Já pensou?

por Américo Paim

Isca e Tezinho correm juntos pela praia preferida, ainda deserta diante dos tímidos primeiros raios de sol daquela manhã. O primeiro é um tanto sonhador e ainda está um pouco acima do peso, apesar dos progressos com a última dieta. Seu rosto bonito passa felicidade. A barba recém-cultivada dá ares de maturidade para seus vinte e tantos, embora os cabelos tenham crescido e já se aproximam dos ombros. Esse é um contraste com o segundo, amante da natureza, ansioso. Até pouco tempo a cabeça estava lisa por lâmina e agora está de volta ao visual básico, de corte curto, que acredita realçar seu corpo musculoso, moldado por disciplina recente, desde que sua ex lhe trocou por um bombado de academia. Isca não concorda ou mesmo alivia, e diz ao amigo que foi tudo por causa da sua feiura mesmo.

Dão um tempo no trote vagaroso e sentam-se na areia. Isca, empolgado, fala sobre os ajustes internos que quer fazer na sua pequena casa no subúrbio. Uma reforma simples, porém, inteligente. Para explicar melhor, levanta-se e vai até a vegetação baixa que delimita o início da faixa de areia, em busca de um graveto. Quer desenhar. Tezinho ainda diz que não é necessário, mas não adianta. De costas, ouve o grito.

– Eita porra!

– Que foi?

– Corre aqui, Tezinho!

O amigo chega de um pulo. Como diante de um poema em latim, contemplam, ali no chão, entre pequenos arbustos, repousado dentro de um saco de plástico transparente, um pênis humano. Tem a cor clara e é longo. Parece íntegro e não tem fimose. A princípio, consideram ser um utensílio, desses de sex shop, mas a fidelidade impressiona. Um olhar mais cuidadoso, porém, lhes mostra algo diferente.

– Tezinho, véi, essa miséria é de verdade! Porreéssa…

– É não, Isca, né possível.

– Oxe, oxe. Olhe ali: num é pentelho? E ali, ali, aquele sanguinho.

– Rapaz… Pior é que parece mermo.

– Que diabo é isso, Tezinho?

– Sei não, mas é melhor a gente vazar daqui.

– Por que, sujeito?

– Ué, vai que aparece o dono.

– Tá maluco? Um cara capado ia voltar aqui atrás de lá ele?

– E se vier quem fez isso? Alguém cortou o pobre.

– E bem torado, viu?

– Quem ia embalar assim bonitinho se num quisesse voltar?

– Tu tá entendido de pinto…

– Lá ele. Vamo simbora, Isca. Repare que pode ser pior.

– Como assim, home.

– O ex-proprietário pode tá por aqui perto.

– Que viagem é essa, papá?

– Ô, jumento, tô falando do corpo!

Isca não tinha pensado nessa direção e concorda com o ponto do amigo. Quem garante que não há um corpo por perto? E em que condições? Pode ser que encontrem outros pedaços da vítima. Tezinho olha para as duas direções da praia. Ninguém por perto. Segue ainda deserta. Propõe ao amigo que circulem um pouco, pela vegetação rasteira, acompanhando a linha do braço de areia. Talvez achem algo mais, antes de chamar a polícia. Isca surpreende porque tem outros planos.

– Se ligue na oportunidade, Tezinho.

– É o quê?

– Achado num é roubado. Cê sabe disso.

– Tô entendendo nada.

– É um momento Casseta: “meus problemas acabaram”!

– Fumou maconha estragada?

– Velho, esse pinto aí vai me tirar de problema.

– Porra, Isca, cê tá bem?

– Eu num vou mentir: esse pinto é pintoso.

– Ô véi, tá foda…

– Repare só. O bicho tá novinho. Eu levo esse rapaz aí e faço um implante pra mim.

A gargalhada de Tezinho é misto de humor e nervoso. Que aberração de ideia! De onde veio isso? Ele olha em volta a todo momento. Acha que podem ser descobertos e não terão qualquer explicação para aquilo. Ele começa a se coçar de agonia. Isca sugere uma caída no mar para refletirem um pouco mais.

– O quê? Vamo logo é pra delegacia!

– Tezinho, tu num sabe de nada. É porque esse problema nunca apertou sua mente.

– Que porra cê tá falando, véi?

– É minha chance de ter um cacete decente, papá.

– Véi, para com isso! Saporra tá podre aí. Deve ter um tempo largado nesse mato.

– Que nada. Tá com uma cara boa, zero bala. Fecha até na cor. Ninguém vai notar.

– Tá muito interessado…

– Tô, mas num é o que cê tá pensando, desgraça. Se arrumar gelo logo, eu salvo o bruto.

– Isca, para com isso, fio. Vamo vazar.

– Tezinho, seja meu amigo, caralho. Me ajude a ter um pau grande. Cê nunca sofreu com essa merda.

– Ah, isso não. Sou o poderoso mamba…

– Menos, Tezinho, bem menos…

– Véi, tamo perdendo tempo. Esse papo é doideira.

– Fácil falar. Ninguém lhe chamava de “minhoca” na escola.

