
Minha vizinha Lorena G. vive aqui nesta praia desde o início da pandemia, em 2019. Somos uma comunidade pequena, incluindo os nativos e os que vieram de fora, de outros estados ou até mesmo outros países, como é o caso de Lorena. Na sexta feira, Lorena entrou na minha casa gritando, descontrolada, falando coisas que eu não conseguia entender. Frases em espanhol, coisas em inglês misturado com português, uma salada de insanidades. Eu sempre achei, assumia, que Lorena era norte-americana, mas parece que ela nasceu no Equador ou na Venezuela, não me lembro qual dos dois. Ela viveu muitos anos nos Estados Unidos, é cidadã norte-americana, mas chegou ao país quando já tinha quinze anos. Só me disse isso muito recentemente. Em geral, é muito reservada sobre detalhes de sua vida privada e seu passado.
Lorena me contou que tinha visto qualquer coisa na praia, só que não dava pra entender o que ela dizia. Repetia algo sobre um pé e pensei que tinha se machucado no pé. Não havia sangue ou qualquer evidência de ferimento em seu pé. Com muito custo consegui acalmá-la um pouco, ela abaixou o tom de voz e depois ficou parada, olhando para um ponto fixo no chão. Alguns minutos depois me disse, metade em inglês, metade em português, que havia um pé de uma pessoa na praia, na parte mais deserta, a uns quarenta minutos de caminhada, ao sul da vila. Pouco depois da Pousada Reserva das Bromélias, ela explicou. A pousada fica fechada a maior parte do ano, só abre poucos meses, durante o verão. O acesso a partir da estrada é muito difícil, a não ser que você tenha um quadriciclo. Mesmo assim não é fácil atravessar por ali. Na maré baixa, é possível ir de bicicleta pela praia, mas não era o caso naquela hora.
Lorena G me disse em seguida, que estava andando na praia e viu um pé de tênis meio enterrado na areia. Estava sozinha, fazendo sua caminhada de todas as manhãs. Ela geralmente caminha na direção sul, a partir da vila até um determinado coqueiro, um percurso que acredita medir 3,7 quilômetros. Alguém lhe disse que era assim. Um pé de tênis na praia não é uma coisa comum, principalmente se considerarmos que esta parte da praia onde Lorena caminha é praticamente deserta. Poucos turistas se arriscam até muito depois da foz de um pequeno riacho, que deságua após as piscinas naturais, bem depois dos recifes. Por outro lado, não é assim tão extraordinário, considerando que já encontramos garrafas e latinhas cujos rótulos exibiam caracteres chineses. No entanto, Lorena G. estava em pânico, um pavor que piorava quando ela tentava explicar sobre o tal pé de tênis.
Com muito custo, comecei a entender melhor do que se tratava, apesar de não fazer muito sentido. Segundo Lorena, dentro do tênis havia o pé de uma pessoa. Ela contou que viu um pé de tênis preto, meio encoberto pela areia. Era o pé direito. Já havia passado por uma tartaruga morta, com urubus em volta, cena tristíssima, mas que não é tão incomum por aqui. Algumas ficam presas em redes de pesca, outras às vezes encalham na areia.
Fomos no meu jipe até o final da rua principal e começamos a caminhada já na saída do restaurante espanhol, a última trilha para a praia e a que fica mais ao sul da vila. A maré já tinha começado a baixar e havia trechos de areia fofa, intercalados com outros de areia já compactada. Ao passar pela foz do riachinho, atravessamos lentamente porque estava ainda cheia, talvez por causa da ressaca de ontem depois da tempestade. Vimos, em uma curva na margem direita, uma grande quantidade de lixo, com pedaços de madeira e de plástico. Uma parte do plástico picada em pedaços pequenos, depois de ter sido repetidas vezes devorada e regurgitada pelo oceano. Mais a frente, uma fileira de pontos coloridos ao longo da praia, próximo à restinga, chamou minha atenção. Andei um pouco na direção do banco de areia e vi que se tratava de tampinhas de garrafas. Apenas as tampinhas, muitas delas, de diferentes cores, enfileiradas em um bordado meio bizarro ao longo da praia. Vieram com alguma onda na maré alta e se alojaram ali na areia, formando aquela linha colorida por um longo trecho, na parte de cima da praia.
Lorena ia caminhando logo à frente, os passos dela assim à distância um tanto cambaleantes, tentando alcançar as partes mais firmes da areia; o cabelo meio grisalho, tinha uma parte presa em um coque no alto da cabeça e vários fios longos caídos pelos ombros, por baixo da viseira de palha. Quando subi até à restinga, tive a impressão de que ela estava falando sozinha, murmurando qualquer coisa para si mesma. Pensei em como deve ter sido difícil pra ela no começo, sozinha em um país estrangeiro, sem falar o idioma. O português dela tinha um sotaque engraçado, uma mistura de sotaque americano, com palavras em um portunhol embaralhado, os artigos nas frases em espanhol em vez de português. Não posso afirmar que somos amigas, mas somos vizinhas e participamos juntas do bloco de percussão da vila e do projeto de leitura das crianças na escola. Ela é divertida, com seu sotaque e tudo. Está envolvida com um grupo novo da península de apoio a vítimas de violência doméstica.
