O cavalo-marinho – Yan

Cobre o amor na mortalha
Pra ele não acordar
Kiko Dinucci

Nu, de frente ao espelho, Quirone vê seu reflexo. Queixo erguido, vê seu queixo erguido, a barba fechada, suas olheiras mais escuras que sua pele escura, esmaecida pela falta de sol. Queixo descido, vê seu pau mole e encolhido, as pontas ossudas da bacia, os pentelhos feito Bombril preto e o saco teso do fim dos vinte no começo de murchez do começo dos trinta. Queixo a meio prumo, vê sua enorme barriga de grávido. Põe a mão direita sobre a barriga, sente algo tocá-lo do outro lado, recolhe a mão direita e segura o vazio. Na mão esquerda segura um bisturi.

Sete meses antes, Quirone sentiu o primeiro enjôo. Estava em um velório. Sala escura, quase vazia de pessoas, mesa de aroeira descascada no centro. Sala cheia de velas, noite, caixão sobre a mesa. Uma mulher de véu preto sobre a cabeça, encolhida e tremida como um passarinho de bico quebrado, chorava. Outras mulheres de véus pretos sobre a cabeça piavam: 


No céu, no céu,
com minha mãe estarei”. 

Quirone, negro, trinta anos, magro, estava sentado distante da mesa e evadia o olhar do caixão. A cantoria das mulhere-aves-carpideiras o desorientava. Dona Felinta, sua mãe, percebeu o filho se curvar e tapar a boca com a mão. Pensou que o filho tentava conter um grito, um choro, um soluço ao menos. Não pensou que fosse um vômito. Mas um menino entrou correndo na sala, atravessando a ânsia e a elegia.

“Quirone, vô mandou chamar”, o menino disse. “Estrela tá morrendo”.

A mulher que chorava como passarinho chorou mais alto. Quirone olhou para a mulher, se levantou, o vômito voltou para dentro. Ele olhou para o caixão, tornou a tapar a boca com a mão e saiu da sala.

Pulou da moto, que ficou caída no barro, deixou o portão aberto e algumas cabras fugiram soltando més meio eufóricos, meio apáticos. Correu, sacudindo no ombro uma bolsa preta com a estampa de um boi entre dois homens a cavalo, um dos homens inclinado para fora da montaria e puxando o rabo do boi; sob a figura, as palavras “VaquejadA – made in mato”. Um velho de chapéu de couro marrom de coquinho na cabeça desceu o chapéu ao peito e revelou um couro marrom de careca e alguns cabelos brancos quando o viu chegar. Apertava o passo e arfava o peito na corrida até o estábulo.

“Obrigado, meu amigo”, o velho disse. “Sei que a hora é ruim, mas teve jeito não.A bichinha tá no desmantelo”.

“Na hora, seu Tássio”, Quirone disse.

Estábulo escuro, noite. Quirone, coberto de sangue e suor, tinha um braço enfiado numa égua apalusa. A égua relinchava de dor. Seu Tássio observava a cena, apreensivo.

“Bora, Estrela, aguenta só mais um pouquinho”, Quirone disse e deu uma injeção na anca da égua. “Força, garota”.

A égua relinchava menos e arfava mais, exausta. Quirone  remexeu a bolsa preta aberta no chão, sacou um bisturi e abriu a barriga da égua. Fez força e puxou o corpo de um potrinho de pelagem com manchas marrons e brancas. O velho se agachou para ajudar Quirone a amparar o potro.

“Olha só, seu Tássio”, Quirone disse enquanto suturava a barriga da égua. “Dizem que cavalo pampa dá sorte, né não?”.

Seu Tássio levou a mão à testa, da testa ao peito, do peito ao ombro direito, do ombro direito ao ombro esquerdo e do ombro esquerdo à boca. E apertou seus olhos castanhos na direção dos olhos castanhos da égua.

“Obrigado, meu São Jorge”, seu Tássio disse.

Quirone, ofegante, enxugou o suor do rosto e acarinhou a anca da égua com a mão ensanguentada.

“Tu conseguiu, mãezinha”.

Ao ver a égua lamber seu filhote, Quirone vomitou no chão do estábulo. Seu vômito se misturou a bosta pisada, sangue e placenta.

