Cinquenta tons de fake

(Glaucia Faria)

Domingo. Dezembro. Quase onze da noite. A plaqueta na porta da Clínica TANTAN informa estamos abertos. Ele toca a campainha equilibrando nas duas mãos o pacote pesado. Última entrega do dia. Da noite, no caso. Ninguém atende. Prédio comercial antigo. É brincadeira, bufa de raiva. Nova enfiada de dedo. Ouve um Calma! Já vou. A mulher atende. Ele leva o primeiro susto. Com aspecto alaranjado, ela parece ter sido mergulhada de corpo inteiro em uma lata de zarcão. Nunca imaginou que uma pele pudesse brilhar tanto, um reflexo quase sobrenatural. A versão carne viva daquela estatueta de cinema que ele não sabe o nome.

O segundo susto veio com a surpresa dela ela vestir nada mais nada menos do que um roupão atoalhado. Meio aberto, branco. Assina recibo debruçada. O decote molengo cede. No ombro, ele vê a marca fantasma perfeita do biquíni de fita adesiva. O pobre entregador engole em seco.  

Aceita uma água?

Meu nome é Rosi. A voz hilariante, meio presa, meio fina, completa a extravagância de quem acredita estar em um palco e não trabalhando domingo à noite.

Prazer, Benildo. Estende a mão. O cumprimento retribuído é firme, forte e esquisito. Rosi torce a mão dele, de forma que as costas da mão dela ficaram por cima. Depois empurra para baixo.

Só esperava essa encomenda para fechar a clínica.

É clínica de quê?

Um centro de bronzeamento artificial. Trabalhamos o método da câmara UV e jet bronze.

Rosi abusa da primeira pessoa do plural, embora seja a dona do estabelecimento, e única funcionária. A faz tudo. Trata dos procedimentos estéticos e limpa a privada. Segundo a bio do seu perfil do Insta, ela é a CEO da Clínica TANTAN. Cargo atualizado após a briga feia com a atual ex-sócia. Quando a amizade, a confiança e o tino cúmplice comercial vieram abaixo as duas ergueram uma parede de gesso na sala alugada.

Ahhh… e trabalha sempre aos domingos?

Início de dezembro é uma loucura. Chovem clientes no desespero. Ningué, quer virar o ano na praia com o visual leite azedo. Nessa época atendo a hora que for.

A faísca betacaroteno exalada na maneira como ela se move e a segurança sedutora inquietam Benildo.

E desculpe a indiscrição, mas isso dá dinheiro?

O hall já quente se torna uma fornalha. Hall é modo de dizer. Na separação jurídica um terço do imóvel foi a parte que coube a Rosi daquele muquifúndio. Um corredor mal embrulhado por papel de parede acetinado que imita um estofado bisotê. Fora as paredes, as duas salinhas de procedimentos, o micro banheiro com ducha, os têxteis e o papel higiênico, ali nada mais é branco. Do mobiliário barato passando pelas almofadas em tons degradês, todo o recheio da Clínica TANTAN beira uma escala cromática que vai do amarelão ao tijolo, variantes do laranja bastante enfatizadas. O capacho da entrada, o frigobar pintado com esmalte sintético, o grampeador, a xícara, tudo obedece à lei de que o sol deve brilhar para todos.

Benildo espia dentro de uma das salinhas. Há um aviso: Atenção. Luz intensa. Não fixe a vista no emissor.

Rosi continua:

Dá dinheiro, e muitos gastos. Eu sempre cuidei do bronzeamento, mas antes a clínica era diversificada. Cabelo, maquiagem, massagem, manicure, pedicure. Até botox minha ex sócia aplicava. Confessa em um sussurro fofoqueiro: e sem licença ou formação para isso. E ela era péssima. Seus clientes pagavam caro para ficarem com uma cara de boneco inflável amolecido.

Por isso romperam a sociedade?

Não, foi por homem. Ela ficou com o meu. Pelo menos eu fiquei com o nome da Clínica TANTAN.

TANTAN de doida?

Rosi olha Benildo com pena. A trela dada na conversa furada era uma investida para não terminar o domingo na mão. Bem mais novo, deve beirar uns vinte e pouquinhos, não partilham o mesmo sol do entendimento. Não é bonito, nem feio. Barba rala, pele oleosa, cabelo desgrenhado, magrelo com braço forte de quem puxa ferro. O tamanho do pacote sob a calça é indecifrável, mas o jeans implora pelo amor de deus para ser lavado.

Tania, minha ex-sócia é paraguaia. TAN significa então em espanhol e TAN também é bronzeado em inglês. TANTAN seria algo como então bronzeada.

Achei que era TAN de Tania

Quero que a Tania morra queimada viva.

Nossa.

Novamente cochicha: ando a investir em uma nova frente. Ainda não é público, apenas testei em conhecidos.

E é o quê?

Clareamento íntimo unissex.

Os poros de Benildo se afogam no suor. Rosi aperta o cinto do roupão. O decote travado revela a face marqueteira. Seu burburinhar sobe um tom.

