Michel abre e fecha a boca bem devagar. Seus lábios cheios de pequenas fissuras se soltam do branco grudento que os prendia. Sente nas pálpebras a luz do amanhecer e decide permanecer de olhos fechados. Ouve um estalo ao descolar sua língua seca do céu da boca e depois o raspar ardido pelos dentes. Seu órgão muscular consegue sair sem força, e treme esperando, só com a pontinha para fora, até que as gotas aliviem sua sede. Devia ter consertado as pingueiras antes do verão chegar. Devia ter bebido menos. E não queria nem pensar na dor de cabeça que o esperava.
Michel estava a dois anos de se tornar um coroa. A barba preta e espessa insistia em cultivar alguns pelos brancos que ele procurava e arrancava escondido com a pinça que a mulher guardava na necessaire ao lado das escovas de dente em cima da pia. Os do cabelo ninguém via. Tinha adotado o hábito de usar um boné de aba reta, um pouco para o lado, coisa de moleque, ele sabia, mas que ajudava na sua pose de marrento.
Michel era um homem forte. Desde criança, o corpo troncudo e definido, tinha lhe garantido alguns trocados. Os turistas chegavam e ele estava a postos com seu carrinho de mão para levar as malas. Os viados chegavam e sabiam que podiam pagar para ter a experiência exótica com um nativo. As turistas chegavam e ficavam impressionadas com seu corpo que nunca tinha pisado o pé na academia. Genética boa.
Michel tinha dois filhos que nunca conheceu. Um em Porto Alegre, outro no Rio. Foi um acordo amigável com mulheres solitárias e com muita vontade de maternar e que viram nele a possibilidade de um banco de espermas da vida real. Nunca se importou.
Michel só não queria morrer sozinho. Depois dos trinta e cinco, começou a reparar que todos os seus amigos de infância tinham família e obrigações dentro de casa, até os mais perdidos. Bebiam menos, não iam às festas. Se comportavam para não perder as moquecas e os confortos do lar.
Michel gostava muito de encher a cara. As doses de bebida quente eram sua companhia e permitiam que sua agressividade e sensualidade aparecessem sem pedir licença. Sempre se sentava no fundo do bar da praça, observando os solteiros novinhos da vila e um ou outro homem casado que conseguia escapar da esposa no meio da noite. Não pertencia.
Foi em uma dessas noites de bebedeira que Josy apareceu.
Josyara morou a vida inteira perto da vila, do outro lado do rio, no continente, onde o mar não se faz presente e não impede que a miséria grite nas esquinas. Passou fome.
Josyara era rebelde desde pequena. Em uma casa de cinco filhas, foi a única que nunca sonhou em se casar. Puxou a família do seu pai, que nunca conheceu, mas ouviu dizer que tinha ossos largos. Era grande. Conquistou espaço jogando com os meninos na beira do rio e arranjando briga de facão com quem arriscava fazer graça com sua aparência.
Josyara gostava de meninas. Aprendeu que podia ter poder e dominar sem culpa aquelas que estavam abertas a um pouco mais de carinho, para além da brutalidade da vida e dos homens do interior. Sabia fazer elas gozarem.
Josyara decidiu partir. Já tinha trabalhado como diarista, caixa do mercadinho e até locutora da rádio local. Os chefes, todos homens, a trataram como propriedade e enraizaram uma raiva profunda. Quem sabe o mar poderia curar.
Tamoê é uma ilha paradisíaca. Protegida por corais ancestrais, a maré que invade a praia já chega mansa e quentinha, trazendo peixes, polvos e siris. A comunidade é desconfiada e acolhedora, precisando de novidades e lutando contra mudanças.
Era uma sexta-feira. Michel amanheceu batendo massa para a laje do pastor. O aluguel da betoneira não cabia no dízimo e os homens se reuniram para misturar brita, areia e cimento. Baldes e braços se revezaram para cobrir os oitenta metros quadrados de fundação da futura igreja. Em troca, feijão e caixas de cerveja.
No fim do dia, todos foram para suas respectivas casas e Michel foi para o bar. O corpo doía e a roupa estava cinza e endurecida do concreto sagrado que ajudou a misturar. Decidiu que não precisava de um banho.
Josy era a única mulher por ali. Tinha aparecido por volta das seis da tarde e foi pedindo um litrão atrás do outro, enquanto o bar enchia. Aqueles que entravam, esperavam chegar a primeira cerveja para brindar de longe com a forasteira de cara fechada.
Michel foi direto para o balcão. O copo se encheu e ele virou a dose de 51 em poucos segundos. Mais uma.
