Roberto Efrem Filho
Fazia um par de meses que a campainha da quitinete de Aparício andava sem funcionar, de modo que, apertasse o botão o quanto apertasse, Ofélia não conseguia fazer-se ouvir. Do outro lado da porta, uma risadagem larga preenchia o ambiente e o calor do início da tarde. Os risos misturavam-se então à zoada da louça sendo lavada e ao som alto de uma música que Ofélia não conhecia. Sem resposta e sem reconhecer a voz do seu filho, Ofélia chegou a duvidar do número do apartamento. Percorreu, indo e voltando, o corredor do décimo quinto andar do Edifício Módulo em busca da porta certa. Era um sábado, Aparício tinha de estar em casa. Ofélia sabia, era isso o que ele fazia religiosamente após as aulas na Universidade Católica: recolhia-se para almoçar e cochilar antes de flanar pela noite duvidosa do centro do Recife.
A porta do apartamento 1505 estava aberta, apenas uma grade se punha entre o corredor do prédio e a pequena sala de estar. Nela, Ofélia divisava um sofá de camurça bege posto diante de uma estante baixa, de compensado barato, sobre a qual um aparelho de televisão dividia espaço milimétrico com um vasinho de vidro e flores de plástico. Alaranjadas e azuladas, as florezinhas enfeitavam também um biscuit em formato de ganso, disposto sobre um paninho branco bordado, numa mesa de fórmica. Ofélia então se perguntava se deveria aproveitar a porta ali aberta para chamar alguém, um vizinho talvez, pedir ajuda. Não conhecia ninguém naquele lugar, jamais estivera ali ou dera cabimento a alguém que ali vivesse. “Olá, boa tarde. Por obséquio, posso pedir uma informação?” Enquanto esperava resposta, Ofélia concluiu que somente tomara coragem para pedir ajuda porque, veja bem, aquela casa era toda tão arrumadinha, ninguém de má índole manteria um ganso tão simpático numa saleta de jantar.
“Já vai. Um minuto!” Uma mulher negra de uns setenta anos, quase a sua idade, o vestido encharcado à altura da cintura, saiu de um cômodo que Ofélia supôs ser a cozinha. “A senhora desculpe a demora. Eu vinha no tanque, lavando a roupa da semana”. Ofélia estranhou. Imaginava diferente a moradora daquela casa simples, mas muito jeitosa. “A sua patroa está?”. A mulher achou graça. “Eu vou dizer uma coisa à senhora, madame. Olhe, meu falecido marido só me chamava de patroa quando sabia que tinha feito merda”. Ofélia pareceu não entender. A mulher completou. “É que a única patroa que já pisou aqui foi essa, a mulher do meu falecido marido em dia ruim”. Empertigada sobre seus saltinhos Anabela, Ofélia ensaiou desculpar-se, era um mal-entendido, ela não pretendia ofender. “A senhora precisa mesmo do quê?”. Constrangida, Ofélia explicou que estava atrás do filho mais velho, que ele não dava sinal de vida e não atendia a seus telefonemas há semanas. “Mas eu me enganei com o número do apartamento. Eu podia jurar que era o 1501, mas não é”. A mulher franziu a testa como quem discorda. “Aparício, a senhora conhece? Um homem já com quarenta anos, sempre muito alinhado, professor e jornalista”.
“Aparício mora no 1501 mesmo, Dona Ofélia. Seu nome é Ofélia, não é? Eu me chamo Isadora. Satisfação, viu? Seu menino fala muito da senhora”. Mais uma vez, Ofélia pareceu não atinar. Havia intimidade demais no jeito como aquela senhora se referia a seu filho e a ela própria. Nada desse trato combinava com a distinção e a reserva que Aparício arrastou por toda a vida. Nada naquele corredor combinava com Aparício. Verdade é que Ofélia nunca aceitou a decisão de Aparício de viver ali, logo ali, naquele alvoroço suado, fedido e viscoso do centro do Recife. Dos três o filho mais próximo, Aparício bem que poderia haver gasto o que lhe coube da herança do pai no financiamento de um apartamentozinho em Casa Forte ou nas Graças, vizinho à mãe, numa região da cidade mais frequentada por gente do seu tipo. Lá, ele poderia levar Ofélia às compras, acompanhá-la à missa, tomar um táxi aos domingos para almoçar seu prato favorito no Leite. Mas não, “prefiro morar perto da Católica e do jornal, mamãe, eu já lhe expliquei, a senhora sabe que eu não dirijo, imagine ter de entrar num ônibus todo santo dia para dar aula na universidade!”. Ofélia recebia mal os argumentos do filho mais velho, sabia que não correspondiam precisamente à razão de ele morar no Edifício Módulo.
