Alguns dos personagens foram descritos no texto Vizinhança. Leão e Deolinda são vizinhos, amigos de infância, ambos com 20 anos de idade.
A conversa não foi fácil. Derrubada da posição soberba de testemunha, lamentei Leão desejar ir embora, frustrado pela incapacidade de fabular o que sentia. Ao se levantar, ele deu um pulo trincando o pé em cima de uma barata. Matou a infeliz com certo asco, depois com alguma vontade e terminou com um cruel prazer. Diante da carapaça esmagada fitou o inseto com pesar, agachado, os olhos fixos nas miudezas agonizantes, a queratina disforme, as perninhas colapsadas deixando aos poucos de se movimentar, os excrementos, a urina. Teve vergonha dele mesmo. Uma desonra diferente, racional. O desgosto de quem faz algo errado com a consciência que é errado e por saber ser errado não deveria ter feito. Derreteu-se entre lástima e dúvida: teria sentido a barata medo ou dor? Dentro do seu universo, morrera de forma rápida ou eterna? A posição de gigante pesou na injustiça de aniquilar um ser pequeno. Nojento sim, vivo e frágil também. Leão se desmantelou na frustração de não ser ele, ali, destruído no chão, morto no lugar dela.
O ato de matar avivou algo anestesiado em Leão. Um flash que desenterrou um fragmento de seus sonhos. Há tempos se esforçava para recordar o que se passava entre seu corpo e a madrugada nas poucas horas que dormia. Apagados pelo disparate do acordar, os resquícios dos sonhos não eram todo abandono e cada manhã conservava um resto de instinto, um rastro de cheiro, uma vaga insinuação que guiava sua busca pelo restante do devaneio perdido. Lembranças que o acompanhavam por meio de vozes que o convenciam a passar o resto da vida sozinho. Distante. Esquecido dos barulhos. Das pessoas. Do próprio nome.
Durante o dia fugas desmembradas se faziam presentes na forma de sustos. Pistas que em um milésimo de segundo estavam visíveis, à mão, à vida. Leão anotava com letra miúda qualquer vestígio para assim talvez consumar o que sonhava, mas estava longe do quebra-cabeça completo. Os filamentos desconexos incendiavam a angústia ao ponto de ebulição. Leão respirou cortado e foi-se. Voltou uma dezena de passos depois. Lúcido, desembargado, não mais assustado que radiante, seus braços tocavam o céu.
– Lembrei do sonho.
(…)
Parado, me olhava esquivo. Sem cogitar o medo agarrei o menino. Reboquei Leão para minha casa. As roupas no chão denunciaram somente o meu entusiasmo. Tudo NÃO se deu de uma forma dolorosa. Eu tentava explorar o corpo dele, ele controlava os ponteiros do relógio. Na pressa dos dedos, na resistência das mucosas, minha chance de perder a virgindade sucumbiu em uma inesperada mudança de planos. Nu, Leão havia se transformado em outra pessoa. Nem melhor, nem pior, incoerente. Não mais aquele que costumava ser, ou quem eu presumi a vida toda que fosse. Evitando tocar em mim, encostou com repulsa o dorso da sua mão na minha testa, vibrando um pesar de que o pior estava por vir.
Também agradeceu algo com a voz chamuscada, e eu não entendi o quê. Pedi que repetisse a charada mal decifrada e recebi uma risada sem som. Remando contra a própria desordem, Leão partiu com mãos leves que acenam o adeus de quem se abandona. Desfeito do fardo de existir flanou nu pela rua como se hoje já fosse passado. Derramado, cerúleo, ignorou que já era manhã. Ignorou conhecidos que o abordavam com esquivas de quem dribla o adversário no futebol. Assobiou uma melodia aguda inventada na hora. Notou estar mais magro e que a pele descorava, igual a uma fotografia colorida que desbota exposta à luz.
