por Américo Paim
A história foi essa. Eu juro. Num ia mentir. Eu tava na casa de Perna Gorda, no meio da tarde. A gente ainda de ressaca, deitado no quarto dele. Matinho tava lá também. O reggae da noite tinha sido bruto. Boca seca, fígado lenhado, enjoo da porra, bebendo água pra se fudê. Tava na boca pra chamar Raul, Olga, o pessoal todo. Os caras ainda dormindo. Lembrei da receita de vó que curava qualquer miséria. Cortar uns pedaços de melancia, misturar com água de coco e beber de vez, feito shot. Fui até a cozinha.
Velho, se eu fosse num chiqueiro era mais seguro. Quando limparam aquilo pela última vez? Abri a porta da geladeira e subiu aquela inhaca, um cheiro fodido de fim de mundo, papá. Não sei como não vomitei. Fechei a porra na hora. Ali tava tudo podre, né possível. Aí fucei na despensa, nos armários e nada. Já que não tinha jeito, voltei praquele portal do inferno.
Foi aí a merda, reconheço. Podia ter botado logo os bofe pra fora e tava de boa hoje. Num tava convivendo com esse aperto de mente.
Dei uma fungada grande, prendi a respiração e abri. Olhei rápido. Não tinha nada do que eu queria, mas encontrei um vidrinho com resto de leite de coco e uma banana nanica, toda vencida, coitada. Peguei os dois. Como achei que só aquilo num ia dar liga, catei umas folhas estranhas na gaveta de baixo. Misturei a porra toda no liquidificador, botei num copo, tapei o nariz e engoli de uma vez.
Que gosto medonho, véi! E o que veio depois? Rapidinho começou com uma coceira no cu. Eu juro. Um desespero. Quanto mais eu futucava, pior. Aí comecei a suar muito, tudo vazando. Não aguentei aquela nojeira toda e tirei camisa, calça, cueca, a porra toda. Pensa que acabou? Minha cabeça danou a doer, tanto que achei que ia explodir tudo. Fechei bem os olhos, por um instante, pra aliviar. Quando abri, eu num tava mais lá. É verdade, eu juro. Quer dizer, eu tava, só que não era mais a cozinha.
Um campo enorme, verdinho, cheio de árvores em volta. Eu sentia os cheiros todos. Logo eu que só usava o nariz pra segurar os óculos escuros, como dizia minha mãe. Reparei logo que tava muito perto da grama e que não tinha mais mão e sim uma pata, ou melhor, quatro. A coceira no cu continuava, só que não dava pra coçar porque não tinha mão. Me balancei todo e melhorou só quando me esfreguei no chão. Percebi então que tinha um rabo. Virei um cachorro, mermão. Que porra era aquela? Senti também um vazio no meio das pernas. Eu num tinha mais cacete! Num tava capado não: eu virei foi fêmea, papá! Eu me sentia gente, pensando, só que não falava, só latia. Prometi ali mermo que nunca mais ia beber na vida! Eu ouvia uns sons, uns rugidos! Tinha bicho grande naquela área. Tava quase me cagando. Dei um rolê com cuidado. Achei um rio, limpinho, mas eu não tinha sede. Nele eu me vi melhor e confirmei: eu era uma cadela, cachorra, véi. E não era só isso.
Eu não tinha corpo entre o pescoço e a cintura. Era pata, cabeça, rabo. Nada de barriga e tudo mais, eu juro. Tinha umas linhas coloridas e uns ossos segurando tudo. Como eu respirava, véi? Será que tinha pulmão, coração, mas eu não via nada. O certo é que agora eu era uma mistura maluca de carne, pelo e esqueleto. Eu num via bicho por perto. Não sabia se tinha mais alguém igual a mim.
Zanzei mais por aquele lugar por um tempo. Continuavam os sons animais e nem sinal de um. Não sentia fome, sede, dor, nada. Só cheirava tudo, tinha muita força nas pernas, sentia meu rabo balançando e me ouvia. O dia se acabava quando minha voz voltou, sem que nem pra que, eu juro. Tudo porque falaram comigo.
– Peixito?
– Oi? Quem tá me chamando? – olhei pra todo lado e num vi nada.
– Apenas me escute.
– Cadê você?
– Peixito, você deve se perguntar por que está aqui.
– Ah, cê jura? Quéquetárolando, véi? E para com esse apelido!
– Não gosta?
– Nunca gostei. Os caras pegam no meu pé. Meu nome é…
– Josualdo, eu sei. Peixito é mais simpático, tenho que dizer.
– Ô, “seo voz”, me adiante o assunto aí. Onde é que eu tô? Quéqueeutôfazenoaqui?
– Você está entre duas dimensões. Tem que escolher se vai para a próxima ou volta.
– Agora fodeu… Isso tá com cara de boca de zero nove.
– Não gostou do que viu?
– Num leve a mal, “seo voz”, é meio paradão, né?
– De certa forma… Mas a noite tem muitas surpresas.
– Coisa boa?
– Ninguém nunca sobreviveu. É um silêncio maravilhoso.
– Eita porra! E esses sons? Tá ouvindo?
– Um aborrecimento. Daqui a pouco para tudo.
– Véi, véi, papo doido é esse? Quero vazar, “seo voz”.
– Temos regras. Você se transportou de forma voluntária.
