por Américo Paim
Inácio e Silmara. Gêmeos, diferença de poucos minutos. Os mesmos cabelos lisos, a pele branca, mas nem tanto. Mãos de dedos curtos, sorriso de assimetria discreta, andar copiado, gestos econômicos e uma simpatia educada. Neles era tudo igual, exceto os olhos, grandes. Assustavam se não os conhecessem. Escuros como noite sem esperança. Os dela jabuticabas, tão doces quanto. Os dele bolas de boliche, duros e frios, prontos para bater. Nem mesmo seus pais tinham tal percepção. Talvez uma forma peculiar de Inácio coçar a sobrancelha e só. Eles sim, se sabiam. Eram quase idênticos. Quase. Silmara e Inácio.
A corrida prometia ser um evento divertido. Muitos alunos cercando todo o perímetro. Os oito corredores, os melhores das salas, todos com dez, onze anos, partiram. Apenas uma volta no pequeno campinho de terra batida. Um terço percorrido e uma bola de futebol surge no caminho. Surpresa bastante para três caírem e perderem a prova, que não foi interrompida. O burburinho foi grande. Não identificaram quem proporcionou aquilo. Ela olhou curiosa para a confusão. Mesmo longe, percebeu o olhar cínico dele, sorrindo por trás daquele falso gesto de perplexidade. Ela sabia que foi ele, que por sua vez a avistou sabendo que ela entendeu tudo. Isso não os incomodava. Para ela, foi o primeiro sinal de que estava se acostumando.
Quando se percebeu assim, o incômodo em Silmara durou pouco, mesmo sem se sentir resolvida a respeito. Atravessaram a infância e outros eventos como aquele se repetiram. Sua percepção não mudou e o sentimento cúmplice e passivo à parte, ela até se divertiu nos momentos difíceis, estranhos, constrangedores que vieram. Nunca interferiu em nada e ele jamais pediu isso. Ela sabia que ele não o faria. Era senhor do que acontecia. O tempo apurou nele sutileza e sedução nas doses certas. Ninguém lhe resistia, premeditava tudo para seu prazer, despreocupado. Sabia que não era lido ou compreendido nos seus vários núcleos: escola, casa, bairro, amigos e outros menos frequentes. Apenas ela. Seus olhos negros se percebiam e até ali se bastavam.
Deram um passo além. Foi perto da formatura na faculdade em que estudavam Direito e eram alunos de destaque e peculiares, cercados de admiradores. Silmara espalhava simpatia, colaboradora, ajudante. Inácio liderava, determinava diretrizes para seus vários seguidores, sem que sequer compreendessem o porquê do que faziam. A ruína de Joaquim, por exemplo, foi questionar o sedutor diante de uma plateia reduzida, mas influente, em uma festa à toa, no início do semestre. Não o fez por ter percebido o perigo naqueles olhos. Talvez só estivesse bêbado. E era explícito que gostava de Silmara, mesmo sem evidências de ser correspondido. Fez só para chamar-lhe a atenção? Era um ótimo aluno, fato. Os membros do Conselho Acadêmico mal acreditaram, só que não conseguiram mudar o destino de Joaquim, em desgraça total após a descoberta das provas finais de Ética do Profissional Jurídico e Prática Jurídica Trabalhista dentro da sua mochila, com suas digitais, na véspera dos exames. Em meio ao reboliço decorrente e aos seguidos dias de investigação, Silmara se espantou como sequer abordaram Inácio. Para ela estava tão claro que os olhos dele se divertiam. Ele o fez e ela só não sabia como. Ele sabia disso. Estava cada vez mais sofisticado. Isso agora a atraía. Para ela, foi o primeiro sinal de que estava se movendo.
As coisas aconteceriam assim. Na compra do carro novo, por exemplo, ele teve a ideia, e foi ela quem forjou documentação para que ele tivesse desconto como PCD. Na sequência, quando já trabalhavam, em ótimos e diferentes escritórios de advocacia, fizeram longa viagem de férias aos Estados Unidos, tudo pago por um fazendeiro. Inácio descobriu seu envolvimento em transações ilegais para compra de terras. Ela conduziu as conversas e o acordo das somas envolvidas para o silêncio. Da mesma maneira, a compra do apartamento de Inácio foi através de significativa contribuição financeira de uma mulher casada, seduzida por ele. A filmagem de uma relação deles em um apartamento alugado foi feita por ela. Seguiam se compreendendo pelo olhar. Ela seguia se envolvendo, mesmo que ele não falasse nada.
