cair na piscina

marcas do que se foi

Estava ansiosa pela apresentação de Natal da filha. No entanto, quando a voz do locutor anunciou o número musical do segundo bê e o palco do teatro foi tomado de alunos de uniforme branco, vestindo gorro e segurando um sininho, não a encontrou entre as crianças. Reconhecia os amigos da filha um por um. O marido, ao lado, sorria e batia palmas, com cara de marido; em dado momento acenou pro palco. Ela, pra disfarçar e aproveitando a deixa, acenou também. O número acabou e eles se sentaram, aguardando em silêncio pelo início da próxima apresentação. Ainda haveria várias até que as crianças fossem enfim liberadas e que ela pudesse, quem sabe, encontrar a filha.

vitrines da galeria sem nome

Não importa o quão cedo ele chegasse ao restaurante, onde almoçava todos os dias, o velho já estaria lá, ocupando sempre a mesma mesa, no canto menos movimentado do amplo salão, perto dos sanitários.

(Tinha tentado também chegar tarde, quando o lugar estava quase fechando, mas não adiantou, invariavelmente dava com o velho lá plantado, ostentando seus gestos lentos e quebradiços, na mesa do canto.)

Ele gostava de observar as maneiras do velho, que usava sempre um boné por sobre os cabelos compridos e ralos, amarrados de forma frouxa, e que comia de cabeça baixa, mastigando devagar, bebericava de quando em quando um trago escuro num copo martelinho, que lhe acompanhava a refeição. Muitas vezes ele se demorou, tentou mastigar a comida ainda mais devagar do que fazia o velho, mas não adiantava: nunca o viu de pé, jamais soube se ele preferia vestir bermudas ou calças compridas.

Até que um dia aconteceu. Chegou ao restaurante e encontrou aquela mesa vazia. Sentindo o coração disparar, sentou-se no lugar do velho. Correu os olhos pelo salão pra conferir se alguém o observava. Súbito, compreendeu.

boca de lobo ou horizonte de possibilidades

Quanto tempo faz que está acordado? Não saberia dizer. Mas escuta o canto agourento da ave, um urutau, que lhe tira o sono. Nas pausas do canto espera o seu retorno com impaciência, com taquicardia, com coceira. Decide então se levantar. Pela janela observa a noite quase clara, porém tem a certeza de que a madrugada já vai alta. Deve ser a luz refletida da lua. Tudo imóvel lá fora, no pátio, apesar do canto que lhe atormenta. Pula a janela, abre o ferrolho do portão e sai em direção ao córrego que sabe que existe perto da sua casa, apesar de nunca o ter visto. É de lá que o canto vem; guia-se pelo som, buscando sua origem. No fim da ladeira encontra o alambrado cortado, uma passagem. Engatinha e atravessa o buraco em direção ao mato. Enrosca a manga do pijama no arame e faz um corte no braço esquerdo. Suas meias molham-se no orvalho da grama cada vez mais alta. Pensa em cobras venenosas e em outros animais, inofensivos. Caminha sem escutar nem mesmo o som que os próprios passos devem fazer ao romper o matagal fechado. Ouve apenas o urutau. É só quando algo o sobrevoa e escurece a noite ao seu redor que, molhado, ferido e com frio, percebe que não pode mais ver ou escutar nada.

o conselho de Mário, meu amigo imaginário, que me levou à desgraça

O garoto sentado no tapete ignorava o encaixe das peças do quebra-cabeça que tinha à sua frente e tentava dispor as peças de uma outra forma, como se a imagem que via e que tentasse então reproduzir não fosse a mesma que estava impressa na caixa do brinquedo. “Eu nem queria brincar, pra começo de conversa”, pensa.

a faca afiada de cortar laranjas

Foi o comentário que meu pai fez à mesa, que me fez rir, e sabe-se que não se deve rir enquanto se mastiga, mas acontece que as pessoas continuam tentando ser engraçadinhas, ou cômicas até, durante as refeições que acontecem em família (ou o que é pior, entre amigos, no jantar entre amigos a blague é uma ameaça, uma imprudência no mínimo, o copo de suco entornando por entre os lábios e não há como se tapar os ouvidos), mas foi também a composição daquele bolo alimentar formado por duas colheradas de arroz empapado, um naco de carne muito grande e muito dura, feijão com um exagero de farinha e pronto: o riso e a tosse e o bolo deslizando lentamente até o ponto exato da traqueia em que estaciona, caprichoso, de onde não pode continuar, nem tampouco retroceder, o que faz com que a única reação possível seja, portanto, o desespero, tanto o meu quanto o dos meus pais, minha mãe gritando e correndo em direção à rua, o pai me golpeando as costas. Eu com as mãos ao redor do pescoço e a vista escurecendo.

Quando acordei, ainda à mesa, os dois me olhavam com profundo alívio. Mas não eram os meus pais.

reconhecer um passado (sentar-se de costas pra rua)

A morena da foto do anúncio não existe. Todavia, enquanto aguarda o elevador do shopping ao lado da esposa, ele se sente um tanto constrangido de saber que ela, a morena, gosta de tapas na bunda, tapas com força, gosta de escutar o barulho que fazem os tapas, e que tem uma pintinha nos grandes lábios, do lado esquerdo de quem olha bem de perto.

incomunicabilidade e tédio

O primeiro escorpião era preto e minúsculo, uma novidade, uma hipnose. Fecharam todos os ralos, bateram os sapatos. No dia seguinte surgiu o segundo escorpião, maior que o primeiro. Naftalina, figa, veneno, praga, reza. O terceiro foi o amarelo, mais venenoso. Vedaram as frestas das janelas e das portas com uma fita de espuma, passaram querosene nos cantos. O quarto escorpião foi maior que o primeiro e que o terceiro, menor que o segundo. Ela mudou de carreira (ainda era tempo), ele comprou uma harpa (tarde demais). Esperam o quinto como um filho que não tiveram e que mesmo assim foi estudar na capital.

sonhos que vamos ter

Depois da apresentação, discutiu com uma amiga por besteira e foi se esconder num alçapão que encontrou por ali, ainda nas coxias. Queria ficar sozinha. Ninguém lhe avisou que a plateia não era iluminada e que, por isso, não seria possível enxergar o público. Queria ter visto seus pais, sua mãe sobretudo. Além do mais, tinha desafinado muito mais do que nos ensaios, devido ao nervosismo. Temia que alguém pudesse ter percebido.

O alçapão faz parte do sistema de refrigeração do teatro e só pode ser aberto por fora.

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