Não vou dividir

por Américo Paim

É um detalhe na foto do Insta, mas você repara. Seu corpo fala com você, excitado. Foto antiga, porém, nítida. A mão esquerda de uma mulher, branca, de pele que parece delicada, está sobre o ombro do homem de paletó. No pulso, um bracelete, prateado, com detalhes em outras cores. Você vê a possibilidade ali, ainda que mínima. O homem é o centro da foto e junto a ele há um menino, não mais que doze anos, segurando um cachorro bebê com as duas mãos. Aquele garoto tem idade próxima da sua hoje, é amizade de Face, a partir de um grupo do futebol às quartas que você não vai há tempos. Você sabe que deveria ignorar esse tbt despretensioso que ele publicou. A vidente lhe disse, semanas atrás: “Algo lhe espera. Não caia. Se for, vai chegar tão perto que não vai mais voltar”. Ela nunca falhou com você. E essa gastura lhe dizendo que a hora chegou? O texto da foto não ajuda: “eu e Argos – primeira foto”. Não lhe diz nada, mas algo grita dentro de você. Por que não?

Ao fundo da foto, escadarias amplas de degraus claros, levando à construção imponente. Você conhece o lugar. Ela adorava, você sabe. Aquele braço tem que ser o dela. O que havia ali? Por que estavam ali? Era só procurar o vizinho e perguntar. Você prefere abordagem discreta. Ninguém deve saber sobre isso. Você já foi censurado o bastante: “esqueça essa ideia maluca de encontrá-la; já são mais de dez anos”. Por pouco você não foi internado pela família. E se for nada outra vez? você se pergunta.

Na quarta seguinte, você volta ao futebol e se aproxima do sujeito de novo, devagar. Ele lhe é receptivo, porém, estranho. Cabelo longo meio seboso, dentes que carecem de atenção, forma física duvidosa, mas um porte que lhe diz que evite conflito. Duas semanas depois, vocês já conversam à vontade. Ele é reservado. Você, falante como sempre, conta o que pode e o que não deveria. Um dia, você, seguro, traz o assunto.

– E aí, Ediraldo, beleza? – você pergunta.

– Tudo certo, Sotero.

– Rapaz, tava pra lhe falar de um tbt seu no Insta, com uma foto antiga, lembra?

– No Palácio das Artes.

– Isso. Ali é seu pai? É vivo?

– Não, já partiu. Por quê?

– É que tem um braço de mulher na foto…

– Você conhece? – a voz dele muda, você não percebe.

– Hein? Não sei. Parece alguém que já encontrei.

– Quem?

– Nem lembro o nome dela.

– Então não é importante?

– Nada, coisa boba.

– Sei… – a linguagem corporal dele lhe dá nova chance e você ignora.

– Foi só uma sensação.

– Se quiser, tenho a foto completa em casa.

– Como assim? – agora você muda; ele já notou antes.

– Só publiquei um recorte.

– Ah, entendi. Se não for lhe causar transtorno…

– Pode passar lá amanhã à noite – ele explica o endereço e você memoriza.

Você se sente confiante, seguro de que vai descobrir tudo o que houve com ela, que sumiu sem deixar pista. Ela lhe faz muita falta. Você mal dorme na expectativa. No calor da manhã, olha no espelho. O rosto arredondado, olheiras mal disfarçadas, sobrancelhas finas. A pele morena parece melhor do que deveria estar. Ensaia gestos e falas que escondam as intenções. Precisa de cautela, abordagem despretensiosa.

Você não estranha ele esbarrar em você meia hora antes do horário, na padaria do bairro. Uma coincidência. Nem vê nada demais em aceitar a carona: “A gente pode beber alguma coisa. Depois você volta de Uber”. O carro dele é luxuoso e tem vidros muito escuros, tanto quanto a garagem do prédio dele: “serviço de manutenção que nunca acaba”. Andam naquele quase breu, sobem pelo elevador de serviço: “as câmeras estão sem funcionar por causa da obra”. Você acha é bom. Ninguém pode saber. Ele segue reclamando de tudo. Você só pensa na foto. Seu corpo fala com você, conselheiro e a voz da vidente volta. Você ignora tudo. É verão, mas lhe vêm arrepios.

O apartamento é mal iluminado: “É proposital, gosto assim”. Há um cheiro forte de desinfetante, que não se dissipa: “Exagerei. Eu mesmo limpo tudo, a cada dois dias. Não recebo muito aqui em casa”. A decoração é modesta e isso lhe causa estranheza. Ele lhe leva a fotografias de familiares, sobre uma mesa. Em destaque, a mãe dele: “O rosto dela lhe é familiar?”. Você nega. Ele insiste. Você nunca viu tal pessoa na vida. É uma mulher jovem. Ele lhe fala, espontâneo.

