Como se Dandam e os outros 11,8 milhões de habitantes de São Paulo tivessem todo o tempo do mundo pra esperar, Cari pinçava a pontinha da língua com o polegar e o indicador no esforço inútil de achar e depois desencostar de si mais um fio de cabelo. Dandam, deitado diante dela, custava a entender a agonia. Vem cá, amor, depois tu tira. Tá pra lá da minha garganta, tá no meu estômago já. Pera só um pouquinho – virava o olho tentando se concentrar.
Toda hora um cabelo na boca. Começou no dia da Cristallo. Resolveu pagar mesmo os R$16 por uma mini bombinha e um bem-casado. Tinha dormido mal e achou que merecia um doce depois do almoço. A moça atrás do balcão a corrigiu na mesma velocidade com que perguntou a forma de pagamento. Um éclair e um casadinho, R$16, crédito ou débito? Ela se ofendeu, mandou acrescentar um cappuccino pequeno sem nem saber por que. Em Recife, bombinha é bombinha, casadinho é biscoito salgado com goiabada e bem casado é um brigadeiro meio branco meio marrom. Na Cristallo não. Um éclair, um casadinho e um capuccino pequeno, R$34, é crédito ou débito?
Pediu pra tirar o capuccino que não tem café com leite que valha R$18, mesmo que com chocolate e canela. Resolveu passar café em casa e mandou embrulhar os doces pra viagem. Sentiu na primeira mordida – dava pra comer de uma bocada só, mas ela queria aproveitar cada centavinho. Sentiu lá pelo meio da língua e disse pra ela mesma: da Cristallo? Não é possível. Era. Cuspir se recusava. Não cuspia nada, desde menina. A única exceção era pra obedecer ordem de dentista. Meteu a mão na boca e alcançou o fio de cabelo. Cabelo de cabeça mesmo. Preto que nem o dela, uns 20 cm, todo sujo de açúcar e brigadeiro, do branco e do marrom. Só não chorou porque tinha reunião dali a 5 minutos.
Usou a mesma força que evita o cuspe pra engolir o que restou na boca sem vomitar. Vomitar se recusava. Não vomitava nada, desde menina. Sem exceção. Engoliu, levantou da mesa da sala de jantar, entrou na cozinha, colocou a xícara de café no micro, 25 segundos, tomou um copo de água, saiu da cozinha, passou pelo corredor, entrou no banheiro, fez bochecho, escovou os dentes, viu os olhos molhados no espelho, piscou, piscou, piscou até secar, saiu do banheiro, passou pelo corredor, resgatou o café quente de queimar, sentou na mesa, checou se já tinha superado o trauma, tinha, deu um gole no café, queimou mesmo a pontinha da língua, alcançou a caixa e mordeu o éclair. E aí o olho não deu conta de barrar lágrima nenhuma. Cuspiu, mas várias cuspidas, no píres e até um pouquinho fora do píres, cuspiu cor de rosa que a bombinha era de zabaione. Um outro fio pendurou-se na baba doce e não saia por nada da boca de Cari. Ela com as duas mãos tentando separar o fio da baba, ele escorregava, ela puxava de volta num reflexo troncho de tentativa de controle, ele encostava na língua queimada, ela cuspia de novo, a baba gelada voltando e indo e voltando e indo, a mão preguenta, a câmera aberta, um medo danado de já terem aceitado o pedido pra entrar no Zoom. Gritou uns 4 ais desesperados, um pra cada cabelo, um pelo cuspe e um pela atendente e esse jeito paulistano de corrigir pra humilhar.
Não tinham aceitado. Foi nesse dia que Dandam olhou diferente pra Cari. Trabalhavam juntos há mais de ano. Ele nunca tinha segurado a atenção nela por mais de 3 segundos, não assim pensando em qualquer pauta que não fosse o prazo, o projeto, ou o gráfico de performance. Mas alguma coisa no rosto vermelho, nos olhinhos inchados, nas fungadas e na tosse insistente da colega lhe entrou pela tela de forma tão terna. Um desejo louco de proteger, de cuidar, de colocar no colo, de beijar, de amar pra sempre, de cobrir com edredom no meio da noite, de acompanhar em endoscopia, de pendurar toalha de prato no ombro, de bater bolo, de ir em aniversário de sobrinho, de entrar em amigo secreto de um povo que não é seu povo, de fazer família, de misturar sobrenome em menino pequeno e em menino grande e em menino médio.
