Sabonete e carne cozida

À tarde, uma vez por semana, passava na casa dela. Tia, tia, tia. Eu a chamava  do portão e tia Gerusa vinha me atender já me falando do lanche. Sempre às terças, no meu dia livre. Na cozinha, ela desdobrava a toalha que cobria metade da cabeceira da mesa e a estendia de ponta a ponta. Daí dispunha as xícaras para o café, os pãezinhos, os pães de queijo e os frios que trazia do mercado. Tirava um pote de mel do armário e a geleia e o requeijão da geladeira. Às vezes fazia um bolo, às vezes comprava pronto porque, depois de viúva, largou um pouco de cozinhar. Eu me sentava a seu lado e comia tanto que à noite nem precisava de janta, nem comprar qualquer coisa para o café da manhã. Tudo o que sobrava, tia Gerusa me fazia levar. Não precisa. Guarda pra senhora, mas ela me olhava de frente e alisava meus braços. Faço isso com gosto. O André e a Carmem não têm tempo pra me ver. Seu primo gosta de você, viu? E minha nora também. Acham lindo o que faz por mim.

            A doação representava uma boa economia. Os pães, frios e o bolo duravam até três cafés da manhã. Em troca pelos presentes, mudava os dias de faxina nas casas e a acompanhava às consultas médicas, ao dentista e aos exames. Com oitenta anos,  ela não pagava mais ônibus, nem metrô, mas a convencia que os carros de aplicativo eram mais confortáveis para chegarmos tranquilas nos destinos. Tia Gerusa não tinha celular e contava com o meu para as chamadas. Não entendia como funcionava, mas aceitava o valor sem conferir minha tela, me pagava em dinheiro e eu nunca tinha troco. Tudo ela pagava em dinheiro. Sacava o valor da pensão, recebia os dois alugueis e guardava as notas no forro de um casaco marrom no guarda-roupas do antigo quarto do meu primo.

Tia Gerusa também pagava um almoço em algum lugar perto dos consultórios ou um café, dependendo da hora. Ir às consultas era um passeio e ela  aproveitava as ruas para fazer compras na farmácia ou nas lojinhas de roupa ou sapatos. Sempre sobrava alguma coisa para mim. Acompanhava a tia de volta, ela abria as sacolas e me dava um presentinho. Sabonetes não me faltavam. Ganhava dois ou três daqueles mais caros. Às vezes, bombons, lencinhos de papel, calcinhas, meias e até blusinhas da moda. 

Um dia, na volta do cardiologista na Rua Itapeva, caiu uma tempestade logo que entramos em casa. Tia Gerusa não me deixou sair. Disse que ia tomar um banho e que se a chuva não parasse, preparava uma sopa para jantarmos juntas. Preferia voltar para minha casa, mas era uma boa oportunidade para conferir os valores no forro do casaco. Nas minhas visitas de terça, nem sempre eu conseguia. Na última, aproveitei o momento em que ela acompanhava o capítulo final da novela no Vale a Pena Ver de Novo. Tão concentrada na cena do casamento , nem notou quando saí para o banheiro e na volta passei no quarto do André.

O guarda-roupa era perfumado. Ela desembrulhava uns sabonetes e guardava em meias velhas dentro dos bolsos dos vestidos. Achava meio enjoado e provocava a minha rinite. Fazia um esforço danado para não espirrar. Se ela me ouvisse, teria que dar adeus aos duzentos ou trezentos reais que levava por vez. Ela nem se dava conta do que eu tirava. O que ela repetia era que eu buscasse ali o dinheiro para o seu velório, as flores e o caixão. Que é isso, tia?  Nem fale uma coisa dessas. E ela me respondia olhando de frente e passando as mãos nos meus braços. Do mesmo jeito quando me dava os pães, os bolos e os frios para levar.

Antes de ir para o quarto, coloquei o ouvido na porta do banheiro e conferi o barulho da água. Tia Gerusa ainda estava no chuveiro e o cheiro de sabonete chegava no corredor. Não precisava mais que cinco minutos para buscar o que eu queria. Dessa vez, tirei quinhentos e restaram ainda  seis mil e oitocentos reais. Deu tempo de contar. Apertei e guardei as cinco notas de cem na minha caixa de óculos e voltei para o banheiro.

Bati três vezes na porta. Tia, tia, tia. Ela não devia ter trancado. O vapor com cheiro de sabonete perfumava ainda mais o corredor. Tia, tia, tia.  A chuva não me deixava sair para chamar pela janela de fora. Tia, tia, tia. O cardiologista bem que falou do coração mais fraco. Tia, tia, tia, chamei mais uma vez antes de ir para a cozinha. Abri a toalha que cobria metade da mesa, forrei todo o tampo, coloquei dois pratos fundos lado a lado, peguei as colheres e, na panela de pressão botei um pedaço de músculo para o caldo da sopa. Quando a panela começou a soprar, baixei o fogo e voltei ao banheiro.

O cheiro de sabonete no corredor começou a se misturar ao da carne cozida. Tia, tia, tia. Colei o ouvido na porta. A resposta continuava sendo o barulho da água corrente. Fui para o quarto, soltei os alfinetes do forro do casaco. Dos seis mil e oitocentos reais, separei duzentos para uma coroa com flores perfumadas. Embrulhei o resto num saco de pão, guardei no fundo da minha bolsa e então liguei para o André.

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