A substância

Tatiana Tolstáia é, como o nome sugere, descendente de Lev Tolstói e Aleksei Tolstói, além de vários outros escritores. Russa de Leningrado, 73 anos, publicou o primeiro livro, No Degrau do Ouro, em 1987, o que a torna contemporânea das Liudmilas Petrochévskaya e Ulítskaya. Ao contrário da primeira, não envereda tanto pelo fantástico, e, diferente da segunda, não se interessa tanto pela profundidade psicológica de seus personagens. Investindo num tom entre a fantasia e o realismo mágico, parece se aproximar mais de contos como “O nariz”, de Gógol – bem, como dizia Dostoiévski, “todos somos filhos de Gógol”. Seu forte são histórias meio malucas com crianças viajandonas e velhos angustiados, em que subitamente o tempo cronológico (Chronos) parece invadido pelo tempo mitológico (Kairós). E tudo bem. Suas narradoras são frequentemente bem-humoradas, um pouco na linha de Bulgákov; porém, sua linguagem é muitas vezes barroca, abusando de descrições verborrágicas, torneios verbais e mudanças surpreendentes na dinâmica dos enredos, que são quase atmosféricos. Aqui tem uma boa leitura de todos os contos dessa coletânea, que acaba de sair no Brasil editada pela 34 e traduzida por Tatiana Belinky.

No Degrau de Ouro Tatiana Tolstaya [Projeto Para ler como um escritor #4]

 | lualimaverde

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Ler os contos de No degrau de ouro é algo semelhante a abrir uma caixa velha cheia de cartas, bilhetes, recortes de jornal, letras de música, fotografias… Um mundo de lembranças da infância, da juventude, dos amores conquistados e perdidos, das oportunidades desperdiçadas. São sobre momentos em que somos deixados por alguém, ou momentos que não vivemos e que viraram fantasia, momentos de desencanto com o mundo, todos eles se repetindo dentro de nós como a cena de um filme, por toda a vida.

Essas ocasiões vividas pelos personagens refletem no leitor porque, além de serem universais, a despeito de retratar uma cultura não muito familiar aos brasileiros, são descritas de forma muito íntima pela autora russa, misturando as vozes narrativas de uma forma bem peculiar – chega até a usar a incomum primeira pessoa do plural – e utilizando também, aqui e ali, o recurso do fluxo de consciência, ainda que de forma moderada, especialmente quando deseja mostrar a imaginação de seus personagens crianças.

Isso ocorre, por exemplo, em “Bem me quer – mal me quer”, em que duas meninas convivem com duas babás – uma amada e outra odiada – que as conduzem, através de fábulas ou canções folclóricas, para um mundo de fantasia alegre ou aterrorizante. Já no conto que dá nome ao livro temos uma linda descrição de uma infância livre, com aventuras nos jardins da vizinhança, em que tudo é grandioso e valioso. São crianças que idolatram a casa e as coisas do tio, mas o que parece tão dourado e precioso na infância pode não ter o mesmo valor com o tempo. E em “Encontro com o pássaro”, Petia é um menino com uma imaginação incrível, alimentada por suas leituras e pelas histórias de Tamila, uma mulher que ele acredita que será sua esposa um dia. No início do conto ele constrói toda uma aventura mitológica apenas observando o seu prato de comida no jantar. Tamila é seu único refúgio para escapar da solidão e de seus medos, especialmente do medo de que seu vovô doente morra. Foi o meu conto preferido da coletânea, os personagens e o clima sombrio criado pelas figuras dos pássaros foram perfeitamente construídos.

Além das crianças, Tolstaya apresenta também personagens com idade avançada, pessoas que já estão num momento de reflexão ou de lembranças doloridas. Em “O círculo”, um homem de sessenta anos, ao esperar sua mulher num salão de beleza, visualiza todo o caminho da sua vida, as amantes que teve e a inusitada maneira como as conheceu, e a sensação de que nada de especial aconteceu e nem acontecerá. Já em “Shura querida” temos uma velhinha cuja vida se encontra suspensa, dedicada aos álbuns de fotografia empoeirados e às lembranças dos amores que viveu, mas sobretudo a um amor que não viveu, que ficou esperando por ela. Aqui é especial a maneira como a autora trabalha o desejo de Shura de voltar no tempo: parece que aquelas pessoas que não vemos mais ficam paradas no lugar onde as vimos pela última vez.