– É o quê?
Que transporte, velhinho? Eu peguei umas coisas na geladeira fedida, fiz um preparado e aí… puff: virei uma cadela falante, com coceira no cu. Pra completar, conversando com uma voz que nem sabia o que era e de onde vinha. Uma voz sem corpo, eu juro. Esse leriado de duas dimensões era merda na certa. E era questão de tempo! Gritei o nome dos caras, mas num deu em nada. Ninguém sabia que eu tava ali. Meu pai diria: “você se fodeu”.
– Você conquistou isso – voltou a voz.
– Não! Foi desespero com aquela bebida, só isso.
– O universo lhe trouxe essa oportunidade.
– Oxe, oxe, que ade?
– Poderá escolher se e como quer voltar.
– Claro que sim, “seo voz”? Ô, meu pai, só se for agora!
– Não é tão simples. Precisa responder a três perguntas, Peixito.
– É matemática? Sou bom não…
– Não é um teste de escola. É sobre sua vida.
– Aí tá de boa.
– Sem mentiras. Respostas sinceras vão lhe garantir. As erradas vão lhe complicar.
– Agora fodeu de vez…
– Está pronto? Podemos começar?
– Peraê, muita calma nessa hora.
– Algum problema?
– Oxe, quer mais? Corpo de cachorro, pensando feito gente, fêmea… E esse cu, véi?
– Oxiúros.
– Hein?
– Pegou em comida contaminada.
– Aquela geladeira de esgoto…
– Alguém lhe passou.
– Porra, Perna vive coçando aquela bunda… “Seo voz” me libere aí, chefia.
– Só depende de suas respostas. Fique tranquilo.
Ficar tranquilo? Tava barril, véi. Nem tinha como vazar dali. A tal dimensão num tinha placa nem nada. Pra onde eu ia? Celular num tava comigo. E não ia teclar, se eu não tinha dedo, só as unhas grandes nas patas? Tava na merda e aceitei a proposta da voz. E aí começou a bagaça. Surgiu do nada uma foto de mulher.
– Sei que reconhece essa moça, Peixito.
– Repare, “seo voz”, num tô entendendo…
– O que aconteceu entre você e ela?
– Peraê, num tem um outro assunto pra falar?
A coceira aumentou na hora, sacudi o rabo, gritei, me esfreguei no chão e nada se resolveu.
– Se continuar assim, só vai piorar.
– Pô, véi. Tanto assunto mais fácil aí…
– E então?
– Tá bom… foi uma cachaçada, eu tava louco… aí eu tirei…
– Não ouvi.
– Tirei o cabaço de Damiana, pronto. Agora repare: Perna num pode saber disso. Ele vai me matar.
Assim que respondi, me veio um corpo. De cadela, é verdade. Agora eu tinha uma barriga peludinha, combinando com o resto. Achei até bonita, mas a voz nem me deixou respirar. Me apareceu outra foto.
– E esse homem, Peixito? O que você fez?
– Ói, vamo parar com essa putaria…
A coceira passou pra o corpo todo. Me joguei no chão de novo, aproveitando a barriga nova. Rolei, gritei, uivei e até lati! Nada. Só parou quando eu voltei pro assunto.
– Tá bom, tá bom! É Seo Barretinho, da farmácia. Foi por precisão!
– Continue.
– Eu roubei porque tinhas uns problemas aí…
– Quer se coçar mais, né? Ou quer coisa pior?
– É não, é não, por favor. Foi pra pagar dívida com o dono da boca. Ele ia me queimar!
– Que feio, Peixito…
– Não conte pra Matinho, por favor, “seo voz”. É grana da família dele.
Voltou meu corpo de homem! Eu, que tava de quatro, levantei na hora. Ainda tava nu e ainda era fêmea! Eu ia pra onde assim, papá? Começou a ventar forte e subiu um cheiro estranho. Veio voando uma terceira foto e caiu na minha mão.
– Esse cheiro forte não é coisa boa.
– Bora dar um gás aí! – eu gritei, com medo.
– O que houve entre você e essa pessoa, Peixito?
– Véi, aí não! Sem condição. Vamos parar de brincadeira, “seo voz”!
– Ainda acha que estou brincando? – ele ameaçou.
– Não, não, calma, por favor.
– Então…
– É complicado isso, repare. Me dê outra pergunta, papito.
– Não vai responder?
– Tá bom, tá bom. Eu e Gisele… a gente ficou uma vez…
– O nome está errado, Peixito. E a quantidade também…
– Certo, certo. Quatro.
– O nome?
– Geraldo, pronto! O nome dela é Geraldo, mas pelamordedeus ninguém pode sa…
Veio uma dor retada no meio das pernas, como se tomasse uma broca. Coloquei a mão lá e fechei os olhos um instante. Quando abri, estava de volta à cozinha fedida, como num passe de mágica. Um alívio, véi! Daquele lugar maluco só ficou uma neblinazinha, que sumiu logo, rápido o suficiente para eu reconhecer Matinho e Perna Gorda parados ali, de pé, olhando para mim. Não pareciam felizes. E eu ia ter que explicar por que tava ali naquela cozinha, nu, com uma mão segurando as três fotografias e a outra no meu pau, recém recuperado e todo duro. Eles num iam acreditar que eu tava sem mijar desde meio-dia. Eu juro.
