Embocadura (excerto Deolinda)

Sou Deolinda. Deolinda Boaventura. Mas não me chamam pelo nome, porque ninguém conversa comigo. Também não falo muito. Estranho uma sem voz ser a narradora desta história. Uma garota de pensamento acelerado e intelectualmente limitada. Desconfio que não seja, mas desde sempre ouvi que era. Marlene diz isso. Marlene, que quase nunca é minha mãe. Uma pessoa difícil no sentido mais difícil que a palavra difícil pode ser interpretada.

Moramos em um lugar popularmente conhecido como longe. Um naco de terra sem famosos dignos de nota. Sem limites com cidades reputadas. Sem tragédias de jornal. Chegar aqui demanda um bom faro. E algum desespero, paixão para visitar alguém, pernas fortes e boa vontade para entregar carta ou encomenda. Um muro baixo separa minha casa da casa de Annabel e Cassiano. Baixo, o muro é inútil. Pulado sem esforço. As portas descarecem de licença para entrar. Em uma ou duas esticadas de pescoço uma casa mergulha nos gestos da outra casa, na gaveta dos pijamas, no armário dos remédios, nas asperezas. Nos fantasmas. Nas janelas cansadas da vista para a vida dos outros, os arames farpados não deixam ninguém impune.

E há o resto da vizinhança. Que é pior do que nós. Um bando de despojados das próprias existências cuja dedicação maior é cuidar da vida dos outros. Seja meia-noite, madrugada, dia santo ou domingo de festa, há sempre um olho comprido por trás de uma cortina afastada. Seja de quem for, todo ato ou fala vem escoltado por críticas. Negativas, claro. Desde o que se dá como sucesso até o que é de fato fracasso. Onde opinar sobre qualquer assunto soa ofensa, o menor elogio culmina em escândalo. Das desforras pessoais às vinganças coletivas aqui é o vale tudo das desavenças. Defender uma ideia ou expor um gosto exige coragem, a cacetada é certa e não tarda. Vez em quando, quase nunca, surge um vizinho de mente iluminada. Adepto do deixa disso, dá às costas ao tititi, mas a claridade dessa pobre alma antagonista é apagada em pouco tempo.

Eu apenas observo. Tudo. Quieta no meu canto, protegida pela fama de parva, confabulo somente com meu demoniozinho interno. Um voyeur de infernos, minucioso e profundo, sulfuroso de sombra e veneno sempre com um bem-feito! pronunciado entredentes. E é de camarote que celebramos juntos a queda de cada tijolo. Tanto faz de quem seja a casa que cai.

– Você é má, murmura minha mãe com toda a sua estranha certeza.

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Annabel e Cassiano se desentendem com frequência. Para esse mal-estar já não há esperança. À luz do dia ou sob a lâmpada da decadência, as discussões, que nunca foram amenas, seguem cada vez mais temperadas. Variam entre vozes altas e louça partida. Uma gata prenha prestes a parir foi o estopim da última discórdia. Cassiano mencionou adotar a pobrezinha > Annabel defendeu a integridade da mobília > ele ficou chocado com a descompaixão da mulher > que revidou com as prestações restantes para quitar o sofá. Os objetos arremessados respeito afora sempre garantem a diversão da criançada, espertas e já separadas em times para agarrá-los ainda no ar.

Marlene vibra com aquilo. Não perde um capítulo da novela da casa ao lado. Sangra olhos e cotovelos na intromissão. Imagino Annabel afundada nas almofadas, recolhida do vexame conjugal. A única daqui a ter uma fração de classe, embora em alguns momentos perca um pouco da gentileza. Nem o apagar das luzes anunciando o término do espetáculo é capaz de descolar a testa da minha mãe da janela na sua necessidade de absorver até a última gota do atrito da casa vizinha. Triste papel que minha mãe se presta quando reage ao zunzunzum com o dedo esticado em sinal de psiu, de pescoço torto, babando peçonha com um matinho no canto da boca. Não tarda seu pequeno prazer se transformar em decepção: Annabel e Cassiano saem braços dados e cara lavada.

– É briguinha boba, todo casal tem.

Marlene vira o diabo. E não pisoteia o inferno sozinha. Não importa o blá blá blá do somos todos diferentes, no fundo do cu do Judas a lama é igual. Quando a falta de vida útil subtrai o estímulo resta a sobrevivência. A bula de uma rotina sem sorte cuja duração é a eterna espera pelo fim: morte incluída, enterro e abandono das memórias, que misturadas com esterco adubam a pretensão de brotar algo produtivo nessa terra sem lei. Em uma vida onde nada muda o futuro demora a chegar, atrasado pelo tempo que não passa.

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Descabido ou pertinente, o maior incômodo de Marlene é a música. Ópera, no caso. O que não seria um problema se Cassiano não tivesse o hábito cantar a dita cuja ao acordar, oscilando os compassos estridentes com gestos exagerados, como uma criança que brinca de ser estrela internacional. E as esquisitices de um somadas às extravagâncias do outro formulam a química perfeita capaz de transformar uma manhã algo mais complicado do que deve ser. Ele mal abre a boca, minha mãe paralisa. Não tampa as orelhas e sim os olhos. Depois retruca, gritando. Assim se dá o início de mais um duelo das matracas afiadas. Que começa cada dia mais cedo.

