A partir de Beatriz Bracher

I. Resisti ao botox. Envelheci, tenho medo de agulha, é ideologicamente antifeminista, uma entrega ao apelo do padrão. Enfim, fiquei com cara de quem já acordava aperreada e passou a ser arrogante e irresponsável acreditar que resolveria a questão na base da Avon. Tenho espelho, gosto de me olhar no espelho, passo horas me vendo no quadradinho do Google Meet e comecei a me aperrear de verdade cavando ainda mais fundo a testa. Sou vaidosa. E a vaidade me faz passar base, corretivo e pó todo dia de manhã, o produto craquelado no fim da noite minava meu raciocínio. Cedi ao botox.

O dinheiro que gasto nas aplicações é equivalente ao que gastava nos cremes antirrugas. E exige a mesma dose de alienação. Se desprotegida, qualquer fachada de prédio espelhada é uma assassina, quebram-se meu amor e admiração por  Naomi Wolf capazes de deter minha ação predadora. O  nosso fracasso. O medo dirige e transforma em hostilidade todo o humano, torno-me uma idiota. Se protegida, testa lisa, perco qualquer expressão. Sem tristeza, espanto ou alegria não há vida, desafetada torno-me mesmo uma idiota.

Estava parada na sala de espera do dermato, no final de um sexta pré festa. A secretária surgiu sentou do meu lado do sofá com uma coleção de folhetos na mão. O movimento de sua boca preenchida berrava e a voz chegava baixa. Na testa? Tem certeza que vai aplicar somente uma ampola? Olhava descrente pra mim. Eu concentrada na sua boca, seus olhos, os panfletos, a aflição e o desejo de me vender mais procedimentos me convencia de que era cilada. Não achava que precisava de nada além da testa, mas não tentei explicar-lhe, ela não entenderia. Ouvi sobre o ácido hialurônico, os bioestimuladores, podia observar os detalhes de sua mandíbula, o volume das maçãs do rosto e o tamanho pequeno das mãos agarrando os folhetos.  Na testa? Tem certeza que vai aplicar somente uma ampola? Minha curiosidade apática aumentava seu desejo de colocar a comissão no bolso, o argumento oscilava. Eu mirava calma e hipnotizada, intrigada com o fim. Fui acrescentando ampolas ao meu orçamento, entrei na sala do médico e arranquei sorrisos da moça. Ela me entregou um espelho, deu graças por ter me convencido. Você vai gostar, tenho certeza. Um frio monstruoso me sobe do estômago e para meu coração. Fiz uma harmonização facial.

II. Resisti ao programa de demissão voluntária. Tô cheia de conta pra pagar, não sei fazer nada de diferente do que faço, era um movimento perigoso, não tinha lógica. Enfim, a coisa piorou e passou a ser arrogante e irresponsável esperar a empresa falir abrindo mão da multa de FGTS, férias e horas extras acumuladas. Tenho filhos pra criar, dou conta dos boletos de casa sozinha e uma bolada no banco não faria mal a ninguém. Tenho pânico. E o pânico de morar na rua, deixar as crianças passarem vontade, não ter dinheiro pra cobrir o negativo minava meu raciocínio. Cedi ao plano de demissão voluntária.

A energia que gasto fazendo entrevista de seleção agora é equivalente à que gastava administrando o chefe frustrado da empresa antiga. E exige a mesma dose de alienação. Se empregada, qualquer estagiário é uma ameaça, quebram-se os códigos morais capazes de deter sua ação predadora. O nosso fracasso. O medo dirige e transforma em hostilidade todo o humano, torno-me uma idiota. Se protegida, em casa, repetindo que sou perfeccionista numa reunião de zoom para o 15⁰ gerente de RH da semana, perco a vontade de viver. Mas sem salário não há vida, nao faço parte, torno-me mesmo uma idiota.

