MAILOK – LONG LIVE ROCK AND ROLL (Livrai-nos do mal)

Ailton fuma um cigarro encostado na parede do quartinho nos fundos da casa, sentado no degrau de uma pequena escada de metal. São muitas as desgraças do mundo, ele pensava, muito sofrimento desnecessário, muita injustiça. Sandra, a irmã, estava na cozinha conversando com a mãe e ele as ouvia à distância, sem distinguir nem as palavras nem o assunto das duas. Eram seis da tarde em um sábado de jogo e se podia ouvir a narração do rádio ou tv do porteiro no prédio ao lado. Ailton havia acabado de acordar, tomou um resto de café velho de garrafa, feito pela mãe de manhã e foi fumar no quintal. A noite de sexta não tinha sido nada fácil e uma mistura de ressaca e arrependimento fazia latejar uma veia na lateral de sua cabeça.

Nataniel, seu amigo de todas as horas, o havia alertado logo que chegou ao bar, sobre uma moça bonita sentada no balcão. Carinha nova, morena de cabelos escuros, longos e lisos, corpão de musa safada. Não se iluda, disse o Nataniel, essa carinha nova já está velha na praça. Fiquei sabendo no Bar London que ela e a amiga entram nos lugares com um propósito: pegar trouxa.

Logo em seguida começou o jogo de gato e rata. Pegar a rata não foi difícil, ela estava pronta. Segundo Nataniel, eram duas, ambas muito bonitas. Uma das amigas seduzia o panaca e o levava pro banheiro. A outra chamava ajuda e dizia que amiga tinha sido forçada; chamava polícia, advogado, o escambau a quatro. Tudo armado pra pegar otário.

Nataniel se encarregou da segunda amiga, enquanto Ailton levaria a do balcão direto pro banheiro. Ou era pra ser levado. Mas não seria tão fácil assim. Ailton tinha lábia, tinha manha e experiência. Anos de prática. Os cabelos longos e ondulados, agora ligeiramente grisalhos, os dedos cheios de anéis e o charme de tiozão do rock, naquele cenário, não costumavam falhar. O Mailok era um bar conhecido por trazer bandas de heavy metal pra tocar na cidade. A galerinha jovem que frequentava era muito ligada nos ídolos do rock, do presente e do passado. Moleza pra um tiozão charmoso, legítimo ícone do amor livre, com muito sexo.

Foi assim, com a Whole Lotta Love / Led Zeppelin tocando ao fundo, que Ailton deu um safanão e tapou a boca da embusteira enquanto fazia seu servicinho social de limpeza do ambiente do seu bar favorito, no banheiro do Mailok Rock Bar. Tiozão rola cabeçuda, rasgando bucetinha, metendo com força, empurrando, metendo na vagaba que queria fazer Ailton de otário. Já que ela ia clamar estupro, estava tudo correndo de acordo com o planejado. O plano fora dela, não dele. Ele só estava ajudando a implementar, ‘playing along’, como se diz por aí. Com algumas modificações.

A situação saiu do controle quando ela mordeu a mão dele, com muita força. Ailton não fez por mal, foi apenas um reflexo. Puxou de uma vez a mão mordida e com a outra bateu na nuca da garota, que desfaleceu. Falta de sorte danada. A catraia pediu, tava gostando e muito. De repente, mudou de ideia. Tarde demais. Ainda por cima, quis morder. Agora ele ia ter que levar a mulher embora, sem ser notado. Como sair dali com a moça desmilinguida, sem ser filmado pelas câmeras do bar?

Pensou rápido, sentou a criatura no mictório, saiu e fez um sinal pra Nataniel. A amiga não estava mais por perto. Nataniel não tinha mesmo muita sorte com as mulheres. Alguma coisa sempre dava errado pra ele, que acabava sem mulher. Pediu o gorro, a jaqueta, a calça e o sapato do Nataniel. Disse pra ele sair pelado pela janela do banheiro feminino, que era mais baixa, e esperar lá fora. Pediu a chave do carro de Nataniel também, porque tinha vindo de moto. Vestiu a mulher com as roupas do amigo.

Ailton passou pelo salão arrastando o que seria o Nataniel bêbado, saiu pela porta lateral e foi até o Nissan preto do amigo, estacionado perto da entrada do bar. Tirou a roupa da mulher emprestada do amigo e foi atrás de Nataniel que esperava do lado de fora do banheiro. Enrolou tudo e colocou debaixo do braço. No trajeto viu a Dani saindo do bar com um carinha. Seus olhares se cruzaram e ele mandou pra ela a mão chifrada do heavy metal. As roupas do Nataniel apertadas embaixo do outro braço. Gostosa demais essa Dani. E não cria problemas pra ninguém.

