Rascunho de mapa feito a lápis


Glória

Um garoto pequeno sentado sozinho na gangorra. Seus pezinhos, que vestem sandálias de couro chinês já bem batidas, estão apoiados na barra de ferro do brinquedo. Os joelhos, dobrados, ostentam ralados já meio antigos, marquinhas de guerra. Os diminutos dedinhos agarram com força a alça à sua frente, como se, em vez de plantado no chão, o garoto estivesse em pleno ar, no ponto mais alto do brinquedo, sentindo medo ou entusiasmo. Fecha os olhos e quer chorar, mas é arriscado: tem garotos mais velhos por perto. A praça da Glória sempre fica lotada nos fins de semana, sobretudo aos domingos, e talvez não fosse difícil pro garoto encontrar alguém com quem brincar. Mas hoje é terça-feira.


Bosque

Um urutau. Dizem que o canto traz má sorte. De madrugada, e por ser intermitente, é a expectativa do canto, ou seja, o silêncio, e não o canto em si, o que tira o sono do homem.


Vardelina

Um salgado na estufa de um botequim. Seu nome popular: bolovo. O jovem quer fingir costume pros companheiros, quer deixar claro que é cliente da Cristina (Bar e Mercearia Cristina), a quem chama pelo nome, mais alto do que o necessário. Pede o molho de pimenta da casa (que não existe) e hesita antes da primeira mordida. No entanto, os verdadeiros clientes da Cristina não hesitam em ignorar um salgado como aquele, a fim de entrar e sair incólumes.


Liberdade

Uma banda de rock alternativo. O repertório é variado e os quatro integrantes, todos homens, já mais pro fim do show, chamam as respectivas namoradas pra subir no palco e fazer os backing vocals de “Love me like you”, do The Magic Numbers. Elas se abraçam e formam um semicírculo em volta de um único microfone. Cantam, até que bem afinadinhas, os “Ahh-ah, ahh-ah!” e “Ooh! Hoo-ooh, Ooh!” da canção. Mas apenas a namorada do guitarrista é que vai virar esposa. Do baixista.


América

Um cortador de grama. Os insetos, despejados e despojados, saem enfurecidos e, com sede de sangue e vingança, atrapalham a concentração do autor desta frase – que, de outra maneira, sequer apareceria.


Dias I

Um recado na geladeira. Quem o escreveu tem medo de que, quem o lê, não o compreenda a contento. Quem o lê, por sua vez, não se importa nem um pouco com isso. Existe a possibilidade de que os dois sejam a mesma pessoa.


Operária

Uma senhora em frente ao espelho. Seu nome é Mara e, por ser dona de um minúsculo hotel no centro decadente da cidade, é tratada apenas por Dona Mara. O espelho fica no seu quarto, que não tem nada a ver com os quartos dos hóspedes. Dona Mara suspende a barra do vestido e escrutina as próprias pernas, em busca de varizes, manchas, protuberâncias. Relembra um amor antigo. Tenta se lembrar então de todas as vezes em que alguém disse que ela tava maravilhosa, num trocadilho óbvio com o seu nome. Foram muito menos vezes do que ela gostaria de admitir.


Morangueira

Duas irmãs. Gostam de percorrer as farmácias do bairro onde moram como se fossem butiques da mais alta grife. Os atendentes do caixa e os farmacêuticos já as conhecem, e por isso sabem que são inofensivas e que o melhor é deixá-las em paz, vagando por entre as estantes. As duas caminham devagar, de bracinhos dados, e parecem fascinadas pelos analgésicos, pelos anti-inflamatórios, as ataduras, os sais de fruta. Miram cada drágea como uma pedra preciosa. Por fim, saem de mãos vazias e tomam o rumo da próxima farmácia. Antes, porém, reclamam do ar esnobe dos boticários, que as tratam sempre com tanta indiferença.


Dias II

Uma antessala de dentista. A secretária sai do consultório mordendo uma maçã.


Progresso

Um tabuleiro de xadrez com um jogo esquecido pela metade. Mas se, por um lado, a simples análise da posição das peças permite deduzir os lances que já foram efetuados, por outro não há como saber se os demais lances, aqueles que ainda não aconteceram, aconteceriam ou não. De modo que o jogo pode ter sido, sim, esquecido pela metade, mas também antes disso ou mesmo depois.


Alvorada

Um longo testemunho evangélico. Escrito numa folha de papel sulfite tamanho A2, cujo objetivo inicial era servir de rascunho pros clientes da papelaria, a fim de que eles pudessem testar as canetas que estão a venda antes de se decidir ou não por comprá-las.


Esperança

Um amolador de facas, tesouras, cutelos e alicates. Chega de bicicleta, vestindo uma boina e mascando uma palha de milho seca. Encosta sempre na mesma esquina. Os pedais da bicicleta também giram uma mó, um disco de pedra que fica acoplado na frente do guidão, adaptado à corrente transmissora. O velho apoia a roda dianteira num suporte e passa o dia pedalando sem sair do lugar, afiando facas, tesouras, cutelos e alicates. É bom no seu ofício, que exerce desde muito moço. Pra avisar que chegou, toca uma pequenina flauta de pã. Um dia, sem que nada aconteça, os moradores da Vila Esperança passam a acreditar que a tal flautinha é amaldiçoada, e que, sempre que se ouve pelo bairro aquele som agourento, alguém por perto morre. Pelo sim, pelo não, a associação pede pro velho parar. Que arranje outra forma de anunciar a sua presença. Ele continua, apesar de muito contrariado, aparecendo de quando em quando. Deixa de lado a flautinha, sua velha companheira, o que lhe dá um severo aperto no peito, mas, mesmo assim, acha melhor não reclamar, a fim de que se evite que esta história, quem sabe, possa ter um desfecho trágico – tão afiadas são as facas, tesouras, cutelos e alicates dessas pessoas.

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