16 Apesar de não poder se movimentar, ele escutava a conversa dos médicos com os parentes. Escutava mas não ouvia.
Essas palavras ou qualquer palavra, como as que estão escritas aqui: podem permanecer, talvez resistir mil anos; pouco adianta, podem nunca mais ser compreendidas. Mudam os sotaques, as vozes, os silêncios, as piadas. Significados perdidos, conceitos incertos. Da mesma forma, as ondas sonoras ecoavam os ossos mínimos em seus ouvidos, mas eram inúteis. Signos sobre as rochas em galerias profundas.
Ainda assim, ele escutava. O médico decretava que seu cérebro estava morto. A família chorava ao seu redor, e ele procurava consolá-los com racionalismos:
-Tudo que existe, existe para nos trair, assim é o corpo que finge nos obedecer e fazer o que desejamos, apenas para nos derrubar mais adiante, falho. É o sangue que engrossa, é o fígado que não filtra, e a boca que se enche de cáries, são os olhos que já não enxergam. Assim é com tudo, das células cancerosas, aos microvasos que alimentam o cérebro.
E então nesse segundo, sua consciência começou a retornar. Mas já era tarde, os aparelhos foram desligados.
1 No primeiro, ele foi encontrado no chão da cozinha, panela já havia fervido toda a água. Quando despertou do coma, queria saber que horas eram e o dia da semana. Passaram-se uns minutos e perguntou as horas e qual do dia da semana. Perguntaram o que ele se lembrava do dia do derrame. Ele relatou que iria preparar uns ovos para cozinhar e antes de continuar queria saber se estavam na terça ou quinta feira. E depois se já estava na hora do almoço.
3 No terceiro, ele já estava em casa escovando os dentes quando percebeu que o espelho do banheiro tinha uns cabelinhos sobre a superfície. Então decidiu limpar aqueles defeitos. Espalhou o creme dental na mão e esparramou sobre o espelho. Depois notou pequenas manchas de mofo na madeira do móvel. E passou ali também a pasta de dente. Antes de avançar para outros aposentos de sua residência, observou que a própria pele não era uma superfície homogênea, com sua própria seleção de cravos, espinhas, calombos, verrugas e pelos encravados.
Além do neurologista, foi atendido por um dermato pela extensão das queimaduras na própria pele.
4 Tinha certeza de estar sendo observado. Quem avisou foi William Bonner durante o Jornal Nacional. Ligou para a irmã para avisá-la mas ouviu durante o sinal de chamada um ruído inequívoca que a linha estava grampeada. Suspeitou que ela já havia sido cooptada. Fechou as cortinas e as venezianas. Trancou cada uma das portas com duas voltas. Esqueceu-se do mais óbvio: o celular. Deixou uma mensagem de adeus no twitter e não esperou curtida ou engajamento. Usou alicate para remover a bateria, o que provocou um início de incêndio. Para apagá-lo, abafou as chamas tóxicas na terra do vaso da espada-de-são-jorge. A irmã veio junto com o pessoal da ambulância para tentar convencê-lo.
Não adiantou, ela fora substituída por um robô muito parecido com ela, mas que não era ela.
5 Estava fumando e entre uma tragada e outra perdeu o cigarro. Só então notou que a mão estava boba.
6 No sexto, ele se apaixonou. Começou pelo atendente no balcão da padaria. Disse que ele estava tão bonito que não merecia estar trabalhando ali, ele tinha futuro como modelo. O balconista riu e em troca deu-lhe um pão de queijo de graça. Aquele era o pão de queijo mais perfeito que já vira, uma pequena lua amarela que tinha a delicadeza de caber entre seus dedos, outra maravilha da engenharia biológica. Na fila do caixa, notou a abundância e exuberância de cores e materiais e os nomes em inglês de cada mercadoria. Pegou um com a cor vermelha, uma cor muito mais uniforme e brilhante que a de qualquer rosa e a ofereceu a moça do caixa, que esboçou um sorriso meramente protocolar, mas para ele foi uma exposição de marfim, eram peças alinhadas de um jogo de xadrez, as brancas acima e abaixo ocultas no interior da boca, as demais negras, aguardando uma partida e sob o tabuleiro, um dragão cor de carne que se movimentava para perguntar se o pagamento era débito ou crédito e antes de pensar em responder já estava gozando e tremendo de prazer e amor, enquanto as lágrimas caíam de seu rosto pensando em todo amor que já perdera em sua vida.
