Ocupado?

Cintia, 17 de abril, 00h02, via DM

Ocupado?

Foi a última mensagem que ela me enviou. Antes disso, outra, duas semanas antes. Era um carrossel de página de humor duvidoso, e logo em seguida ela reclamou que o app nunca mostra na mensagem exatamente a imagem que ela queria destacar daquele conjunto. Agora que eu não estou ocupado, ela está morta, e esse tempo de sobra me colocou em buscas infrutíferas de um link específico, de uma reportagem sobre fungos que inspiraram looks de um grupo de drag queens na Amazônia, daí esbarrei na mensagem dela novamente.

Eu sei o que você está pensando. Que eu a magoei. Que eu não estava ocupado. Que a culpa é minha. Mas não é o caso. A verdade é que eu nem lembro o motivo de ter aberto a mensagem apenas no dia seguinte, e nem o motivo de eu não ter me dado ao trabalho de responder. Também não éramos tão próximos, não desse jeito, e não parecia mais relevante a minha resposta, passadas tantas horas. Claro, ela falava coisas mórbidas, coisas que, em retrospecto, eram um prenúncio de sua decisão final… 

Cintia, 07 de janeiro, via DM

Eu procuro a parte da noite em que o sexo finalmente vira apenas sexo. Mas nunca encontro. Então eu tenho que continuar procurando, aqui ou em outro lugar

Cintia, 14 de fevereiro, via DM 

É bom esperar algo terrível acontecer. Eu gosto de esperar e gosto quando acontece

Cintia, 26 de março, via DM 

Tu acredita na felicidade? Eu não

Cintia, 10 de abril, via DM 

Qual a morte mais pica que tu consegue imaginar? Pra mim seria gozar enquanto o macho me enforca, olhando nos meus olhos, até tudo desaparecer, topa hahaha

… mas a mim pareciam apenas afetações. Um trejeito, algo um pouco demais para compartilhar com um estranho, não, não exatamente um estranho, porque isso não éramos, mas apenas um tópico que merecia, antes de tudo, ser passado adiante.

Nós falávamos sobre sexo. Muito. Falávamos mais do que fazíamos, fazíamos em janelas de tempo e espaço específicas. Era tudo muito trabalhoso e, ao mesmo tempo, muito simples, como estalar os dedos quando ainda não se sabe estalar os dedos, mas de repente dá certo. 

Cintia, 3 de janeiro, via DM

Alinhamento interplanetário! Pode ir baixando a cueca, que eu tô chegando pra esfolar esse piruzinho japonês!

E quando a transa terminava, parecia não restar mais nada dela ali. Nenhuma expressão em seu rosto, talvez no máximo algo que lembrasse cansaço, por baixo dos olhos ou no jeito que passava a mão na testa. Então ela pedia uma toalha limpa já entrando no box, juntava suas coisas e ia embora com o cabelo pingando, tudo muito prático quando eu tinha mais o que fazer. Noutras vezes não, não era nada prático, porque o vazio dela era infeccioso. Continuava ali por horas, entranhado nos lençóis junto com o cheiro ácido dela, apodrecendo o apartamento de dentro para fora, e eu me agoniava e colocava tudo pra lavar, passava um pano de chão com Veja pelo apartamento inteiro, trocava as cobertas e a manta do sofá, do contrário, sufocaria.

Na última vez que a recebi em casa, ela me deu um beijo bem longo antes de se tornar uma casca vazia. Comentou algo sobre estar com as pregas arrebentadas, e imaginei ela se despedaçando por completo ao descer, andar por andar, mas foi algo que me fugiu da cabeça muito rápido. Fechada a porta, eu nunca a abri para ouvir o ping do elevador ou o eco de seus passos desaparecendo pela saída de emergência. Suas urgências não eram da minha conta, certo? Ela falaria se fossem. Eu acho que falaria. Por isso eu ficava, digamos, no sofá, olhando as sombras das palhetas do ventilador riscarem o teto, brincando de puxar a camisinha, seca e dura, do meu pau, seco e mole.

Demorou uns dois dias para eu ver a postagem no feed. Era uma imagem genérica, de baixa qualidade, com uma fita branca sobre um fundo preto e a palavra “luto” em letra cursiva. Chamou a atenção por destoar das demais, que eram quase todas de seus quadros e exposições, intercaladas por selfies usando pinturas corporais ancestrais de sua etnia e algumas fotos de biquíni no Rio Negro.

