por Américo Paim
Outra ligação… não vou atender. O que tá feito tá feito, assunto encerrado. Mania de se meter na vida dos outros. Não têm o que fazer? Me deixem em paz, nada mais vai mudar aqui. Na hora do bagaço, ninguém dava as caras. Agora todo mundo quer ser manchete. Vão se lascar.
Hum… esse uísque é bom. Você nunca foi chegado. Azar o seu. Ele funciona bem com essa sala. Ela é tão bonita, cúmplice. Nunca me negou. Vou sentir falta. Muita coisa rolou aqui. Decisões, planos, brigas, sexo. Era bom ou pelo menos parecia. Agora tô aqui bebendo, diante dessa vista desagradável que é você. É a paga por tanto sacrifício à toa. Eu devia era ter ido embora quando achei que podia. Isso aqui é como uma prisão: precisa força pra sair. Nunca tive. Por isso eu gritei e chorei hoje. Você não entenderia. Não foi raiva nem tristeza. Foi alívio. O barulho incomodou? Fodam-se. Tenho mais nada a perder. O tempo que eu dei uma de pessoa equilibrada, cuidadosa, paciente, me deu nada de volta. Me restou essa garrafa de bebida pela metade. Ela tá até melhor que eu, não tá vazia. E vai durar mais. Agora só preciso esperar mais um pouco. Até lá, repito pra vocês intrometidos: fodam-se!
Você lembra como era tudo bonito e cheiroso aqui? Uma beleza. Cada coisa em seu lugar, no capricho, como eu sempre quis. Os móveis, os aparelhos, os acessórios, as cores. Trocamos por coisa melhor ao longo dos anos. Você só reclamava de “fotos de parente morto”. Um absurdo. Meus pais, meus avós. Até você teve mãe, infeliz. Sua foto ali com as outras agora parece tão estranha, não acha? Lembra que tivemos até banheira de hidro? Você achou um luxo. Puro desperdício, dinheiro descendo pelo ralo, feito água suja. Pena que não limpe a sujeira de dentro. Se tivesse sido diferente, eu não teria chegado a esse ponto. Será? Agora você não vai dizer nada. Se ia ser feliz? Quem sabe? Mas não tinha sofrido tanto. Nunca que ia terminar assim, feito tapa, coisa sem volta. Aliás, nem um murro bem dado lhe acordaria agora. Toda hora chega porque o tempo só anda pra frente, desgraça. Vou lhe dizer de um jeito que minha cara nem arde, sério: eu tenho zero arrependimento. Zero. E esses abutres querem conversar comigo sobre isso? Perda de tempo.
Sim, perdi muito tempo. Só foquei no trabalho. Era meu remédio, anestesia geral, dinheiro pra mudar de rumo. Não deu, né? Olha essa TV cara, por exemplo. O que vimos aqui? Uns filmes, noticiário, novelas. Só desperdício. Aposto que você concorda. Quase nunca uma conversa decente. A gente perdeu a chance de mudar o rumo da prosa da vida. Seu foco era outro, sempre uma urgência. Por sua causa ou com minha grana, miserável. Agora é só esse vazio. EU nem vivi o que sinto falta agora. É um oco, ausência de qualquer coisa que me conecte a algo que preste. Como cheguei a isso? Aliás, como chegamos? Parecia que ia dar certo. Eu acreditei tanto. E fiz muito, reconheça. Mas você precisa entender: tudo tem um limite.
Vício não acaba nunca. Tem que quebrar tudo, virar pelo avesso. E gastar cada dia sofrendo pra sobreviver, não tem cura. Cansei de lhe dizer. Você fez o quê? Cagou. Me comprou com conversa mole, presente caro, sexo, promessa pra caralho. Eu caí porque negava a porra toda e as coisas não chegariam até aqui. Que idiota. Elas sempre chegam. A esse ponto ou a lugar pior. Sabia que as pessoas nunca acreditaram que você não bebia nem fumava? Achavam que com sua vida de festa, de ostentação, glamour e tudo mais, você tinha esses vícios clássicos. Você sempre dizia: “não tenho pequenos vícios” e achavam que eu tinha sorte. Eu falava: “troca de lugar comigo?”. Seus amigos só riam. Aliás, amigos da puta que pariu. Gente que só bebeu, comeu e se divertiu às suas custas. Às minhas, na verdade. Ninguém sabe do que rolou aqui entre quatro paredes. Se apaixonar é uma merda. Não ter força pra sair do buraco sem fundo. Do inferno.
