Glaucia Faria
Desembacei o espelho com um pedaço de papel higiênico. Concentrei-me na respiração. Vi o reflexo nú, quase vegetativo da minha metade superior. Há tempos me afogava em uma tristeza inexplicável. Desinteressada de tudo, ao mesmo tempo ansiosa, qualquer conversa me esgotava.
Dentre as poucas boas qualidades que possuo, camuflar dores talvez seja a maior delas. No fundo, ninguém sabe o que sinto. Nem eu. Um retiro me pareceu a única opção válida antes da loucura.
Aluguei uma cabana em uma aldeia longe de qualquer destino. Um local cercado de nada por todos os lados. No início, o pequeno banheiro se prestou ao uso do vaso sanitário. Com a luz apagada, eu sentava, fazia o que tinha que fazer e saía. Não me lavava, não escovava os dentes. Seis dias depois, enfrentei o banho. Depois, o sair do banho. Vesti-me devagar, no ritmo possível entre a flexibilidade e a rigidez: a calcinha, a legging, a manga longa, as meias de lã. Por cima, outra calça, uma malha e o casaco de plumas de ganso. Uma composição de Chopin preencheu o vazio mofado entre as paredes de madeira: aquela valsa da trilha sonora da adaptação para o cinema de O Amante. Lembrei-me das palavras finais do livro. Doeu.
Junto com a voz, a internet, as redes sociais, o streaming, assinalei com um X as músicas descarregadas no telefone na minha caderneta de abandonos. Sem concentração para leitura, agora era eu e eu, ou pouco que sobreviveu de quem fui. Uma cabeça pesada, costas marteladas, o estômago privado de alimento há dias. Seria isso, a solidão? Talvez me restasse um pouco de alma, daquelas que só importam aos demônios.
Não chorei quando minha mãe morreu. Depois do divórcio com Paulo, eu me assumi lésbica. Minha mãe nunca mais falou comigo. Não tive amor suficiente para ampará-la na doença. Ela se foi no ano em que Carlota aterrissou em tamanho família na minha vida. Carlota se foi. Os filhos dela, Eduardo e Madalena também. Com eles experienciei algo parecido com o que deve ser a maternidade. Concebi que, por não ter sido boa filha, jamais teria sido boa mãe. Mas permiti que as crianças levassem o Caxias, o gato que sempre foi meu, que elas amavam como se fosse delas. Talvez por isso não ficasse incomodada com o fato de, todas as manhãs, o Piano raspar minha porta.
No meu primeiro dia aqui, ao ajeitar as coisas, ele entrou sem pedir licença. Farejou o novo. Saiu. Minutos depois voltou com um graveto na boca e a cauda abanando. Naquela noite a pouca lenha não aqueceu totalmente a cabana. Frio não passei: o vira-lata preto e branco, decerto de alguma moradia das redondezas, partilhou a cama e a música clássica comigo.
Eu me entendi com o funcionamento da lareira e Piano passou a ser visita, apenas. Talvez o dono o mantivesse preso, com medo dele incomodar a estrangeira. Talvez fosse o instinto animal a insistir que eu enfrentasse meus pesadelos sozinha. Sem abraço ou ombro amigo, ao pesar a cabeça no travesseiro, eu descolava da sombra e escutava a mim própria em uma entrega sem eco. Ao acordar conferia meu corpo, a ver se continuava inteira, ou se tive a sanidade extraviada enquanto dormia. Na dúvida espreitava debaixo da cama, e o fazia com medo do que pudesse encontrar.
A temperatura havia caído muito. Naquela manhã opaca, Piano já me esperava à porta para a caminhada matinal. Vesti gorro e luvas. Piano parecia intrigado. Imaginei ser a prudência canina diante de tamanho nevoeiro. O cão, que sempre andava ao meu lado, me deixou para trás. Explorava o ambiente em um estado de alerta sem hesitação, como se estivesse ao redor de um desafio. Eu seguia mole, como uma cortina esvoaçando, desfocada na lentidão. Pensei que seria assim padecer de cegueira.