Cintia, 30 de novembro, via DM 

Vender primeiro a priquita e depois o quadro, bem-vindo ao Instagram

Como era cínica! Na superfície, uma sensualidade classuda, digna, condecorada pelo talento reconhecido, o fino trato da juventude indígena, o suprassumo do palatável. As linhas retas e paralelas sobre a pele, fracionando-a num conjunto harmônico, como num mapa. Mas por baixo do jenipapo, por trás daquela persona calculada, ela tinha essa vulgaridade vulcânica a qual me dava acesso, feita de toda a selvageria que insistiam em lhe destituir, apesar de conter nela sua força vital, e talvez exatamente por causa disso.

– O que quer que eu faça bem, não é só por mim, nunca é – ela disse em sua primeira visita ao meu apartamento. Estávamos na varanda e ela batia uma punhetinha bem cadenciada ao falar. Seus cabelos, longos e negros, cobriam tudo – É pelos que vieram antes, e os que virão depois, – continuou, mas não sem antes cuspir na mão discretamente para garantir que deslizasse mais fácil no meu pau – Tu não tem como saber, porque eles te olham, Nakano, tua pele amarela e os olhos rasgados, e enxergam excelência, ordem, método. Tu sabe disso melhor do que eu. É da tua gente isso. Mas a minha pele amarela e os meus olhos rasgados são uma vergonha. Então eu tenho que jogar o jogo de um bando de filho da puta pra que, talvez, mais pra frente, os meus não tenham que fazer essa merda. E isso é um grande talvez, saca? Por isso que, repito, não é só por mim, nunca é. Mas isso – e ela desceu o dedo médio até o meio das minhas bolas, acertando em cheio a próstata, o que me enrijeceu ainda mais – isso aqui é por mim. 

A legenda da foto, sem grandes explicações, dizia que ela decidira partir para o seu descanso final no dia dezessete de abril, o mesmo da mensagem que recebi, além da data e local do velório. Era assinado pela irmã. Um frio me subiu pela espinha palavra a palavra, mas não do tipo que me levasse às lágrimas. Era mais a sensação de precisar digerir o fato de que nunca mais transaríamos, que o cheiro da calcinha dela, a qual ela adorava enfiar na minha boca, estava desaparecendo naquele exato momento debaixo da terra. Um outro tipo de estalar de dedos, que ela tentou e tentou e tentou até conseguir, será? Com que tipo de calcinha ela teria sido enterrada? Que gosto teria agora?

Rolando pelos stories, alguns poucos amigos em comum traziam fotos com ela ou de seus quadros e algumas palavras opacas que pouco ou nada diziam sobre quem ela tinha sido e o que significou para quem quer que fosse. Me fez pensar que seu modus operanti era o mesmo na cama e fora dela: pegar suas roupas e desaparecer, de forma que talvez o sexo fosse o único ponto de contato entre ela e sua própria humanidade. Ou isso, ou eu só estivesse muito chapado enquanto rolava o feed. Concluí que ela morta me gerava muito mais curiosidade do que viva. Viva, ela era apenas uma sequência mais ou menos ensaiada:

Cintia, 15 de dezembro, 16h38, via DM

Quero dar

Nakano, 15 de dezembro, 17h04, via DM

Essa quarta?

Cintia, 15 de dezembro, 17h07, via DM

Quarta não dá, reunião na galeria. Rola quinta?

Nakano, 15 de dezembro, 17h08, via DM 

Feshow.

Naquela noite, demorei a dormir. Ia e voltava na minha pasta oculta do celular, dedilhando as fotos que ela me enviava, numa sequência salpicada de outras mulheres com quem eu também transava com muito mais facilidade. Nas fotos, os lábios de sua buceta pareciam mais nítidos e brilhantes do que jamais foram, e tão quentes e molhados por fora como eu sabia que eram por dentro. Suas poses e torções pareciam se multiplicar como num jogo de espelhos, e então percebi que sonhava.

Cintia, 17 de abril, 00h02, no sonho

Ocupado?

Nakano, 17 de abril, 00h03, no sonho

Ocupado batendo uma punheta pra você

Cintia, 17 de abril, 00h03, no sonho

Ótimo!

Mas ela surgiu ao meu lado e descobriu que eu não estava batendo punheta coisa nenhuma. Estava lendo uma Scientific American, cujas letras não paravam quietas na página aberta jogado no sofá da sala, que parecia flutuar meio palmo acima do chão. Ela então puxou a minha bermuda, que desceu sem resistência até os joelhos, apesar de eu estar deitado. A própria posição dela no encosto do sofá não fazia sentido, lembrava um pouco uma aranha, agachada sobre patas que não se comportavam como pernas ou braços, mas que seguravam o meu pau mole e curvo com firmeza. Sua boca desceu até ele num movimento violento, a força da sucção deixando seu rosto disforme, subindo e descendo no ritmo do disco que tocava na vitrola. 