Marlene, que não dorme nunca, se enraivece com o sono dos outros e rosna de olhos abertos para o vizinho o pesadelo que não sonha. Cassiano ataca sem dó. Opera o canto na insuficiência do vocabulário. Sem sobriedade Marlene, faz do berro sua última resposta.

O vozerio da minha mãe é grave. Impõe respeito, vale por dois. Ao perder Cassiano rouba no jogo. Reclama socorro à Annabel, que mais atrapalha do que ajuda. Desafina na mesma desgraça, incapaz de acompanhar a melodia. O tiroteio de vozes do inferno estilhaça o silêncio, instala o caos e vitima o decoro, o bom-humor, o bom-senso, aporrinhando um a um os sonolentos que por acaso ainda se atrevem a estarem na cama. Como eu, por exemplo. Que já acordo desejando que todos morram, mas conto até dez e me contento em dar apenas bom dia.

Desafetos mortais desde sempre e porque sim, a indisposição entre eles é intensa, mas tem validade somente no campo do bate-boca. Marlene ladra e não morde, Annabel não necessita de algemas, Cassiano não oferece perigo à sociedade. E isso não é de hoje. Embate antigo. Vinte e cinco anos de picuinhas, com Jubileu de prata comemorado em grande estilo. E que eu saiba, houve sim um período de paz. Única e misteriosa, a maré mansa. Que ocorreu por volta de quando eu nasci. Ou tinha um ano. Ou um pouco mais. Nunca soube ao certo. Uma história tão mal contada que sou incapaz de distinguir a verdade da maldade. Não que eu haja alguma diferença nisso.

Dizem que foi de uma noite para outra que as casas vizinhas ficaram de bem, como Cassiano prefere explicar. O hiato pacífico entre as prima-donas de casa enfurecidas durou cerca de um ano, e eu, pasmem, fui entregue pela minha própria mãe à Annabel. Vivi esse período na casa ao lado, fui criada como parte da família deles. A situação, que isolada já seria estranha, foi agravada por um detalhe que perturbou a razão coletiva: essa comunhão fazia gosto apenas para Annabel. Que não só detestava Marlene, como também era odiada por ela.

Enigmático o cessar-fogo. Através de inúmeras fórmulas e artifícios, a vizinhança tentou decifrar o porquê e o por causa de quê da contestável trégua. Nada. Quanto mais questionavam, menos descobriam. Nada. Fervidos de curiosidade, certos de haver algo tão errado quanto propositadamente escondido, afirmaram que tal conciliação era dissimulada, exigindo satisfação sobre o real motivo da bonança. De novo, nada. Até que um ano depois, talvez enfadadas pela paz miniatura, Annabel e Marlene retomaram o rumo da guerra. As ofensas pessoais voltaram, mais fortes e indóceis do que antes. E os vizinhos perdidos se embolaram de vez na tarde em que Marlene pulou o muro, entrou na casa de Annabel e Cassiano, me tomou nos braços e me levou de volta para meu verdadeiro lar.

Chorei muito ao ser separada de Leão, a quem me apeguei por ser apenas um ano mais velha. Tudo isso eu sei via fofocas. Minha mãe tem pavor de tocar no assunto comigo. Descobri também que na época a vizinhança não se conteve. Era muito mistério para nenhuma satisfação. E a cada pergunta feita ou palpite desautorizado, a pronta resposta de Annabel se dava na sua cara fechada, contrapondo Marlene que se enrolava em discursos bêbados, sempre com ares de chefe de estado. Na réplica Annabel deve ter explanado algum motivo razoável, mas seu palavreado rebuscado no entendimento dos que nunca passaram na porta de uma escola equivaleu a um zero à esquerda. Expressão, aliás, incompreendida por todos e facilitada por ela como zero, apenas.

De uma porta à outra a vizinhança seguiu enlouquecida atrás de informações. Destituída de argumentos e baratinada na retórica, Marlene treplicou da forma mais burra. Descortinou sua beleza na janela, deu um desenxabido aceno e voltou a se fechar, muda, sem insistir em sua defesa, como uma princesa que acata de forma covarde o destino de morrer reclusa na torre.

Annabel e Marlene sustentam até hoje um pacto silêncioso sem ponta solta que desenrole o nó formado na cachola dos abelhudos. Desdobrados em falas escusas, os vizinhos ainda chispam versões do acontecido. Um alvoroço que dá palco e ultrapassa a linha da oratória, onde os personagens, protagonistas e coro, as cenas, as falas, preenchem páginas e páginas de um mirabolante roteiro que a cada dia se alterna entre tragédia grega e comédia de portas.

 É sobre esse teatro que eu tenho urgência em falar.

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