
Poderia seguir a tendência literária vigente e classificar esse exercício como auto ficção. Ou, associar a proposta sobre violência relatando o que hoje encaro como um lapso pessoal. Memórias póstumas até então desacordadas que de repente não mais que de repente ressurgiram das trevas e mandaram aquele olá, você já esteve neste lugar. O confesso que vivi mais sem graça possível. E não, não vou inflacionar a narrativa ao desprezar, enaltecer ou ignorar nuances, pontuais ou complexas, de tudo o que não esteja sintonizado com o tempo-espaço-político-social de hoje, 2024.
No meu caso, e neste caso, sobraria um miniconto curto, grosso, intitulável.
Mais que isso: inclassificável.
Desinteressante? Acho que não.
Banal? Se calhar. Afinal não sofri, não bati, não apanhei. Nasci distante da riqueza alvo de sequestro e vivi há anos luz dos que tem a luz cortada por falta de pagamento. Sarcástico, desta vez nem tanto. Motivo de risada, sim. Aliás, o texto veio de uma gargalhada bem dada. Interna, sonora, em silêncio. Tensa, aliviada, exaustiva. Obrigada anjo da guarda seja lá você quem for por um dia ter-me desviado para o mau caminho e mudado o rumo desta prosa. Uma fabulação em torno do próprio umbigo que poderá fazer (se já não fez) o coleguinha de oficina desligar a câmera para bocejar de tédio porque é educado. Sim, este é o famoso texto quico-tenho-a-ver-com-isso. Detalhe: não julgo, tampouco panfleto.
Começo por justificá-lo como… curioso.
E é tudo verdade. Mesmo. Senta que lá vem história. Bizarra.
A vida toda apresentei meu pai como psicólogo e historiador. Verdade. Seu David também carrega esses diplomas. Para chegar no ponto onde quero, listo aqui, e só para clarificar, as cinco maiores lembranças que tenho acerca dele (e não necessariamente nesta ordem)
1.
Meu pai é vegetariano há mais de 50 anos. Motivo? Compaixão animal. Mas ele jamais impôs a proibição de consumirmos de qualquer tipo de carne em casa. A mudança deve vir de dentro, alegava. Isso era motivo de piada na família. Seu David rebolava para fugir dos bacons subliminares dos bolinhos de arroz que minha avó materna insistia em meter no recheio.
Dona Angelina, tem carne no bolinho?
Nooooo.
Ele comia, sentia o sabor e disfarçadamente cuspia. A italiana desafiava a frescura do genro.
È solo un condimento…
No dia que ele a encarou a sério, os bolinhos de arroz passaram a ser apenas bolinhos… de arroz.
2.
Nunca vi meu pai sem um livro a tiracolo. A biblioteca de casa era imensa. Na arquitetura dos anos oitenta ocupava nada mais do que famosa suíte master. Com as paredes derrubadas os milhares de títulos foram agregados à sala. Se bobear até na banheira de hidromassagem-redonda-cafona-e-jamais-usada havia livros empilhados. Para dormir, ele e minha mãe se apertavam em um mini quarto. No outro, eu e meus irmãos nos equilibrávamos em beliches mal parafusados.
3.
Meu pai sempre foi um voraz amante de jazz. Mais que gostar, aprendi com ele a ouvir as cantoras. Sim, as mulheres. As vozes femininas. Percebo hoje o quanto isso fez de mim o que sou. Filha, a Billie Holiday… não importe a música, tudo nela é tristeza. Cante o que cantar, ela não disfarça a dor emocional. Já Ella Fitzgerald acompanhava os almoços de domingo. O disco rodava e o otimismo do meu pai era contagiante. Sarah Vaughan representava saudade. Não à toa meu pai me chamava de Misty. Dinah Washington ditava o What a Difference a Day Makes, porque se hoje o dia é terrível, o amanhã será melhor. E havia a Nina Simone. Ponto. Acabava aí. Questões sociais? Políticas? Revolta e resistência contra a opressão? Melhor não falar disso.
Uma última característica marcante de meu pai: ele não era ele sem o inseparável Ray Ban espelhado… e o três oitão no coldre de ombro, dia sim, noite também.
Pai, o cano está espetado na camisa.
Lembro de ter dito essa frase em uma manhã, com ele a tirar o carro da garagem para me levar a escola. Eu estava na sexta série, devia ter uns 11 anos.
Como uma mentira garbosa ou uma verdade da qual fugi a vida toda, assumo agora: eu sou filha de um oficial militar. Patente máxima, coronel da reserva. Antes de qualquer outra palavra escrita, de tudo e mais um pouco, faço questão de frisar: Seu David é um puta dum pai. Presente, amoroso, amigável. Firme na queda e na dureza que lhe é nativa. Dono de uma inteligência articulada que me fez mergulhar junto a ele em conversas que jamais tive com outra pessoa. Concordamos, partilhamos. Divergimos muito, sobretudo nos últimos tempos. Traçamos na marra uma linha divisória de respeito. Por motivos de força e amor maior, optamos por não discutir política. É possível? Não sei. É o que está sendo. No nosso quadrado, sou a filha, apenas. Não mais a comunista-petralha-rebelde-maconheira-tatuada-que-nunca-vai-arrumar-emprego. Já ele me poupa da dezena de fake news diárias do Bozo.
