Um a menos

por Américo Paim

A revoada de maritacas passou diante da janela de onde Armindo mirava o vazio. O barulho tradicional não foi suficiente para ele não ouvir muito bem o fechamento do amigo Santos.

– Simples assim.

– Nem fodendo, esqueça!

– Véi, quer continuar desse jeito?

– É pedir demais.

– A decisão é sua.

Armindo sabia que precisava de uma solução. Não suportava mais aquilo. As noites sem dormir, o suor frio, a mania de perseguição, as dores no corpo, a falta de apetite, a impaciência com todos, do trabalho aos amigos do bairro, a insegurança. Não dava mais conta. Seis meses. O limite havia chegado.

Até outro dia ele era apenas o cara bonito, elegante, estável, sem marcas ou mazelas aparentes. Solteirão convicto, com namoradas e ficadas avulsas. Morava sozinho em apartamento em região tranquila da capital. Carro e plano de saúde decentes, viagens de férias. Não ostentava. Respeitado no bairro e pelos vizinhos. A família era pequena e morava no interior.

Supervisor de Produção há dez anos na fábrica de embalagens, nunca foi estressado. Era muito seguro e confiante. Foi promovido logo no início da carreira. Agora estudava Engenharia e assim que concluísse, seria aproveitado nessa nova função. As portas se abrindo.

Tudo mudou a partir daquele setembro. Chegou um novo Diretor, o Pedroso Cândido, com uma cara que parecia uma ratazana, trazendo mudanças grandes. Os amigos cravam que foi ali que Armindo mudou. Mesmo antes da saída do chefe da sua área, que não demorou, já mostrava sinais estranhos. Aparecia sem se barbear, falando pouco, almoçava sozinho no refeitório e tratava sua equipe com frieza e às vezes com rispidez. Nada mais da tradicional cordialidade. Logo prazo e qualidade de sua equipe foram questionados. Ele estava obcecado com a ideia de ser despedido a qualquer momento, o que se mostrou claro quando quase autorizou um serviço incorreto na fábrica. Um erro simples, que em tempos normais não cometeria.

Aquela conversa com Santos, seu amigo mais chegado e colega de trabalho, foi depois de muito relutar. Terapias e simpatias não ajudaram. Melhorava um ou dois dias, depois voltava à estaca zero ou tendia a piorar. Santos insistiu na ideia meio desesperada.

– Gelo Seco é um cara confiável, Armindão.

– Eu sei, é meu melhor mecânico.

– Então… Bora lá?

– Não dá, véi. É muita maluquice.

– Custa conversar? Vai se entregar de vez?

– Porra…

– Papo rápido. Aí depois cê decide.

Encontraram Gelo Seco no bar do Peçanha, perto de onde o mecânico morava. Armindo se sentiu deslocado no local e reclamou ao ver um rato passar bem à vontade, vindo da cozinha, bem embaixo de uma gaiola vazia de passarinho. Os outros minimizaram a cena. A conversa aconteceu.

– Conta pra ele de novo, Gelo – começou Santos.

– É assim: chega no lugar, faz o procedimento e pronto. Acaba o avexamento.

– Onde é isso afinal?

– É no interior, em Pedra Velha, terra de meu primo.

– Quem é ele?

– Tiro torto. O sinhô conheceu ele naquele baba da empresa, lembra não?

– Um troncudinho, conversador?

– Apois! Foi ele que falou do tal lugar.

– É na cidade mesmo?

– É não. Fica perto, mas é no meio do mato.

– Conte mais, Gelo – disse Santos.

– Sim, e com calma. Não acreditei em nada do que me falaram ontem – emendou Armindo.

Gelo repetiu. Foi numa conversa de corredor que Tiro falou de Zé Goiaba, tio deles. O homem morava em Pedra Velha. Vivia angustiado, com medo de ser corno. Quando se envolvia com uma mulher, terminava tudo logo no começo, do nada. Os mesmos sintomas de Armindo e até coisa pior. Uma vez pensou até em se matar. Ao fim da relação, ele melhorava, mas seguia desconfiado. Ele perdeu seu emprego de vaqueiro na fazenda Tirolesa e foi aconselhado por amigos a procurar Madame Silveirinha, “rezadeira” e “adivinhadeira” da região. Ela sabia de tudo, resolvia tudo. Já sem esperanças de nada de bom, ele foi.

Ela disse a Zé Goiaba que a solução seria um tanto diferente, mas definitiva. Ele iria a um pequeno povoado nos arredores de Pedra Velha. Lá não havia estresse. Viviam todos em perfeita harmonia, sem o dedo mínimo do pé direito. Ele perguntou se era de nascença e ela lhe disse que não. Era um preço. Era o mínimo a se pagar. Cortava o dedo lá mesmo, com um procedimento que era tranquilo.