O cigarro quase acabando, Ailton continuava a remoer os acontecimentos da noite anterior. Escutou os passos da irmã vindo da cozinha em sua direção. Só me faltava essa, pensa. A chata da Sandrinha. A irmã é agradecida por Ailton viver com a mãe. Admira sua resiliência; jamais moraria na mesma casa com a mãe, nem com Ailton. A mãe reclama que passa as noites sozinha, porque ele só chega em casa de manhã. Reclama de ter que pagar pensão da neta que ele não paga. Mas costuma mudar de ideia e diz que é melhor que pagar uma cuidadora. -E aí, beleza? Sandra pergunta. Ailton acena com a cabeça e dá um trago no cigarro. Olha para as árvores no quintal e dá outro trago. – Fica até quando, ele pergunta sem olhar pra irmã. Duas semanas, Sandra responde. Vou levar mamãe ao dentista na sexta, já combinamos. – Ah, beleza então. Tenho mesmo um compromisso na sexta. Bom que você vai poder levar. A irmã mora fora, mas vem regularmente e ajuda com a mãe. – Vou ver se tomo um banho, Ailton diz, levantando-se e entrando na casa. – Vou precisar sair daqui a pouco. Sandrinha não estranha a secura do irmão. Está cada dia pior, mais lacônico e encasmurrado. A não ser nas redes sociais. Por lá parece alegre e divertido, cheio de amigos, sempre nos bares da moda e nas festas.

No chuveiro, Ailton repassa a cena de ontem e considera a possibilidade de alguém já ter dado falta da mulher. Será que a procuravam? Será que alguma pessoa poderia ter reconhecido a mulher vestida com as roupas do Nataniel? E a tal amiga, que fim levou? Nataniel é meio pancada, fácil ter inventado aquela história da amiga e do golpe. Vai ver não tinha amiga nenhuma, golpe nenhum. Mas ele resolveu bem o problema, comparecendo com a casa abandonada do tio, na Lagoa das Flores. Casa boa, deve ter sido bonita. Entulhada de coisa velha agora, uma bagunça. Deixaram a moça numa cama, atrás de um monte de caixas, em um quarto no andar térreo. Não quis conferir se ela respirava. Os dois tinham bebido demais, adrenalina demais, Ailton achou melhor decidir no dia seguinte o que fazer com a mulher.

Nataniel costumava frequentar a casa da Lagoa quando era criança. Graças a ele, ainda estão lá o atracadouro e o barco. Se o tio quisesse, ainda poderia vir pescar ali. A casa cheia de bagunça, há anos está fechada, só mesmo Nataniel vem sempre, será o único que tem a chave? Os primos não frequentam de jeito nenhum, desde a morte da mãe. Aquela trinca grande na parede está cada vez maior. Deve estar condenada a casa, um dia provavelmente vão demolir. Mas o barco está bem cuidado.

Nataniel e Ailton fumaram um cigarro na varanda olhando o lago. Ailton é um cara bacana, mas dá muito mole pra mulher. Tem filho pra todo lado e mal faz pra pagar pensão. Não sabe tratar as vagabas. Só se enrola. Essa aí levou o que merece, concluiu Nataniel. É só o que fazem, armar pra cima de homem pra levar vantagem. Ter quem sustenta. Obrigar a fazer tudo que querem. Essa aí aprendeu a lição. A amiga dela também.

Ailton e Nataniel frequentam o Mailok ninguém sabe dizer desde quando. Ailton é popular, querido das frequentadoras, boa pinta. Tem garrafa com seu nome no bar, joga sinuca bem e fotografa as bandas e as festas. Nataniel é uma espécie de fiel escudeiro, calado, meio esquisitão. Os dois se conhecem desde o colégio e andam muito juntos, mas Ailton é frequentador mais assíduo. Há vários dias Nataniel não aparece no bar. Ailton tem vindo, mas anda meio caladão. Quase ninguém pergunta pelo Nataniel; ele nunca foi mesmo muito popular. Quando alguém diz alguma coisa, Ailton responde – Faz tempo que não o vejo, ele anda meio sumido. Se alguém prestasse atenção, observaria que Ailton estava pálido. Andava bem estranho; está com alguns trejeitos esquisitos, ficando igualzinho ao Nataniel.

Naquele sábado à noite, depois da fatídica sexta feira, Ailton voltou à casa na Lagoa das Flores, conforme haviam combinado. Encontrou tudo fechado. Nataniel não apareceu, mesmo eles tendo confirmado no final da tarde. Iam dar um jeito de levar a mulher para o meio da lagoa, sem deixar rastros. A casa era afastada, o barco estava em bom estado. Aquilo tudo parecia um pesadelo. Não conseguia pensar em outra coisa. Se começava a pensar ou se interessar por algo, a noite de sexta voltava como uma onda de maré podre e invadia seu pensamento. Ligou pro celular do Nataniel. Outra vez, só caixa postal. Decidiu esperar um pouco e tentar novamente. Caminhou até o pequeno píer de madeira onde estava o barco. A noite estava bem escura, ideal para o que planejavam fazer.

Um choque percorreu o corpo de Adilson. Não havia ali barco algum. Tudo em completo silêncio, a casa fechada, trancada a chave, e nada de barco. Voltou até à casa e tentou olhar dentro, pelo vidro de uma das janelas. Decidiu forçar a janela. Nada. Reforçada com tranca por dentro. Teve a impressão de que as caixas, antes empilhadas, agora estavam espalhadas pelo chão. Esgueirou-se mais para trás, pelo corredor lateral, e conseguiu ver metade da cama onde haviam colocado a mulher. Não havia nada sobre a cama. Sombras de caixas e cadeiras empilhadas não permitiam uma visão clara. Pensou ter visto de relance, esvoaçantes, os cabelos longos de uma mulher.

Deixe um comentário