
Ariana Harwicz é uma escritora argentina judia que vive na França. Tem tido toda sua obra publicada por aqui pela Instante: Morra, Amor, A Débil Mental e Precoce – a “trilogia involuntária” sobre maternidade e paixão – , Degenerado, o livro de ensaios O Ruído de Uma Época e outro livro de não-ficção chamado Desertar, este com Mikael Guthart. O desconcertante Morra, Amor – que trata de alienação parental – está sendo adaptado por Martin Scorsese. Seus textos foram traduzidos para vinte línguas. Na contramão da atual tendência fantástica na literatura hispânica, que tem como maestra Mariana Enríquez, Harwicz investiga a realidade objetiva através dos estados alterados próprios à femilidade. Questões como deslocamento, desigualdade nas relações sociais e violência de gênero são tratadas por uma escrita feroz, veloz e alucinada em muitos momentos. O livro abaixo acabou de sair.
















A história acima não deixa entrever o que está acontecendo: Lisa Trejman recebeu uma medida protetiva para se afastar dos filhos gêmeos após trocar agressões com o marido. Cansada das breves e esporádicas visitas assistidas aos meninos, decide atear fogo à casa onde eles moram com o pai e sequestrá-los. Foge com os gêmeos em um carro roubado enquanto rememora as lembranças amargas de um relacionamento fadado à ruína, vendo até onde é capaz de ir para afastar os filhos do ex-marido, mesmo que para isso seja preciso cair na clandestinidade e comprometer o bem-estar das crianças.
PROPOSTA
Bem, é isso mesmo o que você vai fazer: vai sair de si.
O mais desconcertante na escrita de Harwicz é o fato de ela esconder do leitor o que está acontecendo para focar em acontecimentos anteriores ao seu surto. A velocidade com que conta nos desnorteia, mas ao mesmo tempo sua narrativa hipnótica segura sua narrativa e nos mantém intrigados tanto sobre as causas do seu surto quanto o que foi realmente que aconteceu. Ela opera portanto em dois tempos simultâneos: no presente-agora e no passado imediato. Essa é a chave para a tensão de seu relato.
Uma premissa que aparece solta logo no começo acaba se concretizando ao longo do pequeno livro (110 páginas):
qualquer pessoa está a apenas um passo de se tornar um criminoso.
Esta vai ser a premissa de sua história. Seu protagonista teve um surto, cometeu um ato terrível, estranho, extravagante, bizarro, absurdo, desnorteando a ordem estabelecida das coisas. Não necessariamente foi um crime, mas também pode ter sido.
O que você vai contar é o que aconteceu logo antes, mas sem contar direto pro leitor o que realmente aconteceu. Isso só vai aparecer lá para o final do seu relato.
Deixe claro para o seu leitor que aconteceu algo fora do normal, mas deixe seu leitor curioso, mantenha o suspense, segure essa informação para só mostrá-la inteiramente no desfecho.
Como estamos falando de sair de si, capriche nos atos tresloucados!
Na primeira pessoa, em até 9 mil toques.
