altos e baixos
O carro estacionado muito perto da parede, a um pentelho de distância. Foi esse o motivo da briga, ou, pelo menos, o estopim. Ela, que já tinha implorado inúmeras vezes pra que ele deixasse, puta que pariu, é pedir muito, um espaço determinado e suficiente entre o para-choques do carro que os dois dividiam e a parede dos fundos da garagem, o acusou de indiferença, de desconsideração, de crueldade até. Ele não se lembrava de ter deixado o carro daquele jeito, o que só piorou as coisas. Acabou dormindo no sofá, um gosto amargo na boca, uma festa no vizinho até alta madrugada. Na manhã seguinte, ao abrir a porta do carro, percebeu que a posição do banco do motorista era incompatível com o tamanho das próprias pernas. Antes que pudesse tripudiar, deu-se conta de que tampouco as pernas da esposa caberiam ali, naquele reduzido espaço entre o estofado do banco e o volante. Era como se o carro tivesse sido guardado, no dia anterior, por outra pessoa, alguém de estatura muito menor, mas nem por isso menos meticuloso, menos ameaçador, menos cruel até.
a fada que tinha ideias
Todas as tardes, depois que a empregada estendia as roupas no varal, a menina esgueirava-se pela porta dos fundos da casa e começava a chupar a água que pingava das roupas. Chupava as mangas das blusas da mãe, as barras das calças do pai, os fundilhos das próprias calcinhas. Da janela do sobrado ao lado, o menino a assistia na ponta dos pés. Se dependesse dele, o segredo dela ainda estaria seguro por muito tempo.
e onde quer que eu esteja eu não estou
Muitas vezes ele viu aquele louco e seu andar vagaroso ali pelas ruas do Centro, perto da casa de sua mãe (que um dia tinha sido também a casa dele). O louco usava duas mochilas, uma pra trás e outra pra frente. Tinha tatuagens indistintas nos braços e nas pernas, que eram as partes do corpo do louco que as roupas não tampavam (ou seja, podia ter também outras tatuagens, as quais, se fosse o caso, poderiam ou não ser descritas como o foram as outras, as que eram aparentes: indistintas). Teve também uma fase corinthiana severa, quando passou a vestir apenas o uniforme completo do time, trocou as mochilas, que antes eram infantis, por uns sacos daqueles de carregar chuteiras, e tatuou o escudo da equipe na panturrilha (essa tatuagem, sim, podia-se distinguir). Apesar de louco, tinha dinheiro: fumava um cigarro importado, caríssimo, que não se achava em qualquer padaria; uma vez tinha lhe oferecido um cigarro daqueles dentro da sala de fumar do shopping, que era algo que existia na época em que esse episódio aconteceu, e por isso ele sabia. Lembrou-se de todas essas coisas hoje (agorinha mesmo), quando foi de novo visitar a mãe na casa dela (que um dia tinha sido também a casa dele) e viu mais uma vez o louco e seu andar vagaroso ali pelas ruas do Centro. Pensava em tudo isso, indistintamente, enquanto subia de elevador e, ao se olhar no espelho, não foi capaz de se lembrar do motivo pelo qual aquele louco, que usava duas mochilas, uma pra trás e outra pra frente, era tido como louco, pra começo de conversa.
não espere por mim
O filho da professora de piano, antes de completar dezoito anos, morreu num acidente de carro. Seus amigos encontraram um molho de chaves, entre as quais estava a chave do carro em que se acidentariam, no banheiro da festa em que estavam, no Clube Olímpico. Resolveram ir até o estacionamento e tentar achar o carro, pra dar uma volta. Pretendiam devolvê-lo antes que o dono sequer se desse conta do que tinha acontecido. O estacionamento do clube é imenso, tem cerca de quinhentas vagas, e naquela noite exibia lotação máxima. Foi quase uma hora até encontrarem o carro, um Monza GL. (Junto com a chave havia também uma espécie de chaveiro quadrado com as letras “GM” impressas em dourado, um dispositivo utilizado na época pra ativar/desativar o alarme dos veículos. Quando friccionado do jeito certo, no canto superior esquerdo do para-brisa, ele emitia um sinal sonoro. Os garotos percorreram o estacionamento todo, indo de carro da GM em carro da GM, até que o monzinha vermelho cantou. Bip-bip.) No canto inferior esquerdo do para-brisa, um adesivo de cor cinzenta com o número 97 atestava que tanto o IPVA quanto o seguro obrigatório do carro estavam em dia.
a voz do povo
Estava na ponta do balcão, em pé, no lugar de sempre, tinha pedido seu cafézinho e um pão na chapa, o de sempre, sentia o cheiro do dia começando e ia já perguntar do Freitas, que àquela hora já deveria estar por ali, fazendo piada e contando história, tomando também seu café da manhã junto com os outros homens do comércio, que antecipavam as preocupações de mais um dia de expediente, por isso ele gostava de ouvir o Freitas, sempre ria das asneiras que o Freitas dizia, mas antes que ele pudesse perguntar alguém pediu silêncio pra ouvir a televisão, que anunciava a prisão de Natanael Seixo Freitas, tinha sido o Freitas o responsável pelo assassinato da menina, o assassinato brutal e repugnante da menina, que tinha comovido e chocado a população da cidade inteira. Antes que pipocassem as reações habituais (interjeições de choque, frases de indignação, de negação, revolta, incredulidade, medo e até uma certa sensação de traição) por parte de todos os presentes (ele, inclusive), houve um momento em que o dono do lugar, que nunca tomava parte nas discussões ordinárias daquela freguesia, olhou bem pra ele, que, sem saber o que fazer, sustentou o olhar de volta, e os dois ficaram se encarando em silêncio.
