Achei um umbigo. Um coto de umbigo, enrolado num pano e já meio comido por tapiru. Muita gente acha que umbigo é só o buraco que fica na barriga. Na verdade, quando a criança nasce, cortam o cordão umbilical três dedos pra cima da pele. O pedaço que sobra, amarram e cai sozinho uns sete dias depois. O coto de umbigo que achei, enrolado num pano e já meio comido por tapiru, achei dentro de um buraco.
Achei também muito estranho, porque nessa terra de gente bruta não enterram umbigo. Jogam no lixão mesmo, a céu aberto – misericórdia. Mãe dizia que tem de enterrar o umbigo pros ratos não comerem e a criança não virar malina. O meu foi bem enterradinho, por isso nunca buli com coisa dos outros. Mas a gente bruta dessa terra, que não enterra seus umbigos, acha que todo mundo da minha terra é vagabundo, preguiçoso, bêbado ou ladrão.
Eu tava cavando quando achei o umbigo. Labuta, meu patrão. Um calor da gota, pingando suor mesmo de noite, e o cabo da pá só não encheu minha mão de calo porque já tenho a mão cheia de calo. E tenho a vida cheia de labuta e de patrão desde que cheguei aqui. Antes também tinha muita labuta, claro, e pouco emprego. Por isso que eu deixei a minha terra e vim pra essa. Só por isso. Pra quê mais vir pra cá passar abuso e raiva, gente te chamando de bêbado, de vagabundo, de burro, de cabeçudo? É juntar dinheiro aqui e voltar pro meu cantinho, subir a casinha de mãe, juntar mais Conceição, fazer família e enterrar o umbigo dos meninos perto do meu, na porteira do curral.
Quer dizer, enterrar por lá, mas em outro lugar. Mãe pôs o meu embaixo da porteira do curral pra eu virar fazendeiro, dono de muitas cabeças de gado. Virei foi o que todo mundo em casa já era, labuteiro. Comecei lá com a mão no cabo da enxada arando a terra, terminei aqui com a mão no cabo de enxada revirando massa de cimento. Mas tem nada não, é só coisa de enquanto. Logo menos, logo mais, junto dinheiro e volto pra casa fazendeiro criador gado. Logo menos, logo mais, eu saio do cabresto.
Mãe diz que cada canto de enterrar umbigo é um destino diferente. Embaixo de uma roseira, a menina cresce bonita. No canteiro de um hospital, a criança vira médico. Em frente à prefeitura, o cabra vira político. E se enterrar perto de onde as cabras dormem, o sujeito pode crescer criador de cabra, corno ou os dois. Mãe diz cada coisa engraçada. E mãe também diz imbigo. Eu também dizia, até chegar aqui e dizerem que eu falava errado. Passei a falar umbigo em vez de imbigo, garfo em vez de gaufo, em vez de no lugar de ao invés de. Só que não passou a sensação de falar errado, de viver errado, de querer me enfiar num buraco.
Eu tava justamente cavando quando achei o coto de umbigo. Cavava do lado de um toco de árvore, procurando as raízes. Os umbigos dos meus filhos eu vou enterrar é do lado da cajazeira do quintal de mãe. Pra eles sempre terem a raiz deles lá. E porque a cajazeira passa o ano todo verdinha, mesmo na seca. E porque a cajazeira dá cajá, que é azedo mas é doce, que nem a vida. E porque cajá pode se comer verde ou maduro, puro ou temperado com sal. E porque criança de umbigo enterrado em lugar assim cresce sabendo temperar a vida e tendo gosto do seu lugar.
Na minha terra os pais que escolhem o lugar, mas conheci uma baiana que disse que os pais guardaram seu umbigo até ela mesma ter idade pra escolher onde queria enterrar. Escolheu um canteiro onde a banda da cidade se concentrava pro bloco de carnaval. Hoje a vida da mulher é uma tristeza, aqui nessa terra. Pra você ver. Aliás, ela é baiana, eu não sou, mas todo mundo aqui acha que a gente é do mesmo lugar. Vizinhos de um outro mundo. Já me acostumei a ser chamado de cabeça de cearense e até cabeça de etê. Agora, cabeça de pica, hoje foi a primeira vez.
Paraíba cabeça de pica, foi o que ouvi. Paraíba cabeça de pica e cachaceiro, foi o que ouvi. Paraíba cabeça de pica cachaçando desse jeito só pode ser corno, foi o que ouvi. E ainda ouvi um outro dizer, cuidado que paraíba briga de faca. Eu não sou nem paraíba nem paraibano. Nem nunca briguei de faca. Nem nunca gostei de cachaça. Mas mãe dizia que homem chora pra dentro, se enchendo de cana. E eu só é homem. E mãe disse, hoje antes de eu ir pro serviço revirar massa de cimento e renovar os calos da mão, que Conceição juntou mais um vaqueiro. Um vaqueiro que nunca quis ser dono de gado e nunca deixou nossa terra.
E eu sou é homem. Aqui nessa terra, lá na minha, na qualquer uma que for. Esperei o cara sair, miséria, esperei foi o cabra sair sozinho do bar, podre de bêbado, torei a garrafa e botei no gogó. Depois foi ir na obra atrás da pá, ir na terra atrás do buraco, achar o coto de umbigo e voltar tudo pra trás. Tapei o buraco e comecei outro. Claro, porque defunto que foi vivo fuleiro tem que ser enterrado debaixo de toco de árvore, pra fuleragem não dar raiz. Mas debaixo de toco nunca pode ser junto de coto, pra não agourar a vida do dono do umbigo.
Tapei antes o buraco primeiro, tapei agora a cova do fuleiro e vou voltar pra frente. Vou voltar pra minha terra, juntar com mulher, Conceição ou não, e fazer uma ruma de menino. Vou fazer tudo certo. Enterrar os cotos nas raízes da cajazeira do quintal de mãe, pra criar destino de menino livre pra ir simbora pra onde quiser, mais livre ainda pra nunca ter que ir embora. E pra fazer mais certo que o certo, de agora pra sempre eu só chamo imbigo de imbigo.