“Então o meu filho não deve estar em casa, não é, Dona Isadora?”. Isadora voltou a franzir a testa e, portanto, a discordar. “Aparício tá em casa sim, Dona Ofélia. Ele não só tá em casa como tá ouvindo Maria Bethânia, olhe aí!”. Ofélia se atordoou enquanto tentava alcançar a voz grave e rouca que disparava da radiola do apartamento. “Afrânio passa o dia inteiro ouvindo Maria Bethânia. Ano passado foi Angela Rô Rô. Mês que vem, eu aposto que é Joana”. Ofélia amparou-se na grade do apartamento de Dona Isadora, a gola de seu tailleur empapada de suor e ansiedade, o linho amassado de angústia e desconhecimento. “Aparício, a senhora sabe, é daqueles que escutam o disco até furar”. Ofélia não sabia. Aparício não tratava de certos assuntos com a mãe. Ela os conhecia da boca miúda, do disse me disse, das ofensas que Afrânio, o seu filho caçula, ladra quando a mãe o interpela, bêbado e trôpego de zona, acerca das dívidas que adquire e cons0mem o que sobrou do patrimônio familiar. “Aquele frango do Aparício podia parar de falar merda pra senhora. Ele não gosta tanto que metam na bunda dele? Pois podia pegar tudo o que ele acha da minha vida e enfiar no cu!”.
Ofélia se ressente do linguajar de Afrânio, da maneira como se refere ao irmão. Não que ignore as inclinações do filho mais velho, sabe delas há muito, mas aprendeu ainda há mais tempo que nem tudo o que existe deve chegar à palavra, tornar-se dito, fazer-se verbo. Nem todo gesto se principia na sintaxe. Ofélia mesma não disse sílaba sobre os olhos que o caseiro Antônio fixava em seu decote naqueles finais quentes de manhã de janeiro de 1947. Enquanto Josefa, a esposa de Antônio, cuidava do almoço na cozinha da casa grande, Ofélia procurava o varal para pendurar suas camisolas de seda, convencida de que, do terreiro, sob os cajueiros e os jambeiros, os olhos de Antônio a persuadiriam alva e tesa de cobiça e ressabio. Ofélia era mãe dos seus três filhos, uma senhora de trinta anos que julgava nada conhecer da carne a não ser o que seu marido a impunha, suas obrigações maritais. Acontece que nada em seus lençóis ardia como a faziam arder os olhos de Antônio, o dorso nu, suado e negro, resplandecente sob o sol de quase meio-dia. No instante primeiro em que se deu conta daquele olhar, Ofélia deixou derrubar no chão as anáguas que tentava subir à corda do varal. Antônio repreendeu-se pelo avanço indevido sobre o corpo da patroa, até que se deu conta de que Ofélia sorria tímida, tocando os bicos do peito entumecidos com as pontinhas dos dedos, já de anáguas em mãos. Foi com a língua de Antônio entre os lábios ocupando a sua memória daquele final de manhã de janeiro que Ofélia, trancada no banheiro do quarto de casal, tocou-se. Ofélia, que jamais havia-se tocado, tocou-se no instinto e no deslize. Defronte do espelho emoldurado em madeira nobre, apoiada sobre o mármore do balcão da pia, os dedos finos e brancos de Ofélia trouxeram às suas coxas o tremor que, ela imaginava, o confronto com o sexo de Antônio poderia suscitar. Ofélia estava sozinha, suada e suja. Deparou-se com seu sorriso no espelho, exausta de prazer e medo.
