Parede suja

Mainha disse pra tia Janice que eu pintava a parede com meu cocô quando eu era bebezinha. Elas tão as duas juntas resenhando na cozinha e eu ouvi daqui do quarto tia Janice pegar uma latinha vazia de cerveja, cortar com a tesoura e acender o pó de café dentro, que nem mainha faz pra expulsar as mosca azul. Mainha tinha saído mais cedo pra comprar lambreta. Voltou pra casa de blusa de decote e shorts curto dizendo que o desconto que Zé fez ia custar caro e que não era pra eu falar nada pra ninguém. 

Meu pai tinha saído para mergulhar.

Tia Janice mora na cidade e sempre que ela tá chegando eu já sinto o cheiro de fumaça de longe. Ela gosta de fazer uma chaminé com a boca e soltar bolinhas na minha cara. Parece bolha de sabão, mas não brilha e não é tão transparente. Mas parece. Ela bebe muito e sempre diz que um dia vai me levar pra cidade e a gente vai no shopping e que no shopping tem o maior parquinho que eu já vi na vida, igual do desenho. Mainha dá muita risada com as histórias da tia Janice e diz que um dia também vai aprender a gostar de mulher e a vida vai ser mais fácil.

Mainha falou que desde que eu nasci a casa tá sempre pestiada de mosca azul. Deve ser por isso que ela fala que eu tenho que tomar banho toda hora pra ficar sempre limpinha, porque senão ninguém vai querer ser minha amiga ou ficar perto de mim. 

Nem meu pai. 

Eu não gostava de tomar banho até o dia que eu descobri uma brincadeira nova, mas isso é segredo. Foi ontem, ou ano passado, não sei. Mas eu tava esfregando a minha periquita e apareceu um carocinho bem ali. Mainha tava na sala assistindo com volume alto e meu pai tava falando alguma coisa sozinho lá do quarto deles, acho que era de algum peixe que tinha fugido por pouco. Levei um susto, mas não gritei. Mainha ia ficar retada se eu atrapalhasse o filme. Fui bem devagarinho passando a mão e vi que era uma pelinha que tinha por cima. Deu arrepio e coceguinhas. Agora eu entro no banho e lavo tudo direitinho e esfrego o carocinho pra ele ficar bem limpinho também. É bom.

Acho que deve ser que nem essas coisas que cachorro faz e a gente não sabe porque ele faz, mas parece que ele gosta. Tipo dar a volta no próprio rabo. Tipo passar embaixo da rede e sentir o tecido molinho nas costas. Paçoca faz sempre isso e mainha acha graça e depois faz carinho. Um dia eu posso contar do meu carocinho pra ela e ela vai rir e coçar minhas costas pra eu dormir. Eu acho.

Mas agora é melhor não. Mainha diz que eu atraso a vida, que sou bicha lerda, pior de que Paçoca. Eu acho que são os adultos que fazem a gente esperar demais e deve ser por isso que eu não sou tão rápida como mainha queria. É esperar cantar parabéns para comer o bolo. Esperar a chuva passar pra ir pra maré. Esperar eu ficar grande pra ir viajar com tia Janice. Esperar eu ter vinte anos pra poder namorar. Mainha não sabe, mas eu já sei fazer conta de menos. Ela tem vinte e seis anos. Eu tenho oito. Vinte e seis menos oito é igual a dezoito. 

Mainha não esperou até os vinte pra namorar com meu pai.

Ah, e também tem que esperar alguém falar meu nome quando eu brinco de estátua. Mas esse eu gosto de esperar. Eu gosto quando Dudu fala meu nome e eu to parada no meio da rua e ele passa do meu lado e eu ouço o K o Y o A o R e o A bem no meu ouvido. E aí ele sai correndo e eu corro atrás. É bom.

Meu pai não quer que eu brinque com os meninos. 

Teve uma história que ninguém quis me contar de que Dudu mais Pedro mais Allison tavam brincando de troca troca atrás da escada de Dona Maria. Foi a maior gritaria e eles ficaram de castigo sem nem ir pra escola. Dudu não quis me contar. Acho que ele gosta mais de Pedro do que de mim. Luara queria fazer um troca troca de bonecas uma vez mas eu não quis. Não gosto de bonecas e não gosto da minha boneca Liz. Ela já tá toda suja e riscada, mas foi meu pai que me deu.

Teve uma vez que eu saí só com meu pai. 

Ele disse que ia me ensinar a fazer ratoeira e pegar os guaiamum pra engordar. Eu colhi um bocado de limão lá do alto e ele gostou. Até deixou eu ficar perto dele quando um guaiamum grandão entrou voando dentro do cano e ele precisava que eu levasse o saco pra guardar. Mas o saco tava muito pesado e eu derrubei e o guaiamum fugiu. Ele brigou.

Meu pai sabe tudo sobre os animais.

Foi ele que me mostrou os plânctons verdinhos nas pedras do lado de casa e eu fui corajosa e peguei na mão e eles piscavam e acendiam bem miudinhos. E tem também os vagalumes que piscam sem parar mas esses só dá pra ver na noite de escuro e perto da mata que mainha disse que eu não posso ir sozinha. Deve ser legal poder brilhar.

Teve outra vez que eu achei uma bolacha do mar na areia e Clarinha disse que era uma estrela e eu disse que não, que meu pai me contou que aquela era bolacha e Clarinha não gostou e quebrou a bolacha todinha na maré. Não sei se eu gosto mais de Clarinha. 

Eu gostava de dar estrelinhas. Meu pé subia bem alto e minha perna ficava retinha e aberta e o vento parecia que ia me levar. Eu nem caia. Meu pai viu e bateu palmas pra mim e mainha disse que eu só sabia me amostrar. Agora eu gosto mesmo é de nadar bem fundo igual meu pai e depois virar estrela no mar. Eu abro os dois braços bem grandão e consigo flutuar por sessenta segundos.

Meu pai consegue ficar sem respirar por três minutos.

Ele sai pra mergulhar e volta com polvo e peixe e todo molhado e mainha fica feliz e triste porque tem que passar o dia fazendo moqueca e eu fico só triste porque quando meu pai sai eu nunca sei se ele vai encontrar uma sereia. Mainha diz que queria ser sereia, mas eu não. Sereia sabe cantar e leva os homens pro fundo. Eles se afogam. Eu não quero que meu pai se afogue.

Meu pai diz que eu puxei o bico de mainha.

Mainha faz bico quando não gosta de alguma coisa. Eu acho que ela faz força com os lábios bem juntinhos pras palavras não escaparem e ela não falar tolice pro meu pai. Ele não gosta.

Tia Janice riu da história do cocô, eu ouvi. Mainha disse que eu conseguia tirar a roupa e a calcinha e quando ela me achava eu já tinha saído do cercadinho e a parede tava toda imunda.

Eu gosto de dançar sem calcinha no espelho, mas só quando não tem ninguém em casa e com a porta fechada. Queria saber rebolar que nem mainha rebola nas festas com meu pai e é quando eu to com sono e às vezes durmo no chão ou numa cadeira e meu pai me carrega no colo.

Já tá ficando tarde e eu não sei se meu pai vai voltar. 

Queria mostrar pra ele que meu dente caiu e eu já to de janelinha de novo. Queria dizer pra ele que um dia eu quero ter uma casa com várias janelinhas e árvores de manga e de pitanga e de cajá. E que mainha nem precisa morar lá com a gente e que as paredes vão estar sempre limpinhas e que eu nunca mais vou querer fazer uma pintura de presente pra ele.

Deixe um comentário