– Peraê, isso já acabou faz tempo.

– Ah, tá bom. Cês mudaram pra “isca”… boa porra.

– Dá uma quebrada, né? O povo pensa em pescaria e tal e coisa.

– Filho da puta.

De volta a dias difíceis, Isca recorda com clareza. Os passeios com os primos. Todo mundo nu pra tomar banho de rio e ele com vergonha. Quando tirou a roupa, virou assunto. Eles brandiam suas ferramentas, como espadas em um combate, em uma disputa para ser o mais poderoso, o maior. Assim, o pobre Agildo virou “minhoca”. “Uma talisca na floresta de rola” – assim ouvia dos parentes. Isso chegou fácil à escola, com o bullying implacável. Antônio, o “Tezinho”, lhe deu apoio desde cedo. Melhores amigos. Depois veio o Exército, outro constrangimento, pelado diante dos colegas. Por fim a faculdade, reino da fofoca e da treta. Teve sua primeira transa nesse ambiente e as coisas não foram bem. Meninas que diziam ter curtido, falavam depois o oposto e a notícia se espalhava. 

Isca se agacha, mais perto do objeto. Ensaia tocá-lo e é impedido por Tezinho: “vai deixar suas digitais no pinto, maluco? Isso aí foi crime, mané! Vão lhe achar até no inferno, vai virar o assassino da rola, já tô até vendo as manchetes”. Isca discorda e argumenta: “é rola de uma boa pessoa, vá por mim. Talvez até generosa. Não tenho dúvida que é alguém com bom temperamento, equilibrado”. Preocupado, Tezinho nem consegue mais rir dos absurdos. Isca pondera que vai mudar de patamar junto ao público feminino, cada vez mais escasso, aliás. Animado, já projeta update do apelido: “torão”, “vinho” (aqui ele pensa numa linha amadeirada), “monstro” etc. Ainda bate asas à luz do dia quando Tezinho o aterrissa.

– Isca, véi, acorda. Isso aqui é problema puro.

– Tezinho, pai, a gente pega o carro, consegue gelo e parte pro hospital.

– Cê insiste nessa?

– É só chegar, explicar ao médico e pronto.

– Cê vai ter que contar história é pra polícia, mané.

– Oxe…

– Ah, é bem normal chegar do nada no hospital com o caralho dos outros na mão… e sem a pessoa!

– Não tem mais dono. Tá largado aqui de bobeira.

– Cê num pensa, né? E se foi um acerto de contas e alguém precisa ver a prova?

– Hum, tá certo…

– Ou crime passional. O peão tava traindo a mulher e sifu. Ou traindo o homem.

– Porra num tinha pensado nisso. Será que é um pau gay?

– Isca, que diferença isso faz, pelamordedeus?

– Oxe, muita. Na hora de emendar um no outro, quem garante o que vai prevalecer?

– Cê nunca foi preconceituoso, véi. Vai começar agora?

– Tô de boa, sou hetero, cê sabe, mas essa situação é nova…

– Ué, cê num quer o pau gigante? – diz Tezinho, gargalhando.

– Só que num é assim a culhão…

– Tá com medo de ser possuído? De o pau ser uma entidade? – novas risadas.

– Não tinha sacado assim. Será?

– Cê tá doente, véi. Eu vou ligar pra polícia de uma vez – Tezinho pega o celular na pochete.

– Calma, não podemos perder essa alternativa – segurando o ímpeto do amigo.

– Podemos? Me inclua fora dessa…

Vendo que Tezinho já está sem paciência e que nessas circunstâncias ele se torna agressivo, Isca propõe a tal busca, atrás do suposto corpo. Quer mesmo é ganhar tempo. Achar folhas grandes para pegar o tal pinto: “oxe, vou pegar no pau dos outros assim sem proteção? Quem vai é o coelho…”. Olham o céu em busca de grupos de urubus, como pista. Nada – só gaivotas e outros pássaros. Buscam por um curto tempo e voltam ao local do objeto e à estaca zero. Ao longe, movimento na praia. Isca acelera o processo. Ignora os protestos de Tezinho, e com uma folha de árvore na mão, segura com cuidado o plástico que protege o pinto. Cria coragem e o retira do envelope, diante da cara de nojo de Tezinho. Ouvem ruídos de pessoas conversando, próximas. São duas mulheres. Isca coloca o pinto sobre uma folha grande e o cobre com outra. Se afastam um pouco. 

Elas se aproximam pedindo informações. Tezinho emenda conversa que se estende por alguns minutos. Isca está nervoso. Elas vão embora, eles voltam à posição original. Um vento bate e a folha voa, aleatória, deixando o acesso livre para uma gaivota, que mergulha rápida, e sai dali com o pinto no bico, diante dos boquiabertos amigos.

– Porra, Tezinho e agora?

– Já foi, papá. Que alívio!

– Que vacilo, viu?

– Ainda bem que cê num tava nu e foi uma gaivota.

– Num entendi.

– Oxe? Com essa minhoca aí, já pensou se fosse um gavião-papa-pinto?

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