Reação adversa

Como tá quente aqui dentro. Não consigo respirar. Dezesseis anos e ainda não me acostumei. O som sobe, dessa vez é rock clássico, e lá vou eu. Diante de uma meia dúzia de gatos pingados, finjo tocar guitarra, danço e faço sinais de joinha com a mão. O suor aumenta na testa. O show dura dois minutos, eu saio de cena. Houve um tempo em que era um palco, agora é no máximo uma sala de escola pública, um postinho de saúde, uma sala escondida no Ministério. Houve um tempo de glória em que as mulheres mais lindas e famosas, incluindo a Xuxa, me paparicavam.

Agora as coisas mudaram. O uniforme fica a maior parte do tempo guardado no escritório: cabeça branca gigante, olhos azuis vidrados, sorriso fantasmagórico no rosto. Macacão com enchimentos nos quadris, botas desproporcionais. Tá tudo meio parado, mas fica limpinho. E eu sigo contratado, funcionário público. De vez em quando pinta um evento melhorzinho, longe dos holofotes. Amanhã tem um com palco e tudo.

É meio mirrado, não tem mais o brilho de antes, mas o pessoal ainda me dá moral. Fazem fila pra foto, beijam o cabeção. De vez em quando, eu rosno pra quem interage comigo, mas, por fora, exibo o grande sorriso da fantasia. Todo mundo me olha, mas ninguém me vê. Me avisaram que hoje vem gente do Executivo aqui. Eu não gosto, foram eles que atrapalharam tudo, que me jogaram pra escanteio. Quiseram até me matar.

Depois da primeira aparição, guardo a fantasia no camarim, dou um tempo e saio para o público. No crachá, está escrito apenas CONVIDADO, porque ninguém pode saber minha identidade. Como CONVIDADO, anônimo, espio a movimentação atípica que se forma na entrada do auditório. Tem militares, policiais. Parece que vem mesmo alguém importante aí. Disseram que é o Presidente. A possibilidade desse encontro domina meus pensamentos e me faz suar mesmo sem o uniforme. Achei que o corpo dele entraria em combustão espontânea se estivesse em qualquer evento sobre vacinas. Deve estar tentando limpar a barra ou conseguir dinheiro de alguém. Mas dá minha hora, não consigo ficar pra ver.

Uma hora e um almoço triste de buffet depois, eu volto para a segunda parte do evento. Agora toca um samba. Eu precisei aprender a dançar de tudo nesses anos. O picadinho não tá me fazendo bem, sinto medo de passar mal, como aconteceu uma vez na frente do Pelé, outro safado. Na segunda ou terceira pontada na barriga, eles me anunciam.

— E aí vem ele, de novo, pra dar aquele toque especial no nosso evento… Zéééé Gotinhaaaaa!!!

Isso nunca me aconteceu antes. Eu tropeço no palco, a parte interna do cabeção bate forte na minha cara. Calor infernal aqui dentro, suo ainda mais de nervoso. O pessoal vem me acudir, meu sorriso de plástico informa que está tudo bem. Mas é claro que não está. Sambo como se nada tivesse acontecido, o nariz dói, deve estar sangrando pela batida. Quando me preparo para sair do palco, a mestre de cerimônias pede pra eu ficar.

— Hoje a gente vai promover um encontro inédito aqui.

Agito os braços de empolgação. Faz parte do personagem.

— Eu gostaria de convidar ao palco nosso excelentíssimo…
senhor…..
…..Presidente da República…..
Jair Messias Bolsonaro.

Vejo a pele putrefata e o pescoço de tartaruga de longe. É verdade mesmo. O mundo deve estar se acabando, o chão vai rachar em dois, vai chover canivete. Não é possível. Ele se aproxima e vejo com alguma dificuldade, através do cabeção, seus dentes amarelados. Encosta a mão no meu ombro e dá uma risadinha maléfica. Está me provocando. Meu coração acelera e a barriga embrulha de vez.

É tudo muito rápido, os zilhões de flashes do pessoal da imprensa cegam minha visão, mas consigo tirar o cabeção a tempo e, sem pestanejar, vomito na direção do rosto do presidente. A polícia chega instantaneamente e me derruba no chão, com alguma dificuldade por conta da fantasia, e assisto na horizontal o Presidente ser retirado do evento. Sua cara de nojo.

A mestre de cerimônicas, atônita, pergunta:

— Que é isso, Zé Gotinha?

Com a cara no carpete do auditório, declaro:


— Zé Gotinha é o caralho, meu nome é Mário, porra!!!

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