Piano foi longe. Parou em um ponto distante do caminho enlameado. A latir. E ele nunca latia. Fui até ele. Mesclada na paisagem de sonho havia um monte de alguma coisa, coberto por uma manta vermelha maior que meus passos. Levantei o tecido. Vi um musgo de carne, lacerado, escuso. Um pedaço de mulher: a metade inferior, do umbigo para baixo. Nua, fria, decomposta. A morte inacabada.
Tive certeza: eu era a primeira pessoa a encontrar o corpo. Ou o que restava dele. Com a respiração descompassada e o batimento cardíaco fora da rota, eu, que jamais me interessei por anatomia, me vi enfeitiçada diante do fatiado. Não foi uma execução amadora, no esforço de uma mal amolada faca carniceira. Digno de uma serra elétrica, dessas que executam árvores centenárias, o corte exato apresentava no lugar dos anéis anuais da madeira uma pareidolia magistralmente pavorosa. O horror dos olhos, a boca estrangulada de O Grito, de Munch. O bafo da covardia física e moral sem uma gota de sangue.

Em uma valentia surda, com meus dedos protegidos pelas luvas, futuquei o corpo. O púbis bem depilado. Cicatriz da cesárea. Do toque veio uma alquimia, sem nexo ou sexo. Visualizei o tronco invisível, denso, à ira da ausência.
Porque lhe roubaram os braços que um dia foram berço, as digitais, os dentes, o diafragma, o decote, a memória? O rosto quiçá navalhado carregaria rugas, olheiras, sardas? Por que deixaram justamente os membros que permitem aproximações e suprimem distâncias? Nas unhas feitas dos pés, um esmalte misturinha, clássico.
Não ousava, ela.
Ela?
Ela quem? A que já não respirava a dor de existir?
Ela quem?
Ela, eu?
A que regressava ao remorso em passos mesquinhos?
A que rezava um rosário esgarçado a pedir inesperados perdões?
Uma imensidão de lucidez aflorou à pele. Entre o ato correto da denúncia e a falta de fibra, me vi dilacerada perante aos horrores complementares àquele meio corpo desovado. A perícia demorando horas para chegar. Os policiais de trato rude, ordenando que eu os levasse ao tal ponto da estrada. Curiosos urubuzando pormenores. Imagens clandestinas viralizando nas redes sociais. A sinfonia da indústria midiática, repetida, esmiuçada, dobrada e redobrada. Meu anonimato desaparecendo. A compressão mental perante as sinistras e insistentes perguntas. Conhecia a vítima? Não sei. Viu a outra metade? Não sei. Por que ela morreu? Não sei. Quem a matou? Não sei. Quem é você? Não sei. O que faz aqui? Não sei. O local é pacato? Não sei. Percebeu algo suspeito? Não sei. Gostaria de ser você ali, morta, no lugar dela? Não sei.
Não sei.
Não sei.
Ao detetivar o íntimo que não me pertencia, destrinchei minhas próprias cascas. Semeei questionamentos, abri concha da angústia. Concluí meu monólogo a seco, sem veredicto ou penitência. Autocompaixão? Não, apenas pressa para ir embora.
Perdida na marcha do acontecimento, limitei-me a observar Piano. Ele ia e voltava, ia e voltava. Nesse vai e vem indeciso, recobri o cadáver com a manta. Abanei a cabeça com pesar. Não havia nada que pudesse fazer por aquela meia mulher. O silêncio espessava no frio. Calei a boca. O cão desembestou a correr. Entendi o recado do pinote: continue a caminhada. Tirei as luvas, enfiei as mãos nos bolsos. A névoa havia dissipado. Desfocada de uma possível culpa, passivamente desprendida do teatro que chamamos de sina, eu segui em frente. Inteira.
