Voo noturno

Voo noturno (Carol Schettini)

Não vou poder sentar no meio, disse o passageiro na fileira em frente à minha no avião. Tenho claustrofobia, completou. Ele titubeou ao colocar a mala no bagageiro superior, balançou ao ponto de outro passageiro segurar-lhe as costas. Cheirava a bebida. Vinho, muito vinho. Na certa, ficou horas na sala vip provando todas as garrafas oferecidas. Tive um namorado assim. O Juca. Começava tomando um vinho tinto, duas taças, bebia outra de branco e, olha só, tem Malbec e arrematava com outras tantas. Se eu falasse que ele havia bebido uma garrafa inteira sozinha ficava bravo. Garrafa inteira só se conta se for um tipo só. 

Não sei porque o passageiro da frente me lembrou tanto o Juca. Juca tinha cabelo loiro cortado reco, o homem um grisalho bem branco e longo. Usava óculos. Juca não. O homem tinha uma tatuagem rodeando seu braço, uma tribal, poderia bem ser surfista. Surfistas não bebem tanto dizem por aí. Não sei. Não conheço nenhum. O homem também deveria ter mais de sessenta. Se eu ainda estivesse com Juca, ele faria quarenta e três mês que vem.

Você não vai acreditar, o voo tá vazio, devo ir sozinho aqui em cinco cadeiras, o homem falava alto no celular, fazia um vídeo, mostrava o avião, os outros passageiros. Eu te amo, te amo tanto, não vejo a hora de voltar, já disse que te amo, podia estar aí, porque não veio comigo, eu tô repetitivo?, continuava aos berros. Podia ter respondido a ele sim, todo homem bêbado é chato desse jeito, mas me contive. Acho que a pobre do outro lado da linha deve ter dado um toque, ele logo desligou, não sem antes: já disse que eu te amo com todo o por-do-sol. Pelo menos, romântico. Juca nunca disse que me amava nem quando eu fazia todas as suas vontades.

Devo chegar de manhã, aviso quando desembarcar, o passageiro continua falando para outra pessoa. Uma outra mulher, consigo dar uma espiadinha na tela enquanto fico em pé. ora ora, quer dizer então que ele ligou para duas mulheres diferentes? Bonito, hein, rapaz? Quem vê essa sua pinta de susfista prateado não te dá por boa bisca.

Antes da decolagem, já está desmaiado, com o corpo morto nas cinco cadeiras do meio do avião. Vi que colocou o celular no bolsinho da frente. Bem que eu podia pegar o celular dele e mandar uma mensagem para a mulher e para a amante. O celular bloqueado não vai ser problema. Li um livro de suspense de duas amigas e uma delas morre.  A que ficou viva vai no necrotério, finge chorar, pega a mão da morta, coloca a digital, abre o celular, corre para o banheiro para trocar a senha e tal. Pior que descobre que a morta era amante do marido dela. Ela chega a pensar que o marido é o assassino, mas não era. Claro que não vou pegar o celular do surfista e correr para o banheiro. Primeiro, porque quero só mandar uma mensagenzinha à toa; depois, banheiro de avião está sempre ocupado e pode estar fedorento e eu ter uma ânsia de vômito e tal. Vamos ser práticos.

Finjo que deixei cair uma caneta na frente, abaixo, pego o celular dele, coloco em frente a seu rosto adormecido e não é que funciona e abre? Vou direto para ligações feitas. Sabia! A última, o nome de uma mulher e a penúltima, salva como “fiscal”. Nem imaginação o surfista tem. Juca também era assim. Salvava os contatinhos dele com nomes genéricos. Fica a dica para traidores: melhor colocar logo o nome de uma mulher, menos suspeito.

Abro o whatsapp e envio uma mensagem para uma e para outra. Para a mulher por-do sol, termino tudo. Seco e grosso. Uma frase: sem ser repetitivo, cansei de piranha, amo minha mulher. Apago o contato e bloqueio. Para a mulher, um eu te amo e vou sentir saudades é suficiente. Não vou estragar casamento dos outros. Cada um com cada um. Quando eu tava com Juca fiquei com ódio da Melissa que me ligou para fofocar que o viu num baile com não sei quem. Fui obrigada a tomar uma atitude. Que saco, gente! Por isso, vou ser discreta e consertar a vida do surfista sem atrapalhar a vida dos outros. Simples assim.

Coloco o celular de volta porque preciso descansar também. O problema é o ronco. Ele não para de roncar. Podia ir para trás mas já está todo mundo alojado, quem deu sorte como a gente já está deitado, ninguém com uma luzinha acesa. 

Não consigo dormir com ronco dos outros. Quando Juca roncava, eu dava-lhe um cutucão ou fazia som de beijo rápido, às vezes, funcionava, às vezes, ele ficava puto. Empurro a cadeira da frente um pouquinho. Empurro com os dois pés. Nada. Nem se mexe. Saio pelo lado da direita e esbarro no seu pé na ida e na volta. Mal se move. Eita bebidinha boa. 

Concentro no barulho do avião, mas o ronco é insuportavelmente alto. Vou pelo outro lado, bato na sua cabeça, nada. Paro a seu lado, tapo suas narinas por segundos e corro dando risadinhas. Encostar no rosto dos outros dentro de um avião parece coisa de maluca. Eu não sou maluca, o problema são os roncos altos, altos.

Não consigo dormir, minha cabeça arde. Quando Juca roncava assim eu tomava Advil de 400. Não tenho remédios aqui, despachei por engano. Talvez, seja melhor fazer algo mais drástico. Como sou metódica, o saco que embalava o cobertor e o travesseiro está intacto, posso passar o saco sobre seu rosto. 

Assim que faço isso, ele se mexe e resmunga. Coloco meu travesseiro em cima da sua boca e me sento com força. Se eu não tivesse acordado com meu próprio ronco, o teria matado. Seria bom.

Deixe um comentário