— Ei, homem. Pega esse caju pra descer mais docinho.
Josy ofereceu e tirou a fruta da bolsa.
Michel se assustou.
— Cês não gostam disso aqui, não? Achei esses no caminho vindo pra cá. Sei nem como tavam dando sopa por aí. Eu é que não deixo uma coisa dessas passar.
Os dois dividiram a mesa no meio do bar. Michel estava incomodado em sair do seu lugar de costume. Josy estava contente em encontrar um homem que não tentava impressionar.
Dormiram juntos.
Josy também não queria filhos e Michel queria cuidado. No sexo, se divertiam com a troca de papéis e se estendiam nos desencaixes calorosos até que o gozo chegasse na pura exaustão.
Foram meses de muita gritaria até que as coisas se acalmassem. Josy descobriu que Michel era envolvido e o convenceu de que os dois podiam fazer dinheiro sem correr perigo. Ela, longe de ser uma ameaça para as mulheres da vila, foi arranjando bicos de camareira e subiu de cargo como gerente na pousada do pastor. Ele, convencido de suas habilidades com o álcool, fez fama com as melhores caipirinhas da região e era contratado para fazer casamentos e festas de gente chique.
Sem traição.
Até Camila aparecer.
O casal já tinha sobrevivido há três verões e os flertes alheios eram motivo de risadas e chacotas durante as noites de putaria. Michel usava da sua beleza e simpatia para vender mais. Josy estava sempre de olho e sentia tesão por ser ela quem voltava para casa com o gostosão da ilha.
Turista, branca e solteira, com seus belos vinte e poucos anos, Camila saiu de casa para se descobrir. Foi subindo com seu carro automático até o nordeste, encontrando a liberdade que nunca pode ter perto da família nos homens e mulheres de diferentes sotaques do Brasil. Tudo podia.
Em Tamoê não seria diferente.
Camila já sabia que o sigilo fazia parte de sua performance de boa moça. Chegava de mansinho, sem chamar a atenção. Se hospedava em um hostel e, na rua, só se dirigia às mulheres. Aos homens, apenas um comprimento sem sorriso. Sempre funcionou.
Camila nunca tinha tomado uma caipirinha tão saborosa em sua vida. O restaurante na beira mar em que Michel trabalhava tinha a melhor vista do pôr do sol. Seriam dez dias em Tamoê e ela queria provar dez sabores diferentes. Com Michel.
As conversas começaram discretas. O que era umbu-cajá. Graviola. Seriguela e mangaba. Tudo diferente. Tudo muito gostoso. Ele contava histórias sobre pular a cerca do vizinho. Cair da árvore. Levar cascudo. Fascinante para Camila.
Ela penteava o cabelo longo com os dedos e jogava para o lado. Ria. Provocava. Segurava as palavras rebuscadas e ouvia com atenção. Raro para Michel.
— Que horas você sai?
Era o sétimo sabor. Camila e Michel combinaram de se encontrar na praia. Um passeio até o mangue. Ela, turista, ele, guia nas horas vagas. Nove horas de uma noite de lua cheia.
Michel abre os olhos. As gotas que ainda caíam sobre sua face queimada encarando o céu, vinham das folhas do coqueiro na estrada para o cais. Ele reconheceu onde estava, mas não sabia como tinha ido parar ali.
Teve flashes de um dia ensolarado com Josy.
Será que tinha bebido tanto assim? Quanto tempo estava fora de casa? Por que não conseguia se mexer?
Tomou coragem e olhou para baixo. Areia até o pescoço. Braços e pernas enterrados. Imóvel. Sacolejou os ombros finos e sem músculos. Os dedos tocaram os grãos e ele tentou fechar o punho e se apoiar. Afundou mais cinco centímetros. Melhor não.
Josy chamou Michel para fazer um passeio. Os dois mereciam uma folga, ela disse. O carinho tinha aumentado nos últimos dias e ele teve a certeza de que ela não sabia das horas extras que teve que fazer com a turista. Ela já sabia de tudo e tinha decidido que não faria igual as outras mulheres da ilha. Camila iria embora com todos os cabelos lisos na cabeça e Michel receberia a vingança por todos que a machucaram.
O buraco estava bem cavado. Na fundura de um metro e setenta, um pouco menos que a altura de Michel. E cinco garrafas de cachaça, ao longo de sete dias. Esse tinha sido o cálculo de Josy para que alguém, tão acostumado a beber, sentisse toda a dor que ela sentia. E debaixo do sol quente.
