(chloé)
O suco
Conheci a Edna na academia. Eu estava começando a frequentar o lugar, nunca fui muito disso, mas o médico tinha me dado uma bronca por causa do colesterol alto tão novo, com 40. Disse que trabalhava com saúde, ele foi mais incisivo ainda. Imagina se soubesse o que eu realmente faço? Por baixo das camadas da fantasia, eu sustentava um corpo de homem sedentário típico: barriguinha proeminente, uma fina camada de gordura mole por cima dos braços e pernas finos.
A Edna era o oposto. Postura arqueada, peito para frente, braços riscados, cintura finérrima e uma bunda enorme, fisicamente impossível. Num dia de garoa, deu bola pra mim, quando ofereci uma carona no guarda-chuva até seu carro. E aí, uns dias depois, estava dando bola pra mim. Bola, bomba, suco. Começou depois da nossa primeira transa, eu com as mãos descansando naquele quadríceps duro feito latão.
— Eu sei que você deve ouvir isso toda hora, mas você é linda! Seu corpo é incrível.
— Ah, brigada, é muito tempo de treino, mas não só isso.
— É mesmo, o que mais você faz?
— Tomo uns negocinhos.
— Que negocinhos?
— Testosterona.
— Eu achei que só homem tomava testosterona.
— Achou errado, gato.
— Isso não faz mal pro coração não?
— Fazendo do jeito certo, não. Tenho um amigo médico que faz a receita, é tudo controlado.
— Hum
— Quer experimentar?
— Será?
— Faz um ciclo, aí você me diz. Vai ser bom pra você, no seu trabalho, seus amigos. As pessoas vão te respeitar mais.
— Vou pensar e te falo.
Não falei pra ela que trabalhava fantasiado, que tanto fazia meu físico. Aceitei a proposta depois de uns dias. Edna chegou no meu apartamento nervosa, tirou um saquinho de papel da bolsa, com um vidrinho e uma injeção.
— Eita! Você não falou nada sobre injeção.
— Achei que você soubesse. Mas é bem tranquilo, você vai ver.
— ….
— Vai, abaixa a calça.
Tive a melhor transa da minha vida naquela noite. Ela era viril. Nos dias seguintes, já notei diferença. Puxava mais peso na academia, via no espelho os músculos começando a aparecer. Na segunda semana do ciclo, ela pediu para eu aplicar a injeção nela. Disse que tinha tara nisso. Virou nosso ritual das noites de quarta. Abrir o saquinho de papel, tirar a injeção do invólucro, sugar o conteúdo do vidro, segurar aquela bunda linda, aplicar a injeção. Depois era a minha vez.
— E aí, gostosa, hoje tem?
— Não, gato, acabou seu ciclo. Agora só mês que vem.
— Hum…
— Achei que você só ia experimentar.
— Sim, sim… perguntando por perguntar mesmo. E o seu ciclo, acabou também?
— Eu não faço ciclo, gato. Tomo direto.
Ouvi e nada disse. Tinha medo do que poderia acontecer comigo. Mas logo comecei a me sentir mais fraco, mais flácido. O sexo também tinha mudado, perdido um pouco do brilho. E eu já não conseguia mais transar tantas vezes por dia. Michael Douglas teria inveja da libido da Edna. Mandei mensagem: também queria continuar meu ciclo.
— Você ainda vai gostar de mim se eu também for bombado igual você?
— Claro, gato. Imagina as fotos lindas que a gente vai tirar junto?
Entrei de cabeça no mundo da bomba. Fui crescendo, a ponto da fantasia ficar apertada. No trabalho, o pessoal brincava.
— O Zé Gotinha tá grande, hein?
— Que vacina é essa, Zé? Também quero!
Em casa, com ela, o clima esquentava no bom e no mau sentido. Percebi que ela andava cada vez mais estourada. E rígida com a alimentação, estritamente carnívora. Não podíamos comer pão nem arroz. No lugar, bife, manteiga, e ovo.
— Nossos antepassados comiam assim, é o jeito certo. Só idiota come carboidrato.
Um dia, cortei errado o carne. Ela olhou as tiras de carne na tábua e deu um soco na mesa. O barulho encheu a casa, e a madeira tremeu.
— Eu avisei que era no sentido da fibra! – ela disse, com sua voz grave.
Tinha um pouco de medo, mas algo dentro de mim despertou. Então, enfiei a faca na peça maior de carne.
— Faz do seu jeito então, porra!
Puxei seu cabelo com força enquanto transávamos naquela noite. E ela apertou meu braço de tal forma que acordei com a marca dos dedos no bíceps. Fui trabalhar, e percebi que a fantasia já estava ficando apertada, sufocante. Também estava cada vez mais sem paciência praquela criançada querendo tirar foto com o Zé Gotinha. No meio da tarde, a Edna mandou uma mensagem avisando que estava a caminho do hospital. Muita dor de cabeça. Cheguei para visitá-la tarde demais.
— A Edna infelizmente faleceu. AVC. – me informou um homem na frente do quarto, o irmão dela.
Não soube muito bem o que fazer. Disse que era um amigo e deixei minhas condolências. Era uma quarta-feira. Cheguei em casa e encarei por longos minutos o saquinho de papel com a dose da semana. No dia seguinte, falei com a minha chefe.
— Avisa o pessoal de Compras que preciso de uma fantasia maior.