Um mês depois daquela noite, já fazia um mês que vomitava todas as noites e quase todos os dias. Dona Felinta aparecia em sua casa com tudo quanto era erva pra enjôo, de boldo a malva-do-reino. E também com sopas, mingaus e xaropes.

“Meu filho, onde já se viu um médico que não quer ir no médico?”, Dona Felinta disse e abriu mais uma sacola com comida e erva e abriu a torneira e esquentou mais água e fez mais chá.

Quirone tomava sempre e sempre vomitava logo depois. Gostava de sopa, de mingau e de chá, mas não podia mais nem com o cheiro dessas coisas. Sempre teve muita fome e sempre comeu de tudo, menos buchada de bode, pois nunca suportou o cheiro . Seguiu com muita fome, mas passou a engulhar com coisas que comeu a vida toda. Manteiga de garrafa, manga verde com sal, carne de sol, tripa frita, panelada – todas elas lhe chamavam o vômito.

“Eu sou médico de bicho, mãe”, Quirone disse.

“Pois pronto”, respondeu dona Felinta, ‘se a gente é bicho também”.

Dona Felinta olhou para a mesinha da sala, onde havia um porta-retrato com a foto de Quirone e uma mulher, ele de sunga e ela de biquini, os dois sorridentes na frente de um mar verde. Tirou os olhos da foto e os pôs em Quirone, que não sorria fazia mais de mês.

“Não quer ir no médico, não quer ir na igreja falar com padre Pedro”, dona Felinta disse despejou o chá numa xícara. “Ei, por que a gente não vai pra Aracati ver o mar? Tu gosta tanto…”.

“Quem gostava era Carola”.

“Pelo amor de Deus, meu filho”, dona Felinta disse. “Pelo amor de teu pai, que não perdeu a vida pra você acabar assim com a sua. E pelo amor de Carola, que nunca que ia querer te ver amufinhando”.

Quirone afasta o chá com uma mão e tampa o nariz com a outra. Dona Felinta esvazia um pote com sopa na panela. 

“Viu, eu vou aceitar aquela proposta de ir pro sul. Devo ir no mês que vem já”, Quirone disse sem olhar para a mãe.

Dona Felinta soltou a panela com força na grade do fogão.

“Uma peste que vai, Quirone Malagão! Tu respeita teu sobrenome. Teu pai morreu por causa de fazendeiro rico aqui pra tu trabalhar pra fazendeiro rico lá?”, Dona Felinta gritou. “E a associação, e essa gente toda que gosta, que precisa de tu?”.

“Lá é estancieiro que chama, mãe”.

Quirone olhou a sopa na panela e correu para o banheiro, para olhar o fundo da privada. A água na porcelana branca se turvou de marrom e verde. Depois de muito insistir, convenceu a mãe a ir embora. Antes, porém, precisou prometer ir ao médico. Antes de ir, segurando a sacola com os potes vazios, dona Felinta estancou na porta.

“Eu sou que tu tá triste, meu amor. Mas eu te prometo que vai passar. Pra tudo nessa vida se dá jeito”.

“A senhora sabe muito bem que não tem mais jeito nenhum”, Quirone respondeu.

Ela escorreu murcha, murcha pelo portão e estancou novamente na calçada ao ouvir seu filho chamar.

“Volta aqui amanhã?”.

“Mas é claro que eu volto”.

“Então me traz uma buchada, por favor”, Quirone disse.

Nos meses seguintes, as coisas se tornaram confusas para dona Felinta. Como se não bastasse a confusão do filho, que sempre odiou buchada, passar a só querer o prato. E não podia ser uma buchada boa, daquelas feitas bem feitas, sem cheiro. Ele fazia questão de uma bem fedida, com cheiro das fezes do bicho, a catinga saindo quando desembrulhava o bucho. Se não, ele fazia cara feia, embrulhava o estômago e corria para a privada. Também embaralhou muito a sua própria consciência ver Quirone, filho de quem era, aceitar um emprego que ia contra tudo que sempre acreditou. Seu marido, que teria sido um excelente pai, foi morto a mando de um fazendeiro quando Quirone ainda estava na barriga. Teria sido um excelente pai, assim como foi um excelente líder comunitário, lutando pelos pequenos agricultores e vaqueiros tradicionais. Seu filho não teve pai, mas teve, porque não havia ninguém no Cariri que não lhe falasse do homem com admiração e respeito.

