Budjuguim – Yan

São quatro, os meus budjugos. Três budjugos e uma budjuga. Juntei mais a mãe deles, tinha dezessete anos. Juntei mais a mãe deles uma vez pra dar uma, da primeira vez já deu meu primeiro budjugo. E foi o que me deu o arrancado pra banquejar a vida. Trabalho é de muito cedo, é de vida toda, desde que mãe morreu e eu tinha é quase nada de antes. Mas encher boca de budjugo é coisa de botar o caba pra arrancar de trabalhar mais do que encher boca só minha. Separei mais a mãe deles, mas encher boca de budjugo é pra vida toda.

E nesse arrancado de trabalho, me finquei foi bem bem. Comecei vendendo roupa pros sítios numa mototinha véia, depois numa nova, depois numa Pampa podre. Ano que vem posso até comprar Hillux verde em folha. E nessa de fincar fincado, rodei foi sítio e apareceu foi gente me dando menino pra batizar. Aceitava não. São quatro, os meus budjugos. Tá bom demais. Só que um vaqueiro de um dos sítios veio me dar pra batizar já com o menino nos braços. E não tinha de dizer não. Rai, menino réi bonito da gota. São quatro, os meus budjugos. E é um o meu budjuguim.

“Peça bença a padim, menino!”, e eu dava. “Deus lhe abençoe e lhe dê saúde”. E Deus deu. Cresceu desencabrestado, virado na peste, amarrando corda em pneu de moto e brincando que derrubava boi em vaquejada. Cresceu mais, soltou dos bichos e desencabrestou aqui pra cidade numa mototinha véia com coragem de mototona nova. Virou moto Uber. Rodava esse João Cabral todim que em dois anos parecia que tinha vivido aqui vida toda. 

“A bença, padim”, e eu dava. “Deus lhe abençoe e lhe dê juízo”. Deus não deu. Deram de dizer que ele dava banda com os perdidos do pedaço, comprando o que não deve e as vezes até vendendo. Dou crença que ele não faria isso. Fé eu não dou. Só dou fé dos meus quatro budjugos. Mas se o cumpade ligava pra saber do menino, eu dizia: “creio que tá tudo em ordem”. Não tava, mas crença eu tinha, então não era mentira. Até que me vi Tomé ao contrário, vi pra descrer.

Eu vou toda vida no bar do Negão no João Cabral, minha segunda casa. Mas nesse dia deu sede longe de todas as casas e perto do fim das vendas. Guardei o resto da mercadoria na Pampa e fui molhar o bico num bar de desconhecido. Não dei nem foi dois goles e entraram um galinhos de cara tapada, as pontinhas do gogó saindo por debaixo das toucas. Trabuco na cara, grito fino de garnizé engrossando grito de macho, passa o dinheiro, que morrer coroa, essas coisas. Mãe morreu faz é tempo, mas ouvi ela falar no ouvido: nessas horas feche os olhos e dê tudo, que a vida depois paga. Só que eu de teimoso olhei. Atrás do que me tomou o dinheiro suado da semana, tinha um outro com uns olhos vazando pelo buraco da touca. Cruzou vista comigo e desviou, mas não tinha jeito da gente desver. Nem eu, nem ele.

Deus faz essas coisas pra gente duvidar Dele. Duvido é nada. Deus pode me testar toda vida – duvido é nada. Eu sou sujeito de opinião, tá entendendo? Tanto que dei o dinheiro pro outro e passei a rezar, porque crença nessas horas é quase o mesmo que fé. Dava crença de que ele jamais faria isso, mas, depois de ver, dei fé de que uma boa conversa e uma peia melhor ainda davam jeito. Ia botar pra trabalhar comigo nos sítios, botar dentro de casa junto com meus quatro bujdugos, amarrar no pé da mesa se precisasse. Se aceitei apadrinhar, tinha de ser vida toda também. Encher boca de afilhado e afastar ele de mau olhado também tem que ser pra vida toda.

Eu dei fé disso tudo, fé verdadeira. Mas um homem que perdeu o dinheiro e dava crença de ser valente, deu fé que podia mais que os galinhos. Quando os entoucados tavam saindo, o homem desentoucou ele mesmo um trabuco e trocou foi tiro. Caiu o home, os galinhos voaram, só um tombou. Corri pra ele, me joguei no chão junto, levantei a cabecinha e tirei a touca. Respirava quase nada. Eu também, quase nada. Vazava sangue da boca dele. Vazava tudo dos meus olhos. Cabra macho, sim senhor, vazava sim. Gritei pela ambulância, sussurrei pra ele ficar quietinho, esperar, que já passava. Entre o sussurro e o grito, aquietou foi tudo. Velei os olhinhos dele e vazei mais os meus. Vazei e vazo até hoje. Porque antes de aquietar pra sempre, ele disse: “a bença, padim”. Depois que velei os olhinhos, eu disse: “Deus lhe abençoe e lhe dê perdão, meu budjuguim”. Deus não deu. Eu dava crença que Deus dava. Hoje eu dou fé que Deus nunca dá.

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