7 Notou no canto do olho que havia algo se mexendo. De início, considerou se tratar daquelas moscas volantes, as pequenas cadeias de proteína que nadam no interior do globo ocular. Depois percebeu que era elaborado demais. Era um Mickey Mouse em miniatura, quase transparente. Ele tinha a certeza que era uma ilusão, preferiu continuar fazer o que estava fazendo que era assistir ao Silêncio de Scorcese. Mas o Mickey Mouse continuou insistindo para sair do canto da visão e a rumar para o centro da tela. Apesar de transparente, o camundongo impedia a plena absorção da história, com samurais e missionários e pessoas sendo torturadas em nome da fé. Ele gesticulava e abria a boca como se estivesse falando, mas era um filme mudo, ou melhor ele tentava acompanhar as palavras de Adam Driver. Fechou os olhos para tentar fazer a imagem sumir. Mas então – sob a treva da pálpebra – notou que ao redor de Mickey havia outros, Mônica, a Cobra Azul, Frajola, Bob Esponja e Lola a Andorinha, todos nadando e dançando como se pudessem passar um segredo que só podia ser transmitido sem palavras.
8 Teve a certeza que estava morto, então se estava morto não precisava mais tomar banho. Foi para a rua e decidiu se masturbar numa árvore, pois para os mortos não havia mais pecado a se cometer.
9 No nono, ficou sonâmbulo. Acordava no elevador de pijama, com a chave do carro na mão. Sobre o capacho do apartamento da vizinha, como se fosse um cão de guarda. Exausto e com os músculos doendo, as mãos e pés grossos, sujos e ásperos, como se tivesse pulado entre escadas e telhados em um parkour às cegas. Martelando paredes às três da manhã. Lendo um livro que ganhou de presente mas nunca lera desperto. Apanhando de um grupo de pessoas de um bar. Casado com alguém que não sabia quem era.
10 Uma melodia se instalou na sua cabeça, tão alta que era difícil de escutar o que os outros diziam. Passou a falar gritando, como se estivesse num show permanente. Era difícil para dormir e durante os sonhos, sempre havia a mesma música saindo de um rádio, de caixas de som. Quando nadava, escutava a música ribombar sob a superfície. Quis aprender piano. Como não tinha piano em casa, ia praticar em um piano público que havia em uma estação de metrô. Formava-se um pequeno plateia ao seu redor, de estranhos tentando acompanhar seu esforço, de outros músicos amadores que queriam se exibir também.
Enquanto estava na sala de espera, seus dedos faziam os movimentos sobre um teclado invisível. Uma garotinha se encolheu no colo da mãe, com medo daquele gestual.
11 Parou o automóvel no acostamento, antes da placa verde. Nada do que estava escrito nela era legível. Ou melhor, todas as letras estavam lá e elas compunham palavras, separadas entre elas havia espaços e números indicavam a distância para cada entrada da rodovia. Mas embora reconhecesse as letras, conseguisse soletrar cada uma delas e até mesmo fazer a divisão silábica, era incapaz de compreender o que diziam.
Em seu relatório, o policial rodoviário informou que o motorista falava alemão ou russo e ficou na dúvida se lhe dava uma multa ou chamava uma ambulância.
12 Sua mulher perguntou quem era aquele homem em sua cama, sendo que ele só respondeu que sempre fora homossexual, desde o início daquela amanhã.
13 Pensou que a penumbra que aconteceu na praça era culpa de uma nuvem. Mas ao se virar para cima não havia nuvens, ou se havia, era uma tão extensa que cobria o céu de norte a sul e de leste a oeste. Foi conferir o celular e a tela estava estranhamente opaca. Também não havia cores no outdoor ou nas roupas da moça correndo. As flores e as abelhas pareciam igualmente foscas e o gramado lembrava uma espécie de cobertor para mendigos. Parou de fazer exercícios, pegou a bicicleta para ir dali direto para o hospital.
Mas se confundiu com as luzes do semáforo, apesar delas seguirem sempre a mesma sequência, e acabou sendo atropelado.
14 Durante a prova, percebeu que não conseguia mais fazer contas.
2 Encarou-se no espelho do quarto. Um lado do rosto estava inerte, a pele e os músculos derramados ao sabor da gravidade. Do outro lado, sua cara estava viva e alerta, a pálpebra acesa. O médico disse que ele precisava se exercitar. Se não se esforçasse, poderia nunca mais retornar ao que era.
Mas a ideia de se mover lhe era estranha. Não se diz “mexa-se minha perna”, “mova-se meu braço”, o corpo só se submete ou talvez não. Você sempre está se mexendo, dedos, barriga, cabelo, boca – meio polvo, meio árvore – cada pedacinho vibrando, fluindo e a pessoa se acha a dona da porra toda. Agora seu rosto o traía: era a X-Wing afundada na lama e ele, um Skywalker buscando não sei de onde a Força para levitar toneladas.
Deita-se frustrado com os exercícios. Arrasta-se sobre a cama e reclina a cabeça para fora do colchão, de modo que esta fique invertida. Agora o piso é o teto e a lâmpada está lá embaixo. No espelho, percebe que a face inteira se submete a força da gravidade. Os dois lados do rosto finalmente simétricos num sorriso suave.
