Dolly Uma, Dolly Duas, Dolly Três, vendido!

Glaucia Faria

1.

Foi em meados de 1997 que elas vieram ao mundo. De uma tacada só. Primeiras gêmeas naquela terra de ninguém. Nasceram de uma aflição idêntica. Iguais, iguaizinhas, cópias carbonadas, reflexos sem espelho, dois lados da mesma moeda. Dolly Uma da Silva e Dolly Duas da Silva foram batizadas assim, em homenagem a tal ovelha que até saiu no Fantástico. Nomes de rica, decerto importante, eleitos pela Dolly Mãe sem direito a pitaco. Ela, que durante noventa meses reproduziu na pança as versões do mesmo molde justapôs o arregaço do parto duplo ao botar reparo nas crias. Cara de joelho? Cabeça pontuda, rosto amassado, vernix gordurento? Nada disso. Na falta de berço as duas esfregaram ao mundo uma beleza jamais dantes navegada. Ao perceber a dessemelhança com sua gasta imagem, a genitora alegou para a vizinhança descreditada que a natureza cavou esse esplendor em um provável parentesco distante – da parte dela. Milagre: também, nem de costas, nem no escuro, as Dollys puxaram um fio da feiúra genética paterna. E a cada ano as meninas deslumbravam em dobro os grandes olhos azuis, a pele clara, radiante, suave. Cabelos de um brilho mel que nenhuma abelha dali fabricava. Rostos congêneres, simétricos, maçãs definidas, beicinhos polpudos, queixos delicados. Pequenas já se mostravam altas, esbeltas. A cara cuspida e escarrada do Dolly Gringo que em um quarto de hora de uma tarde de verão preencheu o tédio e o útero da Dolly Mãe. O que a fez suspirar um certo alívio quando o suposto Dolly Pai, um cabra-burro-meio-broxa-macho-pacas-bêbado-de-sono escapuliu em uma madrugada, no primeiro mês das meninas para comprar cigarros, ops, fraldas, e nunca mais voltou.

2.

Dolly Mãe vestia, calçava e penteava as meninas iguais, do tipo ferrou. Fabricava ela mesma modelitos idênticos na máquina de costura, alinhavando um plano infalível de como lucrar com tamanha beleza das cloninhas. Na necessidade de ecos divergentes diante de tamanha parecença, as gêmeas foram maldosamente rotuladas em uma criatividade digna de novela. Dolly Uma era a docinha, a risonha. Dolly Duas a azedinha, a ansiosa. A primeira dava gosto, exibida na ânsia incontida do aplauso e ambiciona caviar e lagosta. Para a segunda qualquer merda servia, nada importava. Sem plateia, se contentava com um prato raso de polenta. Etiquetas diferentes em produtos iguais: a gloriosa e a cagada. Mas o peso da mórbida semelhança não desentrelaçou a sombra da conexão univitelina. Embora tivessem, sim, personalidades distintas, Dolly Uma e Dolly Duas compartilhavam a má essência em comum.

3.

2007. Na intenção das pimpolhas darem o primeiro passo para o sucesso, Dolly Mãe preencheu ficha em várias agências caça-níquel-talentos. Mas a tentativa de estrelarem uma dupla sertaneja mirim não passou de uma música de trabalho porcamente gravada, jamais ouvida, sem retorno algum. Minhas lindas cantam tão mal assim? a matriarca se questionava. Nas investidas em driblar os recrutadores, Dolly Mãe se fazia valer de um truque sujo: apresentava a duplicata infantil com nomes artísticos variados, Beyoncé&Rihanna, Ivete&Sangalo, Britney&Spears, Angelina&Jolie, Jennifer&Anniston, Marjorie&Estiano. Encrenca! anteviam os produtores experientes em perrengues acarretados por direitos autorais. Melhor não! Dolly Mãe não se fez de rogada. Suou bicas por horas dentro de um ônibus, mas foi, de herdeiras e lanche a tiracolo, bater na porta de uma sucursal de um grande canal de televisão.

4.

Os olhos do produtor de elenco não acreditavam no que viam. Dolly Uma, a ambição em pessoinha, de astúcia nata e ímpar petulância, brocou no teste. Dolly Duas reprovou sem direito a segunda chance. Não soube sorrir, tampouco gargalhar, algo inadmissível, embora fosse ela a verdadeira atriz: chorava de mentira lágrimas de verdade, enganava bem. Interpretava quem não era e seus parcos expectadores acreditavam nisso. A emissora de TV propôs contrato fixo apenas à primeira. A segunda, tão bela quanto, serviria, um pouco enfeiada, como figurante. Dolly Uma não tardou impressionar: mandou bem no papel da menina linda e assustadora, o que lhe rendeu um trabalho atrás do outro. No estardalhaço de si mesma, ganhou fã clube, fascinou a audiência atuando como a zumbi, a psicopata mirim, a palhaça assassina, assim por diante. E se as escondidas Dolly Uma chorava de cansaço para não demonstrar o lado vulnerável, à frente de todos Dolly Duas simulava a lástima, e a vida seguia fácil no fato dela saber que era tudo falso – e remunerado.