Clareamento anal. Técnica que suaviza a pigmentação escura da mucosa que circunda o ânus. Fins estéticos, apenas. Algo largamente utilizado por pessoas que desejam não fazer feio nas peripécias noturnas. Ou diurnas. Soturnas… deve ser o termo adequado. Nós da clínica TANTAN temos a missão de humanizar a retaguarda. Ninguém merece sentir-se inferior ao assistir um pornô. E hoje em todo pornô o Marquês de Rabicó habita a casa da Barbie. Tudo rosa, rosinha… Fofinho. Depois da despigmentação os pelos tendem a não encravar. Os dedos ou a língua que atravessarem o ex Canal da Mancha sentirão apenas uma penugem suave.

Segue initerrupta na instrução:

A paleta de cores reduzida à gama dinâmica de nudes amplia os ângulos da vista privilegiada devido a clareza da imagem.

Da imagem?

Imagine a diferença de uma tela chuviscada de uma televisão de tubo PB com um bombril mequetrefe na antena para uma fucking big super duper mega blaster television 8k ultra hd.

Rosi saca que Benildo não está comprando a ideia de desencardir o rabiosco. Muda a tática da venda:

Pense o prazer de ser elegante até no orifício onde você pratica a sua… filosofia. Ou quando for ao médico para tratar hemorroidas ou fazer o exame de próstata. Como diz o ditado, a primeira impressão é a que fica.

Cabreiro, ele visualiza o terror de ter as pregas besuntadas com uma pasta feita de Omo, liquid paper, farinha, plutônio líquido e Méqui Lanche Feliz. Um surdo rufar de tambores atordoa o menino. Influenciado pelo sincopar das batidas imaginárias ele avança em uma desconfiança lenta sob a pasta catálogo que Rosi deposita, fechada, sobre a mesa. Dentro dos plásticos há cerca de dez pares de fotografias coladas em folhas sulfite, lado a lado.

Nosso primeiro teste de antes e depois.

Frisa com orgulho que o sigilo é absoluto e analógico. A procissão de celulares não chega nem perto da identidade dos clientes. Benildo confere os pormenores como quem assiste uma partida de ping pong. Seus olhos não acreditam no que veem. Os bumbos recauchutados tem mais diferenças do que o mais complexo jogo dos sete erros.

Que impressionante….

Ainda não estamos cem por cento, mas sempre damos um jeitinho. Uma cliente cobaia ficou insatisfeita com o verso do fundilho imaculado. Destoou muito do resto do corpo. Resolvemos com uma sessão de bronzeamento anal.

Ahhh.

A panfletagem de Rosi adota termos corporativos:

Estamos criando um canal de feedback para saber como nossos serviços foram interpretados e recebidos. A veracidade da avaliação deve ser fidedigna e a objetividade imprescindível. “Gostei” ou “não gostei” ou “não achei nada” não nos serve. Queremos a análise profunda de diversos itens. Aparência, textura, aroma, sabor e consistência de boca. Mais que a transição de cores, oferecemos uma experiência multissensorial.

E quem prova isso?

Vai do gosto do cliente. Sugerimos que depois de polir a coroa do astro rei, ele ou ela meta uma venda nos olhos e um pregador de roupas no nariz da companhia felizarda.

Benildo beira o vermelho pimentão. Ela enfatiza a importância do olfato limpo:

Nesta prova cega são proibidos perfume ou desodorante. Abstenção do fumo de mínimo três horas. Depois do procedimento é natural que a área exale um aroma diferente.

Diferente?

A fedentina dura dá lugar a uma miscelânea de notas delicadas, como miosótis em um buquê de noiva. Sabe o que são miosótis?

Aquelas florezinhas branquinhas, delicadas. Conhecidos também por “não-me-esqueças”. Miosótis significa recordação, fidelidade, amor verdadeiro.

Mas esse cheirinho deve durar um ou dois dias, imagino…

Para isso há a manutenção. Supositórios feitos a partir da pura manteiga de cacau. No momento trabalhamos com o básico, sabor baunilha. A intenção é desenvolvermos versões personalizadas: brigadeiro, cappuccino, doce de leite, chocolate amargo.

Benildo congela. Não respira. Vigora entre eles um silêncio suspeito que não cheira bem. Rosi marqueteira quebra o clima.

Você gosta de perfume, não gosta? Emenda na lábia doce um já viu isso? Abre um vídeo no Youtube. O ator Johnny Deep toca Wild Thing na guitarra em um campo aberto. Desértico, áspero, onde fissuras rasgam o solo. Uma cena ditada por tons arenosos e castanhos. Alertados pela música, aparecem (do nada) vários lobos. Johnny Deep abandona a guitarra e parte (aparentemente) sem destino. A alcateia o acompanha, fiel. A voz do ator preenche a tela com uma frase árida, sem verbo: na natureza, audaz e humano. E surge o tal frasquinho do Eau de Sauvage, da Dior.

Dois pontos de interrogação estrelam os olhos de Benildo. Rosi manobra a fala habilidosa na almejada concretização da venda: perceba que até o lobo solitário do deserto deve abundar um cheiro bom.

Benildo promete pensar. Pega o cartãozinho com o whats da clínica. Volta para casa conduzindo seu carro, um modelo não tão velho, mas que necessita de reparos. Faz as contas deitado na cama. De pernas para o ar se observa com um espelho de mão. Entre o cu e o automóvel, constata que o segundo é o verdadeiro merecedor de um bom martelinho de ouro, funilaria e pintura.

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