Foi ele quem puxou a reunião pra cobrar justinho a ela e a equipe dela uma tarefa atrasada. Mas Dandam não cobrou não. Deu qualquer aviso sem importância, dispensou todo mundo e pediu pra Cari ficar na sala. Tá tudo bem, Cari? A saúde dos colaboradores é muito importante pra gente, você sabe, não sabe? E aí que foi muito projeto, muita saúde, muita colaboração e muita performance dele e dela. Ninguém cuspia coisa nenhuma e Dandam sentia, desde o drink depois daquele Zoom, que nunca havia estado tão bem. Bem bem.
Só tinha essa coisa do cabelo, né? Toda hora os dedinhos procurando um fio na boca. Amor, tem que ver se isso não é uma impressão tua. Mas era nada. Desde o bem-casado a língua de Cari tinha adquirido propriedades de imã. Houvesse uma tendência à queda e estivesse ela na distância que fosse, era pra boca da moça que cutícula, córtex e medula se sentiam atraídos. Qualquer prato de restaurante, qualquer iogurte lacrado, pacote de cheetos, qualquer abraço, mesmo que aqueles rapidinhos de amigo secreto de um povo que não é o nosso povo, qualquer cachorro cumprimentado sem entusiasmo no elevador do prédio, deixava Cari com a boca peluda.
Dandam não era nenhum Chewbacca, mas sentia que com ele a coisa parecia ainda pior. Às vezes não tinha nem passado pela porta e Cari já começava a pinçar a língua. Foi no aniversário de 30 anos dela que ele teve a ideia do presente. Pesquisou métodos, preços e intensidade da dor e optou pela Maison Depil do Shopping Pátio Higienópolis. Pediu a completa. A moça atrás do balcão corrigiu: não fazemos completa no masculino, senhor, fazemos a integralizada man. Sim, a integralizada man. Vou fazer. Certo, integralizada man contem cabeça, sobrancelha, barba, bigode, nariz, orelha, nuca, pescoço frente, axilas, costas, peito, braço inteiro, perna inteira, nádegas e desportiva completa íntima, o senhor vai querer alguma outra área? Ele não conseguia pensar em nenhuma outra área que não tivesse sido mencionada em volume de escutar a três lojas de distância para esquerda e para direita da Maison Depil e respondeu um não convicto pra depois acrescentar, por hoje vai ser só isso mesmo. R$975, crédito ou débito? Elisabeth, por favor, comparecer à recepção. Masculino, 15 áreas com íntimo – dito agora no microfone.
Dandam chorou, cuspiu, vomitou e gritou uns 4 ais desesperados, um pela careca vista no espelhinho que segurou a pedido de Elisabeth, um pelo prejuízo, um pela dor da desportiva completa íntima e um pela atendente e esse jeito de corrigir pra humilhar. Passou na Cristallo e embrulhou 6 casadinhos pra levar pra Cari, era prenúncio do pedido que faria no fim da noite.
Cari teve horror à caixinha, mas agradeceu. Fora que Dandam tava lindo, ficava lindo de todo jeito. Jantaram, ele mencionou os casadinhos, ela se arrepiou toda, agarrou o moço com gosto pra forçar o esquecimento da sobremesa. Ele meio nervoso com o discurso que tinha ensaiado, todo ardido. Saíram da sala de jantar, passaram pela cozinha e pelo banheiro no corredor, entraram no quarto, o bichinho meio preguento de cera ainda, ela jogou ele na cama, tirou a roupa dos dois estabanada, o vestido sem passar pela cabeça porque o botão tava fechado, gostou do cheirinho de mel mas se achou bruta, pouco charmosa, acendeu a luz e tentou um movimento de soltar o cabelo do coque olhando bem no olho dele, piscou, piscou, piscou, tudo isso sem desgrudar o beijo. Quando se deu conta da falta de pelos, teve vontade de engolir Daniel, ou entrar boca a dentro morar pra sempre no corpo lisinho dele, teve vontade de perguntar se era laser, luz, se ele ia ficar assim boto-cor-de-rosa pra sempre. Ele sentiu que tinha agradado, esqueceu até o incômodo que a pele dela causava na dele, todo assado, tadinho. Até que Cari levanta o tronco de supetão. Mira Dandam, vira o olho concentrada como se ela e os outros 11,8 milhões de habitantes de São Paulo tivessem todo o tempo do mundo pra esperar, leva a mão na altura da boca dele, faz um aaaa, encolhe o médio, o anelar e o dedo mínimo em direção à palma e com o polegar e o indicador pinça a pontinha da língua do namorado no esforço inútil de achar e depois desencostar dela um fio de cabelo. Eita, amor. Desculpa, acho que é o meu que cai, né?