Conhecer Bernardo fez muito bem a Silmara. Homem bonito, inteligente, parecia boa pessoa. Ela via isso com facilidade. Logo estavam envolvidos. Foi no seu segundo ano no escritório. Como ele era um dos sócios, só assumiram aquilo depois de meses. Ele estava à vontade. Ela foi corajosa. Colegas lhe disseram que não era a primeira. Ela ignorou. Lia nos olhos dele que era verdadeiro. Compartilhou a notícia com Inácio, que a convidou a comemorarem. Ela não estranhou.
Foi em um endereço que ela não conhecia. Casa grande e bonita, local esnobe. Ele estava cada vez mais assim. Um condomínio de propriedades com terrenos imensos, que deixavam a vizinhança muito distante. Chegou de táxi, como ele recomendou. Observou os veículos caros estacionados. Subiu a rampa de pedras lindas, ladeada por gramado impecável. Foi recebida por um homem à moda de antigos mordomos. Entrou e veio a lufada de ar refrigerado. Decoração fina, aromas delicados, prataria e louças diferenciadas. Comida e bebida sobrando em quantidade e opções. Tudo muito confortável. Estava cheio com pessoas no mínimo interessantes. Circulou. Avaliando o que se passava ali, reparou em uma conversa conduzida por uma mulher elegante, que parecia intermediar uma aproximação entre dois homens jovens. Não demorou e eles saíram dali de mãos dadas, em direção a uma daquelas escadas saídas de produções da antiga Hollywood. Curiosa, viu a cena se repetir por várias vezes, com todas as combinações possíveis entre homens e mulheres. Após vários drinques, Inácio chegou.
Foi recebido com festa. Estava claro ser habitué do local. Se falaram por olhares enquanto ele cumprimentava pessoas. Quando foi a ela, levou a tal mulher elegante junto. Apresentações feitas, ele se afastou. Era a dona do local. A conversa da mulher prendeu a atenção de Silmara até ela observar Inácio desaparecendo no topo da escada com outro homem. Um pouco surpresa, mas bem animada com os tantos drinques, viu o fluxo de pessoas aumentando em direção à escada. Uma hora depois, Inácio desceu e a procurou. Lhe confirmou sua nova experiência: garoto de programa. Embora não concebesse como aquilo era possível, ela não escondia a atração. Entendia a sua pluralidade sexual dele, não era algo novo, apenas a forma. Mas era muito ele. A satisfação escrita naqueles olhos grandes e perigosos. Juntos, batizaram o lugar de casa dos encontros. Ela já sabia o que deveria fazer. Isso agora a empurrava. Para ela, foi o primeiro sinal de que estava se permitindo.
Ficaram por muito tempo sem se ver. Foi a primeira vez. Seus escritórios disputavam o cliente de uma causa milionária e ela decidiu se afastar dele. Era prudente. Seria arriscado estar com ele, que era capaz de qualquer coisa. Ela não podia dar espaço. Evitou até a casa dos encontros, o quanto foi possível, embora já estivesse perdida, viciada. Ele estava meio sumido do local. Porém, por esses alinhamentos astrais, ela cria, no dia em que ela lá voltou, ele estava lá. O mesmo carisma. Estava diferente, porém. Usava óculos escuros espelhados, como um popstar de Cinema ou coisa assim. Estiveram frente a frente e não conversaram muito. Ela foi logo requisitada por um jovem atraente, com cara de executivo. Ela não o conhecia, mas isso não fazia a menor diferença. O tesão e o mistério falaram mais alto e subiram as escadas, antecipando as melhores coisas. Ainda olhou para baixo a tempo de ver Inácio sentado no sofá, distribuindo sorrisos.
Estava tudo ótimo no quarto, até aquele barulho inesperado. Pareceu a cama rangendo. Não era. A porta do quarto se abriu. Ela virou-se rápida. Ele estava ali de pé, em choque. A cena justificava diversos questionamentos e era desagradável o suficiente para ele, mas Bernardo só perguntou a ela por quê. E por que com o filho do cliente da causa milionária em disputa. Enquanto o jovem se vestia para sair, passou ao acaso o dedo indicador da mão esquerda sobre a sobrancelha. Sim, foi ele, claro. Ela ficou ali muda, olhando o vazio, incrédula sobre como não enxergou.
A caminho de casa, ela entendeu. Os óculos escuros de Inácio. Sutil, esperto. Não a deixou ler nada. Ela não se perdoou por não perceber que algo estava errado. Ele nunca usaria óculos daquela marca tão barata.