5.

No início de 2017, Dolly Mãe faleceu em um acidente de carro até hoje mal explicado. É a vida, acontece. Com a juventude hipotecada pelo preço da fama, nem Dolly Uma nem Dolly Duas se casaram. Nem namoraram, nem beijaram, nada vezes nada. Apenas se endividaram na compra de uma mansão cafonamente decorada. Sofás, poltronas, mesa de jantar com uma dúzia de cadeiras, cortinas, tudo branco, branco, bege ou dourado, com um toque aqui e outro acolá de algo que os ricos e famosos chamam de fendi, um meio do caminho entre a cor de burro quando foge e o verde fralda. E ao transpassar a porta pivotante, qualquer visita se desestruturava com o retrato em tons de sépia de uma delas. Apenas uma, na cintilância natural, seminua, de corpo inteiro, descalça, cabelos molhados, a encarar a lente de um fotógrafo famoso cuja envergadura do cachê fez jus ao andaime utilizado para que a ampliação gigantesca preenchesse o pé direito altíssimo.

6.

2020. Com vinte e três anos, Dolly Uma teve o contrato encerrado. Além do fator pandemia, alegaram que o fato dela crescer chocava o público que preferia manter a imagem da criança prodígio na memória. Nas entrelinhas subliminares da rescisão, constava o pormenor de ela ser uma grossa do caralho. A antipatia coletiva diante de tamanhas exigências e igual malcriação agravou as intrigas dos bastidores até passar do ponto insustentável. E embora entrasse muda e saísse apunhalada, Dolly Duas também perdeu o posto de coadjuvante de luxo. Desiludida e desesperada diante da dificuldade em domar os pitis da irmã e em busca do descanso perdido, Dolly Duas, em uma devoção dopamínica à gêmea, fez contatinho com um deliquente drug dealer da dark deep web. Ciente do dilema da dependência associada, oferecia sem dó à irmã o copinho cheio de balinhas coloridas em um café de manhã digno de quem está a prestes a virar estrela: anfetamina, modafinil, adrafinil, fenilpropanolamina, sibutramina e outros bichos feios. Dolly Uma engolia, agradecida pela graça, atenção e concentração alcançadas, o que em um futuro não muito distante acarretou um tilt em seu sistema seu nervoso central.

7.

Confinada e desempregada, Dolly Uma passou a protagonizar lives estranhas na redes sociais. Declamava receitas médicas alternadas com receitas de bolo, contava a história dela mesma em depoimentos nonsenses, insólitos monólogos, vá lá, artísticos. Passando por cima de toda bizarrice geral da criação de conteúdo, a maioria dos comentários criticava o conteúdo da criatura, aquela aparência já um tequito diferente da que se acostumaram a ver, o que levou a especulações sobre alguma modificação facial ou preenchimentos. Mas se o planeta enfrentava uma pandemia, quem faria isso? Devido a autocrítica exagerada, Dolly Uma jamais estava satisfeita. E era Dolly Duas, que abastecida pelo determinado e desconhecido contatinho desviava para o além a semelhança entre as duas, injetando ela mesma na própria gêmea já não tão mais idêntica a toxina botulínica, os fillers e ácidos diversos, entre eles o hialurônico, o polilático, o acético, o ofídico e o sarcástico. A intensão de realçar a aparência falhou feio. O rosto ganhou solavancos artificiais e uma expressão derretida, inchando a pele e quase toda a lista de inseguranças de Dolly Uma. Quase, porque os peitos, ah, estes sim! Um verdadeiro AC DC, onde o C representa as centenas de mililitros de silicone industrial injetados irresponsáveis por transformá-los em duas boias de pneu de caminhão, de causar inveja até na Dolly Parton. Dolly Duas seguia rápida, ágil e despeitada. No entanto, viciou-se açúcar branco refinado, corante caramelo, glutamato monossódico, baconzitos, salsicha de lata, miojo, fanta morango e bisnaguinha. Perdeu o controle do peso corporal, ganhou hipertensão, colesterol LDL e níveis de triglicérides que arranhavam o céu. Ia à padaria em busca de um sonho não conseguia sair sem lamber a vitrine dos doces. Queria um de cada, queria todos. Deitava-se com uma bomba de creme enfiada inteira na guela, dormia de boca cheia, acordava com a cara boiando na fronha babada com o puro creme da gordura trans. Rainha das cáries dentárias, ligou o foda-se para a saúde e o coração.

8.