Estava parada em uma festa infantil, no final de um sábado desesperançoso. A mulher surgiu e perguntou se podia sentar na minha mesa. O movimento de sua boca berrava e a voz chegava baixa, um cover de Patati Patatá berrava ainda mais. Tás sozinha? É mãe de quem? Olhava louca pra mim. Eu concentrada na sua boca, na sua saia até o joelho, na coxinha gordurosa que trazia no guardanapo de listras. A simpatia e a conversa grudenta me convenciam de que era o inferno. Tás sozinha? É mãe de quem? A gente tá indo daqui pra uma reuniãozinha com macarrão ao molho branco lá em casa. Quer vir? Lembrei que não tinha pensado no  jantar. Na festa tinha de tudo, mas meu menor e vegetariano. Aceitei sem tentar explicar-lhe, ela não entenderia. O meu sim transformava sua ação, eu podia olhar, observar os detalhes de sua roupa, os pedaços de massa e frango passeando pelos dentes e o tamanho pequeno das mãos agarrando a coxinha. É mãe de Guga? A gente tá indo daqui pra uma reuniãozinha com macarrão ao molho branco lá em casa. Quer vir? Meu sim firme minava sua decisão, o convite oscilava. Eu mirava calma e hipnotizada, intrigada com o jantar resolvido repentinamente. Enfiei os dois meninos no banco de traz do carro, digitei o endereço da estranha no GPS e emburaquei na sala da mulher sem me dar conta da Bíblia e do quadro no cavalete entre o sofá e a mesa de jantar. Um frio monstruoso me sobe do estômago e para meu coração. Éramos somente ela, eu e o pastor. A pregação estava prestes a começar.

III. Resisti à boia de braço. Cresci, tenho mais de 40 kgs, é humilhante, uma piada. Enfim, a piscina infantil do clube determinou que não aceitava maiores de 12 anos e passou a ser arrogante e irresponsável frequentar a funda sob risco de afogamento. Tenho pai e mãe, sou representante de sala, presidente do grêmio da escola e da comissão anti bullying do fundamental 2. E as braçadas sem controle dos pequenos, o medo de tomar um pé na cara, encostar numa fralda cheia ou em um nariz verde minava meu raciocínio. Cedi à boia de braço.

A água fria que me refresca em uma piscina é a mesma que me refresca na outra. Exige a exata quantidade de tempo de sol antes de me molhar. E exige a mesma dose de alienação. Sem a boia, qualquer onda causada pelo mergulho de um sócio, adulto ou criança, é uma assassina. Mesmo que no primeiro degrau da escada da funda, quebra-se a confiança que tenho na capacidade que meu nariz, traqueia, brônquios, alvéolos e pulmões têm de fazer o seu trabalho. O nosso fracasso. O medo dirige e transforma em inoperância todos os músculos do meu corpo, torno-me um idiota. Se protegido, submerso, perco o contato. Sem medo não há urgência, afastado o mal, não preciso nadar, nao faço parte, não disputo provas de velocidade, de tempo de apneia, de adivinhação de palavras ditas em baixo da água, torno-me mesmo um idiota.

Estava deitado na espreguiçadeira, no final de um domingo de feriado. A menina surgiu e bateu na minha perna com uma bola de vôlei. O movimento de sua boca berrava e o som da caixinha da moça da espreguiçadeira do lado me confundia. Vai uma partida na piscina, vai uma partida na piscina antiga?  Olhava linda pra mim. Eu concentrado no seu ombro queimado de sol, seus olhos, a bola amarela, a aflição e a pressa de completar o time, lembrava que dava pé na piscina antiga, nem rasa, nem funda, e me convencia de que era cinema. Uma menina do ensino médio me convidando. Não tentei explicar-lhe o nervoso, ela não entenderia. A boia de braço não impedia sua ação, eu não conseguia parar de olhar, observar os detalhes do biquíni, a atenção que os amigos dela davam à cena e o tamanho pequeno das mãos agarrando a bola amarela. Não nessa piscina, na piscina antiga. Vai uma partida na piscina antiga? A bola amarela apontada contra meus olhos, a mão da menina do ensino médio tremendo, os sussurros dos amigos. Vai uma partida na piscina antiga? O movimento do meu corpo na direção da piscina antiga, afligia sua decisão, o convite oscilava. Eu mirava calmo e hipnotizado, intrigado com a inclusão repentina. Sem tirar os olhos dos olhos da menina, mais molhados do que quando ela chegou, pulei com a coragem que nunca tive na piscina antiga. Um frio monstruoso me sobe do estômago e para meu coração. A piscina está em reforma, interditada e vazia. 

*Textos escritos a partir de “Ficção” conto de “Meu amor” de Beatriz Bracher

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