“Aparício, meu filho, abra a porta. Sou eu, sua mãe”. Convencida de que Aparício encontrava-se em casa, Ofélia finalmente bateu à porta do 1501. “A campainha está quebrada, Dona Ofélia. Bata com força. Bethânia canta alto demais!” – Isadora a orientava pelo corredor do prédio. Quem abriu a porta, porém, não foi Aparício. Em seu vestidinho de tafetá verão amarelo que se movia buliçoso com o vento das janelas do décimo quinto andar, Elisabete ainda gargalhava quando encarou a velha senhora na soleira da porta. Havia décadas que não encontrava Ofélia. Na última vez, Elisabete sequer Elisabete era, tampouco saberia Elisabete ser. Não passava de uma figura obsequiosa e assustada cujo ato de ousadia inaugural foi apaixonar-se pelo desembargador que visitava as terras da família de Ofélia e Aparício. Apaixonando-se ou crendo apaixonar-se, Elisabete pôde deixar as terras, os engenhos de cana-de-açúcar, seus pais e sua irmã para trás em direção ao desembargador e, com ele, à mulher que haveria de se transformar – com a devida ajuda de bons silicones e caros presentes, é claro.
“Boa tarde, Dona Ofélia. Que boa surpresa. Aparício, venha cá, coração. Deixe essa louça que eu termino de lavar. Sua mãe chegou”. Se Ofélia estranhou Isadora, aquela mulher que agora a recebia no apartamento de seu filho tanto lhe provocava incompreensão quanto lhe recordava a beleza. Elisabete, os cabelos castanhos presos em coque alto, não era uma mulher bonita como foram as mulheres bonitas com quem Ofélia conviveu – ela particularmente nunca se pensando como uma delas. Elisabete mantinha os ombros largos, as ancas altas, a pele amarronzada e doce, uma boca violenta que trazia a Ofélia a recordação vívida de Antônio. “Eu conheço você, minha filha?” Elizabete preferiu escapar à pergunta. “Faz muito tempo, Dona Ofélia. Eu era outra pessoa. A senhora não vai lembrar. Até eu me esqueço”. Ofélia ainda se perdia nos traços de Elisabete quando Aparício, deixando a louça do almoço, chegou à sala do apartamento.
“Mamãe, a senhora aqui?” Diante da porta escancarada, tentando despregar os olhos de Elisabete, Ofélia até vê, mas desconhece Aparício. Está certa de que o homem diante de si também gargalhava segundos antes de ela bater à sua porta. É que Aparício preserva, na boca, a réstia daquele riso, seu sobressalto. Há fulgor nos modos deste homem. Em seus pés descalços numa tarde de sábado de janeiro, a camisa de viscose entreaberta, uma mão num pano de prato, a outra num copo de cerveja, Bethânia completando a sala, expandindo-se da agulha do passa-discos para os quinze andares do Edifício Módulo. Ofélia antevê o filho acanhado, supõe que Aparício nunca a imaginaria ali, no umbral de sua quitinete. Neste anos todos, é verdade, não houve dia em que Ofélia o visitasse. Entre suas desculpas, esteve sempre ocupada com os processos judiciais relacionados ao inventário e à herança, à propriedade dos engenhos, a seus arrendamentos e dívidas trabalhistas. Fato é que Ofélia foi-se entrincheirando, resoluta da distância necessária às escolhas de Aparício, àquele seu “estilo de vida”. Contentava-se com os telefonemas diários que ele lhe fazia às 19h, no intervalo das novelas a que ambos assistiam e sobre as quais comentavam em toda ligação. Tinha, porém, consigo a imagem do seu Aparício inseguro e rancoroso, um sujeito que, ao decidir perfilar-se na corda bamba de uma vida dupla, negando-se gana e a menor chance de felicidade, jamais saberia sorrir. Da posição que ocupa no corredor, contudo, enxergando-o sob a luz que atravessa os cobogós do Edifício Módulo, é com um sorriso cheio que Ofélia se depara no rosto do seu filho. Um sorriso que, agora ela descobriu, Aparício herdou do seu. “Entra, mamãe. Termina com a gente essa garrafa de Brahma”. Ofélia se deixa sorrir.
