
A primeira vez que abri os olhos já não foi para sempre. Dia a dia a vida me deu e me tirou uma coisa. Uma multiplicidade de traumas pôs fim a esta troca. Fui alvejada por oito disparos. Um rebuçado contado para cada buraco do corpo. De cabo a rabo, o alvo era o coração. Tiros penetrados, feridas duplas que entraram e saíram com uma liberdade que nunca dei. Ao conhecer a nudez interior descobri minha verdadeira sombra. Cor de chumbo, deformada pelo trajeto da bala nua, estilhaçada no sucessivo embate aos ossos. Meu rosto demolido agora tem vergonha na cara, exposta à visitação pública através de uma abertura no zíper do plástico. Santa a fingir, perdi a patente de ser pessoa. O pouco que sobrou do que fui é nada. E não mais eu. Me reduzi a estatística de feminicídio. Um cruel instinto de ferocidade fulminou a última gargalhada. De festeira passei a um depósito de pólvora. Corpo sem alma, a casa sem teto, a igreja sem abóbada. Uma sucessão numerada de lesões profundas, um animal abatido por esporte de crueldade. Não grito, tenho a língua morta. Um beiço indigesto orfão de dentes boia em um hálito putrefato. Decomposta, indefinida, no site de identificação de cadáveres sou a violência que a busca segura borra. A etiqueta pendurada no dedão do pé me coloca em pé de igualdade com conteúdos sexuais explícitos, avisos de gatilho, discursos de ódio e fake news. Nas tentativas de me legitimarem, sou pesada, medida, bisbilhotada. Colhem amostras de cabelo, das unhas. As digitais gastas completam minha ficha. Não me acho bonita na foto. Lavam-me com água pura. Retiram vestígios de sangue, terra, esperma, sujeira, excrementos. E eu sinto. Sinto muito. Sinto dedos salvaguardados em luvas de borracha desmembrarem o que era antes era vida viva do se transformou em uma desconhecida abalada. Rompem a pele. A remoção das costelas dá acesso a cavidade torácica. O processo é difícil, rejeito fraquejar. Meu coração sempre foi duro. Quase indisponível, caso raro de rigor mortis ainda em vida. Nunca fez jus a expressão câmara oca. Gigante, batia muito, apanhava mais. Arrancam do meu peito o músculo cardíaco murcho, do tamanho de uma mão fechada, como retiram um sapato de criança de dentro da caixa. Inspecionam o órgão, buscam anormalidades, analisam as perfurações, nomeiam o calibre da munição, a distância dos disparos, a exatidão do impacto. Esmiuçam com apuro o átrio, o ventrículo, a válvula, o coágulo. Não documentam que amei três maridos, quatro filhos, nunca soube quantos netos. Que amei alguns desavisados. Amei quem não devia. Viva, imperiosa, enlouquecida o marido da então melhor amiga. Amei de graça, amei quem pagou mais, ou qualquer coisa, poucas moedas, efêmeros trocos, esmola, comida. Em muita esquina barata esta carcaça foi profissão. Em outras camas foi poesia. Tamponam as narinas com chumaços de algodão. Vedam minha memória para que ela não escorra. Cheirei muita traição nesta vida. Cheirei abandono. Suor, poluição, perfume barato, cobertor velho, creolina, cocaína. Cheirei a fome dos meus filhos que cheiravam o bolo que assava para o filho das outras. O faro assombrado das gestações que choraram. A desejadas. As violadas, as não vingadas, as interrompidas. Hoje cheiro formol. No meu juízo final cheirarei defunto. Um talho em formato de Y desgoverna minha integridade. Enviesa as tetas moles, desemboca no útero. A costura grotesca remete a um cordão umbilical da morte. Perpetua um vazio que não existe mais. O peito desinfectado foi palco de afeto de tantos homens postiços. Eu vendia mais que corpo, eu ofertava colo. Entre quatro paredes valia tudo. Nunca regulei mixaria, sexo pago era quase amor verdadeiro. A vulva velha da puta morta disseca segredos para o médico legista. Cicatrizes, mordidas, cesáreas, promessas, dívidas, lágrimas. A pele rançosa expele bolhas de gases, fede horrores, escorrega o encontro com o devoluto. Múmia cansada, dessepulta, almejo virar comida de vermes, a lacuna mastigada, a dama da putrefacão. Na emoção avessa, me revolto contra o destino distraído, como o mundo se tivesse a obrigação de soprar somente coisas boas ao meu favor. Ou da paz. Perdi direitos, até as estranhas. Sofro o dano extenso do desamparo. Onde estão todos os homens que me leram? Não há verbo que transcreva meu estado. Enquanto há disponibilidade no frigorífico mortuário, tenho a estada prolongada por humanidade. Pelos familiares que clamam seus desaparecidos: graças a deus, não é ela! E então sou alívio. Mas não reclamada, continuo estorvo. Nem eu mesma tenho prazer me reconhecer. Despida dos meus defeitos não sei mais quem sou. Presa neste limbo pior que cadeia, não me despeço de quem fui. Eu, que dei para todos, sou privada a dar adeus. Impedem meu corpo de se decompor, tenho o futuro desenganado. Minhas últimas palavras são impronunciáveis, um uivo seco no vento. Não fiz testamento, deixo para a vida meus versos. Na parca lembrança de alguns, ainda não morri. Aos meus olhos, não existo mais. Sou um resto mortal que sobrevive com frio. Ainda sonho, mas já não acordo. O inferno é o silêncio. Mais nada.
(Glaucia Faria)
