as verduras cortadinhas, mas não tão miúdas. Vou lá.

– Odete, como tá o rango aí?

– De boa.

– A cenoura tem que cortar maiorzinho, né?

– Hum hum.

– A batata é só coradinha. Eu gosto…

– Meio durinha, tô ligada.

– E os brócolis?

– Tudo certo, Dona Leila.

– O cheiro tá bom. E a carne?

– Vou começar a fatiar.

Quanto tempo eu aguentei isso, hein? Veio fazer o que aqui? Vai dar uma voltinha por aí, pisar num espinho, qualquer coisa assim. Me deixe trabalhar. Eu devia ganhar mais pra aguentar essa encheção, longe da porra toda. Mas isso se resolve e é hoje. Agora, falar a verdade, é tudo qualidade aqui. Verdura de quintal, panela boa, fogão de primeira, faca afiada, cozinha grande. A carne bem macia. É só esse calor… Fico nervosa. Tô suando sem colocar nada no forno. Nem tem uma gelada. “Madame saúde” não bebe. Olhe, me deixe cortar a porra do filé…

Odete é forte mesmo. Tá um pouco acima do peso, mas tem um rosto até bonito. Uma dieta ia valorizar. Homem gosta desse corpão assim, morena, cheia de curva. Ela sabe cortar uma carne. Será que tem gente na família que trabalhou com isso? Nunca perguntei. Olha que habilidade. A faca passa suave, abrindo a carne como folha de papel. Deve ser estranho sentir a faca cortando. E cortar a carne mole assim, crua e morta? Nunca fiz isso. Não precisei. Só assada ou cozida. Acho que não conseguiria fazer. Sou muito medrosa pra essas coisas. Pensando bem, nunca nem me cortei. Lembro que fiquei até com nojinho quando vi o sangue de Felipe. Será que ele sofreu muito? Olhe, me deixe, viu, Leila. Tá louca? Você ficou com a melhor parte. E ninguém desconfiou. Perfeito. Ninguém sabe o que passei. Arda no inferno, desgraçado.

Ela come tão calada. Cê nem percebe que tá na cozinha. Mastiga devagar que irrita. Deve tá é ruminando um monte de merda nessa cabecinha complicada. Só tem cara de santa. Me ganha não. Tô bem esperta pra ela. Tô ligada nos seus podres, fia. Sei tudo. Por isso o finado me procurava. Se deu bem comigo, mas vacilou com essa barata branca. Só que eu inda tô aqui e quero minha parte. Daqui a pouco essa lagartixa vai pedir o suco detox. Tá na geladeira. Ela pode pegar. Claro que não. Vai me pedir. É só pra mandar mermo. Vai comer maçã também? Depois vai correr a casa, as fechaduras, janelas, cortinas, me falar pra olhar tudo lá fora, de novo. Aí vai desligar o celular, me pedir pra não fazer barulho e vai pro cochilo. No fim da tarde vai acordar e pedir o chá, quando o sol esfriar, se é que esse demônio vai quebrar esse galho hoje. Valei-me, senhor! Isso vai acabar, tenha fé, Odete.

Hum soninho bom… Nem sonhei com nada. Não sei se isso é bom. Daqui a pouco, meu chá. Fico aqui me espreguiçando ou vou lá fora dar uma olhada? Nunca é demais. Hum, será que já tá frio? Vou colocar um moletom pra garantir. Uma chegadinha rápida. Fico melhor se conferir que tá tudo em ordem lá. Esqueci de falar a Odete que queria chá de camomila.

Eu sei que só pode tá aqui. Onde, onde? Já procurei em tudo que é lugar desse sítio. Não vi pista no zap, mas tá aqui, eu sei, eu sinto. Será que ela cavou um buraco? Não, não, esse chão é duro. E ela num tem essa força. Aqui não tem cofre na parede e não cabe nos vasos de planta. Tem que tá nessas caixas velhas. É muita caixa. Tenho que achar hoje. Já tô cansada de procurar. Só pode tá aqui. Que tamanho deve ter? É muito dinheiro… Aquele safado num roubava pouco. Será que tá dentro de uma parede dessas? Não. Ia dar muito trabalho.

Que luz é aquela na estufa? Esqueci acesa… Melhor apagar.

– Odete, o que significa isso?

– Acordou mais cedo, piranha?

– Que jeito de falar é esse? E eu lhe disse pra nunca entrar na estufa!

– Guardou o dinheiro aqui, num foi?

– Do que está falando?

– Qualé, derrube logo. Me poupe trabalho. Eu sei de tudo.

– Tá louca? Vou chamar a segurança!

– Vai mermo? Eu num fiz nada, mas cê é ladra. O dinheiro era dele.

– Hein?

– E matou ele. Num sei como foi, mas foi você.

– Tá com muita coisa na cabeça, Odete.

– Quietinha aí. Não vai fazer merda. Eu sei usar essa faca, viu?

– Você num tem essa coragem.

– Experimente.

– Vamos conversar, a gente se entende.

– Porra niúma. Cê é pior que cobra. Quero a grana toda.

– Acha que vai sair dessa assim fácil?

– Tô ficando sem paciência, Leila.

– É Dona Leila pra você!

– Cê tá sem noção, né?

– Calma, não se aproxime mais.

– É fácil, vadia: me dá o dinheiro, eu vou embora e nem conto nada.

– Eu posso gritar. A segurança chega já.

– Marcinho? Vem me buscar.

– Repare, Odete. Tudo pode se resolver.

– Cadê, mocreia?

– Por que a violência? Cuidado com essa faca, calma.

– Tô ficando impaciente…

– Não, por favor, chega pra lá. Tá naquela caixa marrom ali.

– Bora, pega logo.

Pra que fui… reagir?… …

O dinheiro… … era só… meu… …

Aquela… … desgra…çada… … …

Achei… … que ela num tinha… … … coragem… … … … …

O vento… … … frio… … …

Então… é assim… … … … a faca corta… … … …

É essa a sensa…………..

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