No chão, eu observava uma borboleta preta que lutava para se desprender da janela. Tive a visão de Leão entrando em sua casa. A passar a mão na toalha bordada que Annabel costumava cobria o baú, sentindo os dedos quentes da mãe. A vislumbrar a mesa posta, o irmãozinho rejeitando a sopa, o pai impaciente com a colher em riste. A mochila de Rodrigo pronta para ir embora, a simpatia pneumática do irmão aprisionada nos porta-retratos. Absorveu as lombadas dos livros na estante, alguns lidos por todos, outros eternamente fechados. No vaso as flores ainda bonitas, já sem perfume, quase passadas do ponto. Velou os pais que dormiam. De braços abertos carimbou a parede da sala fossilizando o abraço de despedida. Somente percebi que o adeus era a sério quando ouvi Leão segredar quatro palavras que atiradas ao ar caíram em cima de mim com o peso de uma sentença condenatória:
– Até um dia, Deolinda.
Do outro lado do espelho Leão encarou a si mesmo, inteiro, sem lamento ou perdão. Depois afastou as cortinas e se esvoaçou na oração coreografada da lua que dá rumo e proteção aos navegantes noturnos. Deitado na cama focou o teto até desaparecer em um sonho. Tentei visualizar seu rosto e não consegui.
Um dia é quando?
(…)
Acordei aos solavancos e brados que oscilavam entre o rugir de um urso e um porco assustado. Na minha frente ela estava desfeita. Cida, a Mulher-Exército, se debulhava em lágrimas altas de recém-nascido. Choro de velório, previ desgraça.
– O menino morreu.
Confundida pela voz da empregada, campeã das preposições confusas e pronúncias erradas, pedi que repetisse a frase para assim talvez justificar meu engano. Novamente ela me sangrou a pena capital:
– Leão morreu.
Ateia e estática, eu me resumi não balbuciado em círculos sem convicção. Na fúria irracional de quem vinga os seus do inimigo, voei para cima da loira como se a morte dos que amamos fosse motivada pelo do portador da notícia. Arranhei seu rosto, puxei tufos dos cabelos. Fui empurrada. Caí.
Recomposta, nem por isso calma, com o queixo apoiado na perplexidade, corri até a casa vizinha. A sala se encontrava abarrotada por uma turba de incrédulos sem lógica no que falavam, sem clareza no que ouviam e que não atinavam ao certo o que acontecia por lá. Abri espaço, entrei. Se o ar inalado era elétrico, o exalado reverberava metálico e o quadro de horrores era pior que o inferno dantesco. No quarto, a cama com o corpo de Leão achava-se ao alto, com os quatro pés sacudidos no ritmo dos gritos de Annabel para que o filho acordasse. Irritado, Rodrigo, em um sentimentalismo tétrico maldizia o irmão morto o chamando de egoísta, afinal uma pessoa decente não escolhe morrer em um dia no qual os outros estão de ressaca.
– Tenham dó é de mim e parem com essa choradeira.
Cassiano, indiferente do que acontecia na própria casa, relaxava na cozinha, preparando um drink bem forte. Alegava que a celeuma era desnecessária e tudo não passava de um engano. O filho vivia. Estava de olhos abertos.
(…)
Os cânticos e as rezas de Annabel velaram Leão de uma forma tão calorosa que o menino não esfriou. Deitado de rosto ao lado encarava a todos com uma liberdade que jamais viram nele em vida. Trataram o falecido com todas as honras e o cheiro das flores era desfalecedor. Cassiano arriscou tocar os cabelos do filho. O corpo teve espasmos, seguido de rangidos e flatulência. Dizem, inclusive, que o morto teve uma ereção.
Mantiveram-no assim por sete dias, à conta da insistente visita de desolados que imploravam uma última homenagem de última hora. A cada dia o corpo esfarelava um pouco e reduzido a um punhado de flocos, o fim foi declarado. Leão já era nada, a mesma medida de esperança que restava a todos para que ele despertasse. O grande problema da casa cheia é que um dia ela esvazia.