Estes dois contos poderiam também ser classificados entre aqueles que mostram pessoas desencantadas com a realidade, em contraste com todas as expectativas que tiveram, juntamente com “Sônia” e “Rio Okervil”. No primeiro uma mulher considerada burra é enganada por muitos anos através de falsas cartas de amor. O irônico é que a pessoa que as manda, como uma brincadeira às suas custas, acaba se tornando um pouco o personagem que inventou. Destaque para os primeiros parágrafos, com uma linda descrição da tentativa de lembrar de momentos e pessoas há muito esquecidos. No segundo também temos uma história de ilusão, em que um homem apaixonado por uma cantora decadente tem dúvidas se deve ou não ir conhecê-la, se deve ou não ultrapassar a fronteira entre o que idealiza e a realidade. Ainda nessa mesma categoria temos “Caçada ao mamute”, com uma mulher obcecada pelas inúmeras estratégias para obter um casamento com um homem que não suporta e “Uma folha em branco”, com um homem completamente insatisfeito com a vida, que resolve enfrentar uma cirurgia para extrair sua angústia.

Tolstaya deixa bem demarcadas as diferenças de idade e de gênero, e é possível delinear dois movimentos em relação a homens e mulheres na sua narrativa: homens marcados pela infância, ainda presos a ela, e mulheres com uma vida à espera; homens presos ao passado, mulheres presas ao futuro. Tanto em “Durma bem, filhinho” como em “Peters” os personagens principais são homens com uma infância perdida, órfãos procurando um lar. O primeiro consegue, de certa forma, encontrar o que procura, mas o segundo é de tal forma rejeitado que não consegue atingir maturidade para enfrentar a vida adulta. É desse conto um dos trechos mais belos e tristes que li no livro:

“Peters tirou um guardanapo de cartão áspero do copo de plástico, enxugou a boca. A vida passou ventando, contornou-o e voou embora, como uma torrente impetuosa que contorna um pesado monte de pedras no chão.”

Quanto às mulheres, em “Fogo e poeira” é possível observar o contraste entre Rima e Pipka, aquela casada, com filhos, frustrada por as coisas não acontecerem como esperava e esta misteriosa e de reputação duvidosa, com mil histórias inacreditáveis para contar. Tudo que Rima deseja não depende dela, o que vai deixando-a cada vez mais desencantada com a vida. Gália é uma personagem muito parecida com Rima, em “O faquir”: também é uma mulher que vai ficando desiludida ao perceber que sua realidade de suburbana não vai mudar com suas tentativas de impressionar o rico Filin.

As histórias, portanto, são de pessoas aprisionadas a um destino cruel, marcadas por sonhos esfacelados ou por um futuro que aguarda a mesmice do presente. São pessoas que não estão lá nem cá, muitas estão no começo ou no final da vida e, por isso mesmo, mais perto deste “degrau”, ou varanda, ou soleira, tantas vezes usado de forma simbólica ao longo dos contos. Essa espécie de indicador de passagem é o lugar que não é casa nem é rua, não é dentro nem é fora, não é vida e nem é morte, mas também pode ser um lugar reconfortante, um limbo onde é possível aguardar que a chuva passe.

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PROPOSTA

Bem, como você leu, o pobre Ignátiev, como no filme A Substância, recorre a um procedimento médico extremo para curar-se – só que, no seu caso, em vez de injetar uma substância, ele a retira: a substância da angústia.

É isso mesmo o que você vai fazer.

O ou a protagonista do seu conto está angustiado/a. Sofrendo muito. À beira de um ataque de nervos.

Por quê? O que se passa em sua vida? O que lhe angustia? Quais são seus perrengues? Descreva-os.

Até que, desesperado, ele acaba ouvindo uma solução mágica.

Como? De quem? De um amigo? Recebe uma carta? Clica em um link suspeito? Conhece um estranho no elevador?

Detalhe essa abertura para uma vida mais feliz que o convencerá a tomar uma atitude tresloucada e abraçar o irreal.

Enfim, seu ou sua protagonista toma uma atitude: vai retirar a substância da angústia de si.

Mas o que ele faz? Por favor, seja criativa/o. Nada de mandá-lo para os Lençóis Maranhenses, para o Butão ou um vipássana no vale do Matutu. Nem tomar ayahuasca ou fazer meditação ou mindfulness ou yoga ou cogumelos mágicos. Invente alguma coisa mais maluca.

Descreva o processo da cirurgia de extração da angústia, seja lá como for.

Depois que ele ou ela passou pela retirada da angústia, como fica?

Termina bem, mal, ou igual?

Narre na terceira pessoa, em até 9 mil toques.

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