Trinta anos sem o marido, um mês ou dois com o filho depressivo, vomitando, enlutado. E num pisco de olho Quirone, mais magro que tudo, com o bucho meio inchado de quem tem verme, se despediu dela no saguão do aeroporto de Juazeiro do Norte. Foi pra algum canto do sul, tratar dos puro-sangue de um fazendeiro rico que vendia cavalos para haras da Argentina e de São Paulo. Mandava algumas fotos e mensagens no começo, dizia que estava bem, que não estranhava o frio e a chuva, que só sentia falta da buchada. Até que um dia parou de responder. E dona Felinta sentiu a cabeça cheia de confusão e o peito vazio, tão vazio quanto seu ventre.

O frio caiu como uma luva para Quirone. Passava o tempo todo com um casacão enorme de pelo de ovelha, que disfarçava a barriga. Os novos patrões e os peões do novo emprego não percebiam, mas ele não tinha como não perceber. A angústia do bucho crescente, do tudo vazando de sua barriga com o vômito e da aberração que ele era fediam mais que qualquer buchada. Se estivesse no Cariri, teria muita gente para consultar, pois conhecia todos os terreiros de Umbanda e Jurema da região. Mas jamais faria isso, pois era conhecido em todos os terreiros da região. No oeste gaúcho, porém, era só conhecido como o preto nortista de sotaque esquisito e cabeça chata, e só na zona rural. Apostando nesse anonimato, foi a um terreiro de Batuque na cidade. A mãe de santo, com nariz largo, pele muito escura e cabelo muito escorrido, abriu o jogo de búzios.

“Pelo tu me contou, pensei que era encosto, que tinham feito feitiço pra ti”, a mãe de santo disse. “Mas parece que tu que é o encosto de alguém. E essa barriga aí não tá carregando uma vida, mas uma morte”.

Quirone não tinha contado à mãe de santo sobre a barriga e desconfiou que o casaco já não disfarçava bem. Pagou o jogo e foi embora sem falar nada. Assim como quase nada falou ao patrão quando começou a faltar quase todos os dias. A barriga o dificultava andar e abaixar para tratar os animais. Passou a ficar sempre trancado no quitinete onde morava, comendo quase nunca, vomitando sempre, dormindo muito pouco. Uma única noite, porém, dormiu muito.

Sonhou: ele e Carola estavam de mãos dadas numa praia em Aracati, fazendo amor na areia. Uma onda forte caiu sobre os dois e os transportou para o restaurante, onde Carola comia uma buchada com gosto e Quirone tapava o nariz com nojo. Carola abriu o bucho do bode com a faca e de dentro dele não saiu arroz e miúdos, mas um mar de sangue. Os olhos de Quirone ficaram vermelhos, ele fechou as pálpebras e quando abriu Carola mostrava o teste de gravidez num quarto de hotel. Ele pegou o palito do teste de gravidez  e o enfiou no ventre de Carola. Ela, com o palito cravado no ventre, sorriu para ele, disse “eu te amo”, pegou o lençol da cama, jogou sobre a viga do teto e se enforcou.

Quirone acordou assustado, tanto pelo sonho quanto pelas cólicas insuportáveis de algo rasgando sua barriga. Correu para o banheiro, tentou cagar, entendeu que não seria essa a saída. Ao sair da privada, lembrou da saudade da buchada, que só não era maior que a saudade de Carola. Que só não era maior que a angústia de viver sem Carola. Que só não era maior que a culpa, pois Carola, depois de fazer um aborto forçado por Quirone aos três meses de gravidez, se matou. A culpa era maior que os pampas gaúchos, que o sertão do Cariri, que a luta pela reforma agrária e pelo pequeno agricultor, que a obrigação de ser um homem tão bom quanto seu pai que morreu antes de ser seu pai. E a culpa era maior que sua barriga.

Nu, de frente ao espelho, Quirone vê seu reflexo. Vê seu pau murcho, seu rosto ossudo, sua enorme barriga de grávido. E vê sua culpa. Põe a mão direita sobre a barriga, sente algo tocá-lo do outro lado, recolhe a mão direita e segura o vazio. Na mão esquerda segura um bisturi. Encosta a lâmina na barriga e abre caminho para seu rebento.

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