DENTROFORA

O diário de Cintia está de saco cheio. Há cerca de dois meses, ela usa a maioria de suas páginas para desenhar esboços e realizar pequenos estudos de cores. O que mais irrita o diário é quando ela começa a dar tração na escrita de si, utilizando-o como a ferramenta de catalogação e autoconhecimento que acredita ser a sua missão na terra, mas, sem a menor cerimônia, corta a frase ao meio com a precisão do seppuku, emendando nela alguma trívia sobre a sua obsessão do momento: aranhas. 

Elas surgem em todos os tamanhos e formatos, peludas ou lisas, com nomes científicos estrambólicos, engraçados ou solenes. Yanomamius raonii, Yanomamius franciscoi e Yanomamius neblina entre teias e páginas. Unem-se a elas a aranha venenosa que os Sanumá depositam no pescoço do falecido para que o morda e provoque a morte do seu algoz; o deus aranha Anansi de Gana, que tece caminho e ponto de chegada; a mulher-teia-aranha dos Navajo; a aranha dos Enawenê, que inspeciona o corpo das mulheres em busca de tatuagens durante suas viagens cósmicas através da morte; e aranha-metáfora do xamanismo urbano, tecedeira do Kaos e orquestrador de grande trama cibernética de sigilos que prometem purificações estapafúrdias. 

“Tu tá acumulando aí dentro o que deveria estar aqui fora, e eu sou um fora, Cintia!”, diz o diário em absoluto silêncio, na beira da cama, quase caindo, a madrugada oleosa do verão manauara fervendo dentro e fora do quarto. “Entendeu, eu sou o teu fora mais seguro, onde tu deveria estar pra saber como dançar conforme a música no inesperado fora, o de lá fora. Essas tuas presepadas, ninguém vai comprar essa merda, vai ser tarde demais até alguém perceber. As pessoas ligam, tu sabe disso, elas só não vão fazer absolutamente nada, entendeu? Absolutamente nada, na beira da cama, quase caindo, o nada quase caindo junto, a madrugada oleosa caindo dentro e fora do quarto, dentro de ti e fora de mim. Porque tu não me escreve mais pra se organizar nisso tudo, pra juntos a gente desembaraçar os fios dessa teia? Tu não me escreve mais, Cintia. Afinal de contas, onde é que tu tá, caralho?”. 

O diário de Cintia acumula raiva e cheiros: o de carvão, o do velho lápis pastel a óleo, um pouco de aquarela e tinta acrílica, além do cheiro das aranhas mortas que ela espreme no papel, a barriguinha delas espocada em tons que esmorecem todos para o mesmo marrom esbranquiçado. Seu odor já não se renova no raspar de suas bordas ao sair da bolsa ou sob a luz dos cafés. Está cada vez mais cecezento, envolvido por uma costura que prega signos do céu e da terra, como se a própria teia tecesse o mundo físico e espiritual, o masculino e o feminino, o medo e o gozo, abrindo-se em padrões e formas que, por sua vez, despedaçam o aparente dualismo num labirinto de espelhos que, se observados com atenção, revelam-se como um jogo de sete erros: iguais, mas um pouco diferentes. O diário fica tonto com isso, não tem o mecanismo da palavra para apontar, através da pobreza da linearidade da escrita, como Cintia deve proceder para manter-se viva.

“Me dá de comer, Cintia, uma coisa que eu possa engolir, digerir, regurgitar na tua boca de passarinho de volta!”, ele implora nesses dias longos que mais parecem um zumbido constante. Por vezes, ela parece pressentir esse lamento, parando um traço da teia desenhada num ponto preto de tanta tensão. Desenha a partir dele o que parece ser uma letra, e depois outra, e mais algumas, “n-a-k-a-n-o”, sim, parece muito com isso, mas em seguida ela cobre o escrito com um traço ainda mais firme, ainda mais escuro. Ela risca e risca e elimina as letras para que elas virem um braço negro, de onde escorre um sangue rígido do traço do pastel a óleo, e de dentro do sangue a mais delicada e translúcida forma de uma mulher flutua rumo ao branco do canto da página, a única zona de descanso visual da composição. 

Fora da página, um murro. Um murro na parede. Outro na própria coxa. Cíntia se olha no espelho do banheiro e berra: “Foda-se!”. Não satisfeita, vai até a janela da sala, mete a cara entre as grades e responde à afronta invisível do bairro: “Tá me ouvindo, ô, buceta? FO-DA-SE!”. O esforço lhe aperta os pulmões pela goela, a luz do banheiro a convida de volta, e na beira da pia o batom vermelho a aguarda. Ela o espalha nos lábios cheios como maçãs, eles parecem crescer ainda mais, têm algo de flor na forma que compactam em seu rosto. Ela sorri, estica a flor a ponto de quase despedaçá-las. “O mundo é um moinho mesmo, ca-ra-lho…”, conclui baixinho, dentro de um minúsculo sorriso. Admira o hematoma na coxa, o outro tom de vermelho, verde e roxo que compõe o look junto com o slip dress de cetim branco e sandália rasteirinha. Os cabelos embaraçados são a última sombra vista pela porta do apartamento pelos próximos dois dias. 

