Pipoca vermelha

Minha mãe manda na piscina, na quadra, no parquinho, no elevador e no jardim.  Manda em tudo e manda em mim. Ela não me deixa descer porque ela diz que fazem maldade comigo. Eu fico triste e choro porque eu quero brincar lá embaixo. Em casa,   brinco de vídeo game e depois vou pra natação. Só que na escola de natação é pra aprender a nadar. Eu já sei nadar, sei mergulhar e o que eu gosto de verdade é de dar caldo nos meus amigos. Antes ela me deixava e eu descia sozinho de elevador. Depois, mudou tudo. Um dia na piscina, eu levei caldo. Quase me afoguei.  Foi a Dona Ana que viu da janela e começou a gritar para o Seu Ivo, que estava varrendo e mostrou a vassoura para os meus amigos. Nunca mais ela deixou.  Minha mãe disse que a brincadeira boba era coisa do pai do João e dos amigos dele.  Ele que mandava nas crianças. Eu sempre dei caldo sem ninguém me mandar.  Ela disse que eles não gostam dela e por isso me proibiu de descer.

O pai do João e os amigos dele fizeram uma chapa e minha mãe me explicou que uma chapa é feito um time que vai jogar, mas não é no campo é no salão de festas. O jogo se chama eleição e ganha quem tiver mais votos. Ela ganhou. Eu fui na eleição e lá do fundo perto da porta de vidro eu, o Luan e a Bruna, a gente também contava os braços levantados para ver quem ganhava. Pra cada um, dava um número. A Bruna dizia que só ela sabia contar. Com os adultos também dava errado e virava gritaria. Uma hora, o Seu Toninho, o síndico velho, mandou todos escrever no papelzinho. Na hora de contar, chamaram o segurança pra ficar de olho quanto tinha de papelzinho de Chapa 1 e quanto tinha de papelzinho de Chapa 2. Minha mãe era da Chapa 1 e ela ganhou.

 O Seu Toninho disse que foi por pouco. Fiquei pensando como fazia se desse empate e se tinha disputa de pênalti. Não perguntei e ninguém explicou, mas é porque não deu empate. Minha mãe ganhou com cinco votos a mais que o time do pai do João e é por isso que ele, a mãe da Bruna, o pai e a mãe do Enzo, e o avô do Luan, que é meu amigo e não mora no condomínio, não gostam dela. O Luan e a Bruna ficaram só um pouco triste porque eles torciam para Chapa 2. Depois, o Luan, a Bruna e eu aproveitou a bagunça de gente lá dentro e correu pra escorregar na quadra molhada. O segurança estava no salão e ninguém deu bronca. Foi legal. O Luan sujou todo o uniforme. Ele não tinha trocado de roupa porque ia voltar logo para casa, mas o pai dele demorou pra chegar porque o carro encrencou na chuva.

 O Luan está na minha classe do primeiro ano e sempre brincava comigo  depois  da escola.  O Seu Horácio, que é o vô dele, pegava a gente de carro depois da aula, mas agora ele parou e o Luan também parou de brincar comigo. Tinha dia que o Seu Horácio ia buscar a gente a pé e eu gostava de voltar andando. Ele comprava pipoca vermelha no carrinho perto da escola. Um dia ele foi lá em casa perguntar por que minha mãe não queria mais que ele me buscava na escola. Ouvi ela dizer que não era por que ele era da Chapa 2. O Luan e o Enzo são do Palmeiras, eu sou Corinthians, a Bruna é do São Paulo e a gente brinca igual. Daí ouvi ela dizer que achava melhor eu ficar com ela depois das aulas porque a minha mãe é também professora na Escola Bem-te-vi.

 O Luan falava que devia ser legal ser filho de síndica do prédio e de professora da escola. Ele falava também que a avó dele tinha pena da minha mãe e não queria que o Seu Horácio se metesse com gente do condomínio. Quando o Seu Horácio ia buscar na escola junto com a Dona Judite, eles brigavam um pouco, mas era só um pouco porque ela também gostava de pipoca vermelha e o avô do Luan comprava um saquinho pra ela .

A Vó Judite deixava eu chamar ela de Vó Judite. A minha vó, mãe da minha mãe,  mora longe, perto da praia. Um dia, a vó Judite, me perguntou se eu achava legal ser filho da síndica e de professora da escola. Igual o Luan fazia. Eu respondi que era chato porque antes eu podia brincar lá embaixo. E na escola, as outras professoras, a secretária, a dona da cantina, as faxineiras, a diretora e todo mundo me conhece. Era chato quando elas passavam a mão na minha cabeça e vinham me pedir pra dar um abraço e um beijo.  Elas abaixam pra me beijar e todas usam perfume que pega na gente, igual quando grudava na camisa do meu pai e ele com minha mãe fechavam a porta da sala pra ficar falando alto.  Era a hora que me dava uma dor de barriga e eu pulava da cama e ia ouvir atrás da porta. Não era dor de barriga de ir no banheiro. Eu sentava no chão e o chão sujava o pijama e depois minha mãe me perguntava o que eu tinha feito e não dizia.

Minha mãe às vezes fica triste e eu sei que ela não me deixa descer porque é a síndica e o Seu Toninho, o síndico velho, quando era o síndico, já tinha me dado bronca. Uma vez eu  fiz xixi no vaso do salão de festas , outra vez, eu colei caca de nariz no botão do elevador. Ela sempre me fala que só é síndica porque tem pouco dinheiro pra pagar o condomínio e só é professora pra não pagar a escola.

  Num dia em que ela e meu pai brigaram, ele abriu a porta do corredor e eu levei uma portada porque eu estava sentado ouvindo os dois. Minha mãe falava sempre do perfume e meu pai chamava ela de louca. Meu pai nem viu que a porta bateu no meu braço e nem ouviu eu gritar que a minha mãe não era louca. Ele foi para o quarto deles, pegou a mochila, passou a mão na minha cabeça e foi embora.

Eu perguntei para minha mãe onde ele ia. Ela disse que ele ia viajar. Eu chorei um pouco e fui dormir na cama dela. Ela também chorou um pouco e disse que ia passar. Acho que não passou. Quando ela me deixar descer de novo é que vai passar de verdade. Hoje ela disse que vai me tirar da natação porque está caro. Ela achou que eu ia chorar. Eu achei bom e pedi pra ela comprar pipoca vermelha.   

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