
Como a Criança Cozinha na Polenta (DBA, trad. Fabiana Macchi, selo Risco:Ruído, esgotado, na EV tá 300 paus) é um dos raros livros deixados por Aglaja Veteranyi antes de abreviar sua vida, aos 40 anos. Veteranyi viveu na Romênia com sua família circense até fugirem da ditadura Ceaucescu para um périplo ciganesco pela Europa, terminando na Suíça, onde ela se estabeleceu e começou a escrever, em alemão. Então talvez este livro – narrado por uma menina filha de uma malabarista que se pendura pelos cabelos com um palhaço que não acredita em Deus – seja uma autoficção. A genialidade do romance é como a autora faz com que a gente veja a realidade com os olhos de uma criança: uma realidade ao mesmo tempo mágica, bizarra, doce e violenta.
Como escreve na orelha o editor Joca Terron, “às vezes a infância pode ser uma lente para se medir o mundo, restabelecendo seus valores mais puros, de novo imantando-o de sentido. Mas essa lente pode ser também narcótico poderoso a alterar a percepção da estapafúrdia realidade, ao mesmo tempo tão fascinante e característica da sociedade humana. Algumas obras têm o poder de fixar metamorfoses com surpreendente vivacidade. Dessa maneira esse livro registra a perda da ingenuidade de uma menina e sua progressiva apreensão dos problemas da existência”.










































PROPOSTA
É isso mesmo o que você vai fazer: vai criar um personagem mirim que narra sua realidade.
Não pense tanto em enredo, aqui. Busque encontrar essa voz que se espanta, se fascina, se arregala, se diverte, às vezes tudo ao mesmo tempo.
Você pode usar esta proposta para criar a personalidade infantil de um personagem em que esteja trabalhando, por exemplo.
Então nisso pode tratar da família próxima, de sua realidade, seus hábitos, seus medos, seus sonhos, suas vontades, suas brincadeiras.
Caso a realidade desta criança seja dura – digamos que ela viva em Gaza, ou numa favela, ou em uma família disfuncional, por exemplo -, o contraste entre sua perspectiva realista e sua percepção mágica pode redundar em uma narrativa irônica e surpreendente, como a de Veteranyi.
Claro que, se quiser, você pode contar uma história, aos poucos, de modo meio atmosférico, quase sem querer, situando os personagens e situações que gravitam ao redor desta criança, até que sobrevenha um desfecho imprevisto.
Inclusive você pode se inspirar nesta forma de narrar de Veteranyi, com frases soltas e aparentemente desconexas, até que surjam definições impactantes e improváveis.
Conte na primeira pessoa, no presente do singular, em até 9 mil toques.