O diário não sabe bem o que acontece nesse intervalo, mas supõe o mais variado frenesi sexual pelo pouco que ouve através do trançado da bolsa onde ele repousa, não tão pacientemente, durante todo o tempo. Ele infere Cintia um pouco azul, o ar faltando nos pulmões, as luzinhas antes do clarão, o lugar onde os aneurismas se formam: é a garganta apertada por uma mão de homem do jeito que ela coordena o bailado de seu gozo. Esse é o único detalhe que Cintia realmente descreveu nele com afinco, tomando páginas e páginas, o mais próximo de um estudo de si mesma, num mundo anterior à infestação de aranhas. 

Depois daquele final de semana, Cintia passou a escrever todos os dias, por meses e meses, apenas sobre aranhas japonesas. Elas são meio mulher, meio viva, meio morta, meio demônio, meio zumbi, meio sonho molhado e meio pesadelo. Iniciou um desenho ainda mais intrincado, com o motivo central sendo uma aranha roxa sobre a teia gigantesca, tecendo uma mulher que, por sua vez, tem pernas e braços de aranha, utilizando um deles para levar à boca um homem com uma expressão de mais puro pânico, o qual, por sua vez, trazia da ponta dos dedos um inseto que se elevava até a altura da boca da aranha roxa, num jogo de arquitetura e destruição. O diário, ele chegou no seu limite. As folhas recobertas pela trama da vida e da morte tornaram-se craqueladas, as bordas como que se ejetando da fiação que une suas entranhas. Eles estão quase no fim. 

*

16 de abril

Tem alguma coisa errada: Ao meio-dia, a rua estica como elástico, justo no trecho em que ela se inclina numa ladeira nada sutil, que cansa menos do que faz suar, as nuvens me contam tudo que dança no coração dos homens e no buraco oco do coração dos homens, mobilizam o Educandos de lá de cima, onde as vielas são obra de um aracnídeo lisérgico que desenha o macro e o nano, as minhas veias atravessando as casas de madeira e os trapiches engolidos pelas águas e ela dizem “é chegado o tempo de despejar bombas sobre o sol nascente, é hora de o caracol rastejar ao longo da borda da navalha para a alegria da plateia. 

Eu ando e paquero a beirada da janela do tempo, assovio e abro as pernas cegas, estamos as três dentro do branco do olho a partir de agora, atenta aos chamados de sentidos que atravessam diversos planos, cada um numa carta de baralho que um sol fudido gira no sentido horário sobre a toalha de seda, e tento lamber o som narcótico do caminhão de lixo que me convida ao mergulho na madrugada, os noitedias copulando dentrofora, fabricando calendários com mensagens de Feliz Páscoa e coelhinhos na cesta de flores, e recobrando a vista, respondo: “Vejo pessoas, mas elas parecem árvores que andam”, mas as árvores são a bagunça que eu faço em mim, o gosto de secnidazol que elas deixam em tudo, e sinto o cheiro da teia vibrando, o código morse nas luzes que arranham as poças das chuvas de verão, quando os tentáculos do infinito se estendem para que eu me desenhe esse outro lugar depois da última página.

 Trançada na loucura da tecelã, as linhas escorrendo pelos dedos, eu sou o canino do lobo, eu, ele, e os outros também, e nossas sombras, ou seríamos nós as sombras deles, e não só as sombras, como o asfalto no qual elas se projetam, e o sol que as delimita, e as trovoadas que as lançam ao esquecimento, e a fotografia que as acomodam no quadro da sala de estar, e a poeira que tenta beijar as sombras em vão através do vidro protetor, e o sal, sobretudo o sal da lágrima, ele e as coisinhas elementares, e por que não os microplásticos e o lubrificante extra na camisinha do eterno devir, pois tudo que escrevo no pobre diário, raivoso diário, que está no seu limite, na última página do dentrofora, balbucia coisas como Cintia enche o saco. Cintia, que antes não conseguia elaborar três frases seguidas sem que ela fosse o sujeito, ela mesma se devora e se dá de comer. Cintia não me escreve mais. Cintia me faz esperar. Cintia machuca. Cintia deveria me usar. Por que não me usa? Cintia deveria morrer. Eu sou um diário mau, muito mau. Cintia não tem nada a ver com isso.

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