Cida, a Mulher-Delicada-Feito-Uma-Mula, coordenou com berros e perdigotos a logística do enterro. No caixão Leão se transmutou em uma alegoria imaterial, descrente, uma fina poeira amarelada salpicada em um fraque de noivo doado por algum enlutado desconhecido. No desfecho do funeral Annabel implorou dar o último beijo no filho. Suspenderam as pás prontas para deitar a terra na cova. A tampa do esquife aberta agitou as folhas das árvores lançando o pouco do que um dia fora Leão ao espaço. O pó, queimado ao vento dispersou cores, ofuscou luzes pulverizando o ar com um perfume que fixado nas peles deixou por muitos dias um aroma agradabilíssimo. O que foi grande susto para muitos e um momento sublime para poucos. Enterraram o caixão vazio e nunca mais ninguém tocou nesse assunto.
(…) 15 anos depois
Perto da nossa rua mas longe dos nossos olhos e bem afastado das nossas rotinas havia um terreno baldio. Um local ermo, obscuro, habitado por um homem conhecido apenas como Mendigo, e nada mais.
Mendigo não tinha família, idade definida, documento que o identificasse ou papel que contasse sua história. Estava ali há anos os dias sem fazer existir sua presença. Toda vez que uma criança perguntava sobre o mistério que o cercava, a resposta dada era sempre a mesma, dita seca e rápida:
– Ele é pobre.
Isolado, Mendigo dormia o tempo todo e quando acordado sonhava aterrorizado com a vida real. Sua solidão e silêncio eram quebrados a seu contragosto pela religiosa visita de um gato velho, preto e branco, rafeiro, que vagava por aquelas bandas à procura de alimento, conforto ou carinho. Todos os dias o bicho vinha, averiguava os cantos da tapera atrás de alguma novidade. Encontrando o oposto do que almejava receber, ia embora lamuriando um miado raivoso com a convicção felina de ter sido enganado mais uma vez.
Mendigo passou a considerar a insistência do animal. O gato plantou a dúvida. Haveria ele perdido algo ou alguém? O miserável forçou a abertura da sua antiga caixa de memórias. Delírios, pensamentos vagos vieram à tona. Quimeras de fantasias, outrora reais, hoje dormentes evocaram as emoções renunciadas quando sentiu na pele que esses afetos são destinados apenas às pessoas limpas e agradáveis, comumente ditadas pela sociedade como normais. A descoberta gerou nele uma descarga elétrica. Ao sentir o choque, Mendigo urrou, assustando o animal que pulou no seu colo arranhando o pescoço. O calor e o toque o recordaram da sensação de ser abraçado. No refluxo do bem querer, deixou cair da boca o cigarro de palha. Apagou a brasa com o pé descalço, em giros precisos, suaves, como uma bailarina compenetrada que enfia uma sapatilha nos dedos feridos, prestes a estrear em um novo palco. Mendigo já não se lembrava do próprio rosto, e a súbita intimidade entre os dois fez com que Mendigo enxergasse nos olhos do gato sua imagem, em um espelho que reflete quem desaparece na luz e se sobressai na escuridão. Com os passos hesitantes de uma criança ele desandou a caminhar. Olhou para trás, observou a sombra. Não sabia quem era, mas jamais voltaria a ser quem foi um dia. O mesmo corpo de antes embrulhava agora a sua pior versão. Irredutível, severo, a contrição lapidada pelo tempo daquele que um dia abandonou tudo para se tornar um erro.
(…)
Minha mãe, que não dormia nunca e estava na rua desde a noite anterior a aprontar seus mexericos e confusões, percebeu incomodada a chegada de um homem acompanhado por um gato, ambos determinados e bem atrevidos. Caminhou até eles desafiando o Mendigo, que igual ao bicho tinha um olhar desumano e insistia calado diante de tantas perguntas. Passada uma longa acareação, ela decifrou o segredo. Pulou eufórica como se o chão fosse feito de molas, agitou os braços pedindo socorro. A arma encostada em seu peito baleou seus sentimentos com surpresa e encantamento. Antes de morrer falou baixinho:
– Leão voltou.