– Morreu muito nova. Não suportou.

– Doença?

– Ela decidiu que era sua hora.

– Poxa, me desculpe. Não sabia que…

– Esqueça. Já faz tempo.

– É difícil perder alguém assim.

– Sua mãe é viva? – a expressão nos olhos dele é suficiente, você tem sua chance.

– Não. Morreu há muitos anos. Eu ainda era bebê.

– Então você já viveu isso também…

– Dessa forma, não, mas a perda, sim.

Ele lhe encara por incômodos segundos. Oferece um uísque quinze anos, coisa fina. Você topa, não vai fazer desfeita. Sentam-se na sala em penumbra. Você sente seu coração triste. O silêncio é estranho, mal se ouve o movimento na rua ou nos corredores daquele sétimo andar. Ele vem com conversas aleatórias. Ele está muito bem de vida. Mudo e meio fascinado, você não interrompe, só que já está ficando impaciente. Agora já estão na terceira dose, generosa. Você, mais relaxado, enfim lembra a ele o que veio fazer ali.

– Então, Ediraldo, e a foto?

– Afinal, qual é o seu interesse? – volta o olhar que deixa desconfortável.

– Como eu falei, curiosidade – você diz, após um olho no olho.

– Quem acha que é a mulher?

– É uma tia – você tenta parecer banal; não cola.

– Deve gostar muito dela, né?

– Ela me criou quando minha mãe morreu.

– Então é coisa antiga.

– Sim, por quê?

– Nada… – você poderia jurar que ele riu sem mover os lábios.

– Posso ver a foto?

– Sim, claro, mas tenho uma dúvida antes.

– Pode falar.

– Sua tia era uma pessoa boa?

Você engole seco antes de começar a nova dose, a quarta, de uma nova garrafa, que ele acabou de servir sem tirar os olhos dos seus. Você agora está loquaz. Conta do seu amor por ela, irmã de sua mãe. De como você se viu. Seu pai não deu conta de criar o filho e sumiu no mundo. Ela foi sua referência e aí, sumiu sem explicações. Nada em casas de parentes ou amigos, em delegacias, hospitais, igrejas, necrotérios. Ela ainda jovem e bonita. Você se virou quase que sozinho e não foi fácil. O bracelete da foto era frequente e foi presenteado por sua mãe. Era como uma segunda pele. Sim, podia ser ela na foto. Você está cansado agora, como uma anestesia começando, mãos e pés formigam. Ele se levanta e você espera ansioso.

– Aqui está.

– É ela! – você fala, voz embolando, mas olhos delatores.

– Tem certeza? – há excitação nele.

– Sim, claro! Quando foi isso? Como ela estava ali?

– Isso interessa?

– Claro! Por favor, sabe onde ela está?

– Não se aflija. Logo poderá estar com ela.

– Sério? – você tenta se levantar e cai de volta no sofá – O que é isso que me deu? – você entende.

– Fique tranquilo, nem vai sentir nada.

– O que tem nessa bebida?

– A mesma coisa que a vadia tomou.

– Quem?

– A puta da sua tia, ou melhor, sua mãe.

– Que conversa maluca é essa?

– Sim, miserável. Ela foi amante de seu pai e depois do meu. Era amiga de minha mãe. Falsa, desgraçada.

– Que história é essa?

– Você é filho dela!

– Nunca vi tanto absurdo.

– Meu pai me contou tudo antes de morrer, infeliz.

– Olhe, não me sinto bem e isso não tá ajudando.

– Foda-se. Logo acaba. Nem ela nem você vão herdar nada.

– Como assim? Não tô lhe entendendo – você fala com dificuldade, garganta sufocando.

– Ela, meu pai resolveu. Mais uns minutos e você também.

– Você é louco!

– Minha mãe morreu de desgosto, se matou por causa da sua. E de você.

– Então eu…

– Sim, é meu irmão… um irmão direto do inferno, pra onde vai voltar.

– Nós podíamos…

– Cale a boca. E saiba que eu nunca dividiria Argos com ninguém…

Ele se retira. Você tenta se mover de novo. É inútil. Sente tudo escorrendo. Esbarra no copo, que tomba e esparrama o líquido sobre sua calça. Você olha a foto sobre a mesa mais uma vez. Vira-se para a porta da cozinha. Ediraldo ali de pé, segurando um enorme pitbull pelo pescoço com as duas mãos. Retira-lhe a focinheira, fala palavras que você já não compreende. É a última cena que você vê. O cachorro cresceu muito desde a foto. É a última coisa que você pensa.

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