Sim, ele é booozoonarista.
De acampar em quartel.
Quartel. Este é o buraco que queria chegar. Até os vinte anos, era-me natural perder-me nos corredores do Barro Branco. A desenhar quando ia no Batalhão de Choque ou no prédio da ROTA. No Centro de Formação de Soldados de Pirituba. A fazer equitação na Cavalaria do Bom Retiro, e montava a égua Chispita. Até no Carandiru cheguei a ir. Solenidades, festas, bailes, almoços. Era uma princesa, protegida, paparicada. Minhas amigas eram igualmente filhas de militares. Óbvio que nosso assunto preferido… os filhos dos militares. Convém separar os alhos dos bugalhos. Aos 15 anos o assunto era este, independente dos fofos serem filhos de milicos ou de chocadeiras. Era o que tínhamos: ótimos partidos, todos encaminhados (contém ironia). Alunos oficiais que, quando à paisana, nos churrascos de confraternização com as as mães sempre sabe-se lá porque ressaltando o diminutivo do nome. Jefinho, Carlinhos, Renatinho, Marcinho. Talvez para soar doce, como o último resquício pueril, a visão inocente-semi-oculta-hipócrita para designar o bebê que está a um segundo de inaugurar o meter o par de coturnos na lama adulta.
Lembro da primeira vez que vi Ricardinho. Julho de 1989, colônia de férias da PM em Campos do Jordão. Nossos pais, coronéis-amigos-estimados, em outra dimensão da esfera humana teriam muito gosto e nenhum dúvida em selar a união das famílias casando a filha de um (eu) com o filho do outro (ele). Eu já avisava, nem pensar. Mas ele tinha 18 e era gato. Com uma irmã um pouquinho mais velha. E à fofoca que correu a época, era que ela sim, era rebelde. Caso perdido, a moça. Pintava o cabelo de preto azulado, trabalhava na loja de roupas da moda (pode isso?), namorou um roqueiro famoso aí. Ídola a jato, cogitei tê-la como cunhada.
Lembro das paredes de madeira, das velas em candelabros, e do caráter curvo da escada em caracol. Que eu estava bem ao meio, descendo, e tive uma vertigem ao vê-lo subir. Fui apanhada no olhar que enviava para ele, que há muito já me examinava. Parado ao meu lado, deu-me tontura. Perturbada com a presença-olhar. Corada com o corpo a corpo. Recuei, subi, fui para o canto, fechada e aberta em um estado corporal interessante. Não estava a desmentir o que sentia. De costas pude entrever e em profundidade, aquele pescoço ligeiramente inclinado sobre o meu. O olhar investigativo, charmoso, diabolicíssimo. Conscientes ou não de estarmos sendo observados, ligamos um foda-se. Foi um mega beijo, com direito a esfrega-esfrega, mão naquilo, aquilo na mão, um ataque cardíaco fulminante. Mimo devolvido, repetido, recordado e vivido todos os dias e noites desses inverno. Frio eu garanto que eu não passei.
As férias acabaram, e foi natural continuarmos nos vendo. Mesmo que não quiséssemos, nossos pais queriam. Ele queria. E eu queria, estava apaixonadaça. Todos almejavam o namoro sério. Mas sou escorpiana e o fato de não poder ir à praia no final de semana com uma amiga da escola porque pegaria mal me levou a sensação de estar na mira de um franco-atirador à caça da presa. Passei do estado da adolescente felicidade para uma indizível mágoa. Na precipitação da minha defesa perante àquela sociedade marcada por convenções e artifícios de classe, abreviei a derrocada das máscaras e me coloquei em um terreno precondicionado, passando a jogar no campo neutro do eu preciso me concentrar nos estudos.
Em poucos segundos vi a transfiguração do rosto dele sem que uma única palavra fosse proferida. Se nas férias ele esteve no seu melhor, agora estava no pior. E eu soube que esse segundo estado era muito maior do que o primeiro. Poderia edulcorar o texto e chamá-lo agora de mesquinho, egoísta e egocêntrico, se necessário vingativo e violento. Mas aos 18 anos ele era apenas lindo. Pagodeiro um pouco demais para meu gosto. Determinado, destemido, generoso. Tinha os cílios espessos, como se a linha inferior dos olhos fosse riscada à lápis. E beijava suave. Lembro das mãos macias, dele ser delicado e carinhoso.
Como tudo para o bem e para o mal, eu segui o desvio da vida que me pareceu mais pertinente. Soube que Ricardinho ficou noivo de uma outra filha de coronel. Tive ciúmes. Passou. Passaram-se 35 anos.
Estranhei meu pai me telefonar em uma segunda-feira pela manhã. Geralmente nos falamos aos domingos, mas no dia anterior ele não havia me telefonado. Estranhei a chamada de vídeo. Algo aconteceu. Batata. Seu David estava sorridente. Na sequência do bom dia, rompeu o protocolo e emendou:
Viu que teu candidato a prefeitura perdeu?
Sim, pai, claro que vi.
E que o prefeito foi reeleito?
Sim, pai, claro que vi.
Viu quem é o vice dele?