Alguma coisa sinistra parece ter acontecido com Lorena G. no passado. David, não sei se é marido, ex-marido ou se são só amigos, aparece de vez em quando por aqui e fica uns meses. Sei que eles têm uma filha na faculdade lá nos Estados Unidos. Além disso, pouco sabemos sobre a vida passada dela. Acho que me considera sua amiga, mas pra mim ela é apenas a vizinha, uma conhecida sobre a qual sei pouco e com quem convivo aqui na vila onde somos ambas ‘imigrantes’. Se eu tivesse que ser fiadora ou testemunha da Lorena, ficaria em uma situação difícil, porque apesar de sermos vizinhas há cinco anos, sei pouquíssimo sobre sua história. Alguns dizem que o mistério sobre o passado dela se relaciona a um crime cometido, do qual ela foi absolvida, mas que com o tempo se transformou em trauma e estigma e ela resolveu se mudar para a América do Sul. Quem me disse isso não foi ela, foi a Milu, jornalista e editora aposentada que mora em uma fazenda aqui na península.
Faltava um pouco ainda para chegarmos à Pousada Reserva das Bromélias, quando avistei na areia, bem acima da linha onde as ondas estavam batendo, um monturo de areia sobre algo de cor azulada e formato estranho. Caminhei até o objeto e empurrei um pouco da areia com minha havaiana, que eu carregava na mão. Dei um salto rápido para trás, ao constatar que se tratava de um pé de tênis. A cor era cinza azulada, da marca New Balance, aquele com uma letra N do lado. Voltei e insisti com a havaiana, empurrando ele pra fora do montinho de areia. O que vi em seguida me chocou e me deu arrepios. Dentro do tênis havia uma meia, de cor indefinida. E dentro da meia, inteiro, com um pedaço de osso saindo pra fora, havia, quase intacto, um pé. O pé de uma pessoa, em plena areia da praia, sob o sol forte do final da manhã.
Não posso dizer que desacreditei quando a Lorena me disse que tinha encontrado um pé humano na praia. Não soube o que pensar. Ao mesmo tempo que achei a história sem pé (opa) nem cabeça, havia uma sinceridade estranha na fala dela e um terror genuíno em seus olhos e gestos. Quando me dispus a voltar com ela ao local do achado inusitado, apesar do horário, do calor e da estranheza da história, não tinha de fato nenhuma expectativa. A frase ‘Foi num momento de insanidade’ ficou na minha cabeça por algum tempo, mas depois me escapou. Achei possível que não encontrássemos nada, seja porque o mar havia levado de volta o achado macabro, seja porque minha vizinha pudesse ter sofrido uma alucinação momentânea. Talvez um heat stroke, como dizem no país dela.
O que eu esperava menos foi a reação da Lorena. Para mim, o momento pedia calma e reflexão. Respeito talvez. Senti um misto de pena e respeito pelo ser humano ao qual aquele pé havia pertencido. Onde estaria tal pessoa? Estaria morta? Faltando um pé, estaria usando uma muleta? Uma prótese, talvez? Por que teve seu pé decepado daquela maneira? Por que atirado ao mar? Seria o pé de um náufrago? Onde estaria o restante do corpo? Alguém o teria cortado em pedaços? Apesar do medonho e do trágico da situação, eu não esperava o que aconteceu em seguida. Lorena se aproximou do local e, ao avistar o pé naufragado, se desesperou em gritos, apertando meu braço e minha mão, ao ponto de eu ter que empurrá-la para me soltar, o que teve que ser feito bruscamente. Lorena! Pare com isso! Para! Tá louca?
Lorena se afastou e caminhou em direção a um tronco de árvore no meio da praia, mais à frente. Sentou-se sobre ele e ficou ali, chorando, murmurando frases incompreensíveis, balançando a cabeça de um lado para o outro e passando a mão na testa de vez em quando. Andei até ela, sentei-me no tronco ao seu lado e fiquei em silêncio. O choro de Lorena aumentou. Ela se levantou, ficou de pé na minha frente gritando e apontando para algo adiante na praia. Enquanto chorava e se movimentava, ora dando pulinhos na areia, ora mexendo pernas e o outro braço, como se estivesse correndo parada, como uma criança fazendo uma birra terrível, gritava: Not this one! not this one! Mira! Mira!!! e soltava uns guinchos terríveis, estranhíssimos, entre uma e outra frase sem sentido. Me levantei espantada e olhei na direção em que ela apontava. Após alguns instantes, consegui distinguir um pequeno volume sobre a areia, a uma certa distância. Comecei a caminhar até o monturo de areia que cobria parcialmente algo semelhante a uma rocha ou um pedaço de madeira queimada. Ao me aproximar, descobri um objeto de fato aterrorizante: Outro pé, dentro de outro tênis. Um tênis preto, com um pé dentro, mas sem o osso saindo pra fora. Não seria o outro pé da mesma pessoa morta talvez em um naufrágio, usando um tênis de cada cor. Não podia ser, não tinha explicação. Era um outro pé direito, decepado, arrancado de um pobre corpo, um segundo corpo, um outro ser humano talvez sem vida, mas definitivamente sem um pé. Olhei novamente o pé náufrago, olhei Lorena; mais adiante, vi uma nuvem. Fiquei ali, parada, ouvindo o barulho do mar.

