Roberto Efrem Filho
Ofélia desce do carro na Conde da Boa Vista. Bate a porta, lembra o motorista da hora do retorno e se enfada. Nunca entendeu a decisão de Aparício de viver ali, logo ali, naquele alvoroço suado, fedido e viscoso do centro do Recife. Dos três o filho mais próximo, Aparício bem que poderia haver gasto o que lhe coube da herança do pai no financiamento de um apartamentozinho em Casa Forte ou nas Graças, vizinho à mãe, numa região da cidade mais frequentada por gente de sua origem. Lá, ele poderia levar Ofélia às compras, acompanhá-la à missa, tomar um táxi aos domingos para almoçar seu prato favorito no Leite. Mas não, “prefiro morar perto da Católica e do jornal, mamãe, eu já lhe expliquei, a senhora sabe que eu não dirijo, imagine ter de entrar num automóvel todo santo dia para dar aula na universidade!”. Ofélia aceitava mal as justificativas do filho mais velho, sabia que não correspondiam precisamente à razão de ele morar no Edifício Módulo.
Ocorre que, além da Universidade Católica e do Diário de Pernambuco, o centro também sediava as noites em que Aparício gastava seu salário aos borbotões, no tráfego sequioso entre boates e bares, na expectativa de conhecer o rapaz que levaria para casa. Aparício, é claro, não tratava desses assuntos com a mãe. Ofélia os conhecia da boca miúda, do disse me disse, das ofensas que Afrânio, o seu filho caçula, ladra quando a mãe o interpela, bêbado e trôpego de zona, acerca de suas noitadas ou dos empréstimos sobre empréstimos que consegue em bancos ou agiotas, sempre incapaz de solvê-los por si, dando em garantia o que restou do patrimônio familiar. “Aquele frango do Aparício podia parar de falar merda pra senhora, ele não gosta tanto que metam na bunda dele?, pois podia pegar tudo o que ele acha da minha vida e enfiar no cu!”.
Ofélia se ressente do linguajar de Afrânio, da maneira como se refere ao irmão. Não que ignore as inclinações do primogênito, sabe delas há muito, mas aprendeu ainda há mais tempo que nem tudo o que existe deve chegar à palavra, tornar-se dito, fazer-se verbo. Nem todo gesto se principia na sintaxe. Ofélia mesma não disse sílaba sobre os olhos que o caseiro Antônio fixava em seu decote naqueles finais quentes de manhã de janeiro de 1947. Enquanto Josefa, esposa de Antônio, cuidava do almoço na cozinha da casa grande, Ofélia procurava o varal para pendurar suas camisolas de seda, convencida de que, do terreiro, sob os cajueiros e os jambeiros, os olhos de Antônio a persuadiriam alva e tesa de cobiça e ressabio. Ofélia era mãe dos seus três filhos, uma senhora de trinta anos que julgava nada conhecer da carne a não ser o que seu marido a impunha, à força de suas obrigações maritais. Nada em seus lençóis ardia como a faziam arder os olhos de Antônio, o dorso nu, suado e negro, resplandecente sob o sol de quase meio-dia. No instante primeiro em que se deu conta daquele olhar, Ofélia deixou derrubar no chão as anáguas que tentava subir ao varal. Antônio repreendeu-se pelo avanço indevido sobre o corpo da patroa, até que se deu conta de que Ofélia sorria tímida, tocando os bicos do peito entumecidos com as pontinhas dos dedos, já de anáguas em mãos.
Justo porque crê na economia da palavra, Ofélia sabe que Afrânio não tem palavra que valha e disso ela também se ressente. No limite, as preocupações de Aparício a respeito do irmão guardam sentido, é preciso convir. Goste ele ou não do que lhe façam no interior das nádegas, fato é que, ao menos conforme Ofélia tem conhecimento, Aparício não contrai dívidas que comprometam os bens da família Siqueira, o seu nome ou o seu sustento. Os excessos de Afrânio, por outro lado, sua incompetência para a gestão dos negócios dos engenhos, levaram Ofélia algumas vezes ao constrangimento de postular favores, ela própria a mendigar contatos e se endividar para sanar débitos do filho mais novo ou, pior, para lhe salvar a vida após a ameaça de um ou outro credor. Foi inclusive considerando essa hipótese – a de Afrânio em fuga de um agiota em caça – que Ofélia resolveu, muito a contragosto e após dezenas de tentativas de conversar com Aparício ao telefone, chamar um carro em direção à Conde da Boa Vista. Ofélia anda inquieta, sem saber de Afrânio há mais de mês, sem saber de Aparício há mais de semana. Estranha a coincidência e adivinha algo podre no reino dos seus meninos, de forma que, ela pensa, compete-lhe intervir.
“Aparício, meu filho, abra a porta. Sou eu, sua mãe”. Ofélia passou por grade, zelador, portaria e elevador sem cogitar apresentar-se a quem quer que fosse. Por trás do aparelho do interfone, Seu Gilberto até espichou o pescoço na tentativa de ajudar aquela senhora muito distinta a encontrar quem buscava no edifício. Ofélia, contudo, sequer deu chance ao mínimo cumprimento. A postura empertigada, a convicção inabalável de quem caminha sabendo aonde vai e a certeza de que dispõe do privilégio de ir sem requisitar qualquer licença mantinham Ofélia numa inexorável redoma de intangibilidade. Isto de tal modo que Seu Gilberto, que trabalha no prédio desde a sua inauguração e se orgulha de reconhecer cada morador, duvidou de sua memória e se perguntou se aquela senhora não havia realmente se mudado nos últimos tempos, talvez durante suas férias, ou se não seria ela uma visitante muito íntima, daquelas que dispensam cerimônia e até perguntam pela saúde da esposa do zelador.
“Mamãe, a senhora aqui?” Diante da porta escancarada, Ofélia até vê, mas desconhece Aparício. Está certa de que o homem diante de si gargalhava segundos antes de ela bater a sua porta. Ele preserva, na boca, a réstia daquele riso, os contornos de sua amplitude, seu sobressalto. Há fulgor nos modos deste homem, em seus pés descalços numa tarde de sexta-feira de janeiro, a camisa entreaberta, uma mão na maçaneta, a outra num copo de cerveja, a voz grave de Bethânia ocupando inteira a minúscula sala, esgueirando-se indócil da agulha do passa-discos para o corredor do décimo quinto andar. Ofélia advinha certo acanhamento na face do homem, presume que Aparício nunca a imaginaria ali, no umbral de sua quitinete. Neste anos todos, é verdade, não houve dia em que Ofélia o visitasse. Entre suas desculpas, esteve sempre ocupada com os processos judiciais relacionados ao inventário e à herança, à propriedade dos engenhos, a seus arrendamentos e dívidas trabalhistas. Depois se apossaram dela os infortúnios de Afrânio e, por um motivo ou outro, manadas de advogados, juízes e serventuários da Justiça a desbaratar, comprar ou convencer. Ofélia foi-se entrincheirando, resoluta da distância necessária às escolhas de Aparício, àquele seu “estilo de vida”, como ela costumava denominar. Contentava-se com os telefonemas diários que ele lhe fazia às 19h, no intervalo das novelas a que ambos assistiam e sobre as quais comentavam em toda ligação. Tinha, porém, consigo a imagem do seu Aparício inseguro e rancoroso, um sujeito que, ao decidir perfilar-se na corda bamba de uma vida dupla, negando-se gana e a menor chance de arroubo, jamais saberia sorrir. “Entra, mamãe. Termina comigo essa garrafa de Brahma”.