Mas foi em uma tarde qualquer já no pós pandemia que Dolly Uma se empolgou em um strip-tease online, alive, vivíssima. Tirou a blusa, pediram mais. Pagando bem, que mal tem? argumentou. O preço que for, mas eu fico com a peça, replicou o internauta. Pago o dobro, treplicou outro. Veio mais um lance. Outro. E outro. Neste dia, Dolly Uma comercializou até o trim com que aparou a unha do dedinho do seu pé. Além da unha cortada, e das suas outras dezenove unhas, claro. Na sequência as irmãs negociaram objetos pessoais, mas apegadas às próprias peças optaram por iniciarem um leilão virtual aberto vinte e quatro horas. Nascia ali o sucesso apêndice das duas, o arrebatador Dolly Uma, Dolly Duas, Dolly Três, Vendido! Foi mais fácil do que engenhoso. Malucos dispostos a gastar dinheiro com as porcarias que outros doidos tinham necessidade em desovar. O catálogo oferecido variava, como um menu do dia, incluídos objetos invulgares, raros e excepcionais, desses que não se encontram numa loja comum. As avaliações independiam da qualidade e o valor de reserva vinha do devaneio que passava pela cabeça oca da irmã que operava o pregão, onde o ser esdrúxulo acompanhava a corrida diretamente proporcional ao disputado. De relógios falsificados a obras de arte de gosto duvidoso, de de garrafas de uísque pela metade a estatuetas de santos sem nariz, um rubi bruto de plástico, a gravação às avessas do Ilariê da Xuxa invocando o demo, caixas vazias, agulha enferrujada, sino sem badalo, o capuz que cobriu a cabeça de um enforcado, lâmpadas queimadas, uma garrafa de uísque pela metade, várias versões do quadro do palhaço chorando, um bilhete de um show do Kiss em Bankok datado de 14 de março de 1992, uma lata de veneno de ratos preenchida com epóxi.

E um dia, melhor uma noite, no limbo entre a troca de turnos, exatamente na hora dos corvos, um lance inenarrável foi feito, a solicitar a reprodução fotográfica da parede, o pano de fundo, o cenário perfeito do leilão.

Eu não vendo a minha imagem por dinheiro nenhum, desculpou-se Dolly Uma. Minha imagem, esbravejou Dolly Duas. Aquela era eu. Não. Era eu. Sempre fui eu. A foto é minha. Tua? O caralho. Olha tua cara. Olha a tua. Aquela não é você. Nem você. Besta. Burra. Invejosa. Parasita. Mendiga emocional. Sanguessuga. Hipócrita. Mal maquiada. Fútil. Egoísta. Cínica. Suja. Assassina.

Quê?

Assassina. Matou mamãe. Matei nada. Você matou. Não sou da tua laia. Vaca. Cadela. Porca. Piranha. Assassina.  

Vou te mostrar quem é a assassina.

Veio a trovejada, e acabou a luz. Logo caiu a internet. A vida, no caso a morte, ao vivo foi substituída por um breve momento de escuridão. Um mistério. Um evento sinistro.

9.

A mansão foi arrombada por forças policiais, bombeiros, investigadores forenses e uma extensa cobertura televisa que escarafunchou miúdos, miolos e mesquinharias da cena de um crime coberto de enigmas. A imagem perturbadora era pior que traumática: sangue lavando o chão, paredes, teto, mobiliário, a mansão cândida tingida de groselha. Tecidos humanos, fluidos corporais, secreções gástricas, nacos de tendões, mucosas, do lustre de cristal ainda pingava ranço, bílis, memórias ácidas, má-fé. Dos perigosos riscos biológicos presentes passando pelo vômito dos profissionais de limpeza de estômago fraco, desinfeccionar o local deu um certo trabalho. Demorou um século, mas ficou um brinco. Posta a venda, foi arrematada a preço de banana por um coach ateu que não acredita em karma.

10.

Catarina Ramos, a jovem funcionária da agência de viagens Dream Wanderer Travel, não conteve o susto atender a cliente que, em pleno verão, portava capa de chuva, gorro, óculos escuros, máscara cirúrgica e luvas. Também não segurou a gargalhada ao perceber a possibilidade de, ainda no início de 2023, ela já bater a meta anual de vendas. A voz disfarçada da mulher, a atuação forçada a deixaram na dúvida se estava diante de uma pegadinha, ou de um belo golpe. Chamou o gerente. Este, malandro escolado nos clientes aos quais não se deve fazer perguntas, apenas se deu ao trabalho de contar, verificar e aprovar uma a uma as milhares de verdinhas apertadas na maleta empoeirada empurrada e aberta sem pudores em cima da sua mesa. Sim, ele também viu estrelas e o seu bônus mais que garantido. Acabava de vender uma volta ao mundo sem volta, o paraíso eterno a bordo de um transatlântico all inclusive, a mordomia de uma penthouse sem limites para sonhar. Tem muita bagagem? Posso eu mesmo me encarregar de levar ao porto. Ah, apenas uma mala grande? Claro, claro, o restante a senhora compra lá. E emitiu a passagem em nome de SILVA, DOLLY. O embarque seria dali a algumas horas. Tudo de bom, Sra Silva. Volte sempre!

11.

O corpo da outra irmã jamais foi encontrado.

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