Nakano, 17 de abril, 00h05, no sonho

Ai, devagar!

Eu protestei, o que imediatamente a transformou num ser humano, e a partir daí o boquete foi lento e prazeroso.  Eu tinha medo de olhar diretamente para ela de novo e descobrir que sua transformação em uma aranha estava completa. O tempo todo eu olhava as fotos dela no celular, algumas que existiam de verdade e outras que não, e assim ficava tudo bem.

Nakano, 17 de abril, 00h08, no sonho

Ah, você é uma puta mesmo!

E aquele sorriso de prostituta da Era Edo me encarando, os dentes completamente negros.

Cintia, 17 de abril, 00h08, no sonho

Obrigada! Mas agora…

E os lábios, borrados de vermelho e inchados do esforço, diminuindo, engolido por uma expressão sonsa.

Cintia, 17 de abril, 00h08, no sonho

… Eu acho que deveríamos brincar.

Nakano, 17 de abril, 00h09, no sonho

Brincar? Brincar de quê?

Cintia, 17 de abril, 00h09, no sonho

Tu me conta a pior coisa que tu já fez, e eu conto a minha. Você começa.

Papo besta. Mas fazendo o que ela faz, do jeito que faz, você só quer continuar. Por que é para isso que vocês estão ali, não? Por isso meu pau não baixou mesmo quando consultei o aplicativo de notas do celular, onde todas as minhas memórias estavam armazenadas por algum motivo. 

Ali, revisitei as crianças em quem bati na escola, as namoradas de amigos que comi, os bichos de estimação que negligenciei, as dietas que nunca fiz, mentiras e mais mentiras que desfilavam num carrossel sincopado com cheiro de carne podre. E quando tomei ar para falar, ela abriu de novo o sorriso de Ohaguro, sentou no meu pau e levou as suas próprias mãos ao pescoço, deslizando os dedos nele como quem recebe a permissão para acariciar de um gato precioso e arisco. Juntos, formamos uma engrenagem reluzente, que rangia e desafiava o abismo do sofá, que a essa altura quase tocava o teto.

Nakano, 17 de abril, 00h14, no sonho

Certo, vamos lá. Eu tive uma namorada, a Cindy, nós ficamos juntos uns sete anos. A gente tinha umas brigas barra pesada, e eu acabei batendo nela. 

Nakano, 17 de abril, 00h15, no sonho

… Ninguém militava sobre essas coisas naquela época. Mas eu sabia que não deveria ter feito isso. Eu sabia muito bem e fiz assim mesmo. E eu não senti nada quando fiz. Até hoje eu não sei porquê. É isso. Agora é a sua vez.

Cíntia, 17 de abril, 00h16, no sonho

Sim, é a minha vez…

Ela descolou um dos dedos que acariciavam seu pescoço obsessivamente, descendo com ele até o meu esterno. Depois, passou pelos meus olhos e digitou: 

Cíntia, 17 de abril, 00h16, no sonho

… Tu é tão parecido o meu padrasto! Ele me estuprou por quase uma década, até os 15 anos. Eu adoro vir aqui, não pensar em merda nenhuma, gozar e implodir ele da face da Terra. Toda vez que o seu pau entra em mim, eu sinto o espírito dele do outro lado, vagando num vazio imbecil, desesperado. Aquele filho da puta me quebrou, mas ele não me tirou isso! Agora eu posso ficar meladinha, curtindo pra caralho, por toda eternidade!

E bastou isso para os seus dentes negros todos evocarem um abismo gargalhante de dentro da boca, que fazia o chão tremer e os móveis patinarem. Ela cavalgava cada vez mais forte, apertando a própria garganta com vigor. Seu olhar me enfrentava e hipnotizava, impedindo que eu olhasse para qualquer coisa que não fosse os seus olhos, o que me deixava sufocado, frio e zonzo. O vinil engasgava no mesmo trecho da canção:

Love is cruel

Love is truly absurd 

Jesus almost got me 

I don’t know how many prayers he overheard

Ao perceber que quanto mais ela apertava o próprio pescoço, eu é que era enforcado, acordei. Os móveis da sala permaneciam no mesmo lugar, e o silêncio de Anita Lane na vitrola anunciava o fim do álbum. Demoraram alguns segundos até que eu parasse de sentir um alívio por aquela filha da puta estar morta, mas eu ainda sinto que vamos nos reencontrar.

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