É bem isso. O jogo é um inferno todo dia. Amanhece e você pode estar rico. Muito mais rico. Ou quebrado. Quantas vezes aturei mudar de casa, de cidade, de bairro? Ainda bem que não temos filhos. Que vergonha máxima não seria. Agradeço ao demônio por sua infertilidade. E quando eu sugeri adotarmos? Onde estava minha cabeça? Recuei a tempo. Por você até rolava, não ia se ocupar com nada mesmo. Ali eu pisei no chão uma vez na vida. Foi um pouco antes da sua primeira prisão, né? Agora você fica aí mudo, esparramado feito bosta mole. Meu saudoso pai entrou com aquela grana e salvou tudo. Quanta merda por causa dessa sua jogatina. Aposto que nem se lembra de metade. Fale agora. Diga alguma coisa. Não dá mais, né? Também não me interrompa. Vou falar tudo que quiser, desentupir essa latrina. Tão me ligando de novo. Não vou atender essa porra.
Talvez alguém pergunte: por que só agora? Estupidez. Insistir por amor… ou burrice… ou tudo junto. Aquela luta idiota: “agora vai”, “daqui em diante vamos mudar”, “nunca mais isso, eu prometo”. A gente perdeu foi tudo e o que só eu perdi foi tempo. Esse não volta mais. Tive chance de refazer minha vida. Todas as condições. Sou uma pessoa de bom aspecto, confiável, correta. Estou em boa forma física, apesar de tudo. Tenho formação, mas leseira suficiente pra ter casado com você e vivido nesse carrossel de lixo que é esse seu vício desgraçado. A pessoa é drenada para um esgoto sem fim. Demorei a entender que sua situação não termina. Precisa ser terminada. Você compreende agora que lhe fiz um favor? Perceba que acaba sendo um ato de amor. Isso me dá mais raiva ainda.
Quantas vezes na jogatina até tarde? Sumir por vários dias? Buscas no IML, no hospital? Chegar fedendo a sarjeta? Apostar até o cu dos outros e só parar se alguma coisa grande acontecia, para o bem e para o mal. Sim, era tudo compartilhado, filho do diabo. Não era só você. Bom era quando chegava abarrotado de verdinhas, dizendo que era prêmio no trabalho. Você nem trabalhava mais. Ninguém lhe aguentava, traste. E cheio de sacola com presente? E carro novinho? E mercado de mais de mês entregue em casa. E joias? Tudo se perdeu pra pagar dívidas e calar as ameaças. Você me expôs, seu filho da puta. Me jogou feito carne fresca pros coiotes, carniça pros urubus. Ali eu já não era nada. Algum dia fui? Nunca pensou em nada diferente do vício. Jogo, jogo, jogo, da hora que acordava até não aguentar mais.
Tolerei muita coisa, até esse seu último desatino. De todas as coisas, essa ultrapassou tudo. Aí tive que resolver. Nunca, nesses anos todos, fiquei sem um teto, na rua. Apostar a nossa casa? Chegar pra me contar que era pra gente sair até hoje à noite? Assinou papel e tudo? Não deu mais pra segurar. Seu silêncio disse o que eu precisava ouvir. Fim da linha. Agora repare, veja que foi uma solução boa pra eu ter pra onde ir, onde morar, comer, dormir. Você também fica sem preocupações, né? Veja que solução inteligente, definitiva.
Olhe, tem uma coisa boa que aconteceu por causa dessa sua loucura. Lembra o dia que raspei o banco pra lhe tirar da cadeia? Quase não consigo pagar a fiança e seu agiota. Aquele que ameaçou “você e sua família”, ou seja, eu. Foi ali que decidi aprender a atirar. A arma de painho ficou comigo. Não sabia, né? Azar o seu. Não demorou pra eu conhecer o bastante pra não errar nessa distância de uma mesa. Você nunca saberia. Mesa pra você só a de jogo. Não estava interessado em nada meu. Se eu lhe mostrasse a arma, ia vender pra usar a grana na jogatina. Pois é. Aprendi o suficiente pra resolver os nossos problemas.
Peraí, Eusébio tá ligando aqui. Oi, vizinho. Não, não vou abrir a porta, esqueça. Estou tendo uma conversa definitiva com seu amigo. Cheguei ao meu limite. Tá tudo ótimo. Barulho? Ah, foi tiro mesmo. Sim, ele tá numa boa agora. Não vou abrir porta nenhuma. O síndico chamar a polícia é o certo. Ainda me poupa trabalho. Prédio cercado não vai mudar nada. Risco pra mim? Zero. Eu tô jogando cartas com ele. Minha mão tá ótima. Não, ele não vai falar com você. Não é uma boa hora. Tô ganhando e a aposta é alta. Ele tá calmo, silencioso, mas é que tá com a cabeça estourada, coitado. Não dá pra se concentrar na condição dele. Ah, cê quer saber? Apostei quem ia morrer primeiro. Bem, eu tô falando com você aqui, né?