– Tranquilo? Oxe, tá maluco?

– Foi o que tio Zé contou – disse Gelo.

– Não vou de jeito nenhum.

– O senhor repare que nunca mais ele se aporrinhou na vida.

– Tá vendo, Armindo? – falou Santos.

– Já fui lá visitar o tio. O homem nem pisa no chão de tão calmo.

– Ah, tá bom. Não pisa pra não cair, isso sim.

– O povo cai de vez em quando mermo, mas dá risada e sai andando de novo.

Gelo contou mais. Depois da amputação, a pessoa fica um tempo lá se recuperando e logo está liberado para fazer qualquer trabalho. Disse ainda que a história é pouco conhecida porque quem corta o dedo tem que morar na aldeia. Não pode sair para não quebrar a harmonia. Gelo sabia disso porque mais de uma vez foi visitar o tio, que já se casou por lá e tem até filho. Feliz que só. A maioria das pessoas tem medo do lugar e lá não coloca o pé. Com ou sem dedo.

Armindo não saiu do bar convencido. Duas semanas depois, baixou hospital, com crise forte de ansiedade. Ao sair, contou a Santos que iria à aldeia. Não aguentava mais. Primeiro encontrou Madame Silveirinha. Lhe pareceu tão assustadora que nem pensou em questionar as falas dela: “passe pelo procedimento, se recupere e faça sua vida nova por lá”. Ao perguntar o que aconteceria se ele voltasse à sua cidade, recebeu de volta um olhar silencioso que lhe petrificou de medo. Passou a noite em Pedra Velha e mal conseguiu dormir com barulho no forro do quarto de hotel. Coisa de rato, pensou ele. Muitos piados de aves do lado de fora também não ajudaram.

Dia seguinte, já na aldeia, passou pelo ritual. Chegou ao local que a velha lhe orientou e foi atendido por um homem muito alto e magro. Tinha um olho enorme, como uma coruja e a cara lembrava em camundongo, com um bigode ralo e feio. Entrou em uma cabana pequena e ficou nu. Ouviu uma musiquinha chata de flauta. Aí subiu uma fumaça gelada imensa que ao se dissipar mostrou duas gaiolas com pássaros diferentes. Ouviu uma voz: “escolha um e liberte”. Soltou o preto, um corvo. Começou um batuque estranho e ele tonteou, com uma dor de cabeça forte. Sentiu um leve perfume de lavanda ao mesmo tempo que lhe pegaram por trás, arrastaram para algum lugar e ele apagou de vez. Quando despertou, ainda nu, estava sentado em um banquinho e de frente para ele, uma gaiola com alguns ratos se deleitando com um petisco. Pensou ser o pássaro preso, mas seu grito foi ouvido de longe ao descobrir o que era a iguaria.

Tudo cicatrizado, passou uns dias vendo pessoas e rotinas. Até pensou que seus conhecimentos profissionais agregariam ao local, mas o desejo de voltar à capital era forte. Reparou que sua gastura sumiu por completo. Pensou nas demissões e nada lhe incomodou. Uma noite, se sentindo seguro, foi embora.

Voltou à fábrica e foi bem recebido por todos, inclusive pelo novo chefe. Em pouco tempo, tudo estava bem e sentia-se cada vez mais confiante. Adaptou-se a uma prótese e nem caía mais, como era na aldeia. Trabalhava à espera de promoção. Até aquela sexta-feira.

Uma operação simples na oficina: transportar uma válvula pesada de uma bancada para outra. Serviço de cliente importante, então ele resolveu acompanhar de bem perto. Quando o trabalho ia começar, ele notou um grande pássaro preto piando alto junto ao teto, pousado no topo da ponte rolante. Era um corvo. A ave ficou em silêncio assim que a operação começou. Armindo estava bem próximo da carga. Já no fim do trajeto, um rato gordo atravessou o caminho do operador, que, no susto, apertou o botão errado. A válvula tombou e o volante atingiu o pé esquerdo de Armindo, decepando seu dedo mínimo. Seu grito foi ouvido longe, junto com um piado longo do corvo que passou voando para fora dali. Santos, que estava na cena, saiu da oficina em busca de socorro e jura até hoje que lá do outro lado da rua viu uma mulher de preto que era a cara de Madame Silveirinha.

Cirurgia delicada, semanas em recuperação e ele voltou. Findo o período de estabilidade, foi despedido. Deixou a capital e abriu uma sapataria em uma cidade do interior. Trabalha sentado, pois não consegue se equilibrar. É bom profissional, mas tem um gênio que ninguém aguenta, sujeito muito estressado. Gelo Seco encontrou Santos dia desses. Contou que soube que Armindo foi até a aldeia, querendo morar lá. Não foi aceito. Tinha um dedo a menos.

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