Embocadura (excerto a história de Cassiano)

Glaucia Faria

Desde que se conheceu por gente Cassiano burlou o destino. Abandonado logo depois de parido, sobreviveu graças a um qualquer que apanhou à distância o berro daquele porqueirinha envolto em uma camada de um pano nada felpudo, recém nascido agarrado ao desamparo dentro de uma caixa, embalado por uma garrafa de vidro com um resto de bebida alcoólica. 

Entregue a uma instituição religiosa foi rapidamente adotado. E devolvido. Não uma, nem duas, mas três vezes. A primeira por choro excessivo. A segunda, por agressividade. Mentiras e comportamento precoce sexualizado justificaram a terceira, e os antecedentes de repúdio baniram todas as quartas tentativas de que um quarto o acolhesse. Sem compreender o fracasso dos processos e sucessivos abandonos, Cassiano fugiu, escondido na carreta de entregas que abastecia a despensa do orfanato. Com alguns dias de vantagem à frente dos que o caçavam, sentiu que a vida era mais divertida de cara ao vento, liberto dos deveres escolares, das tarefas, da faxina. Descoberto e expulso centenas de quilômetros depois, com apenas 10 anos de idade vivia o lado B da existência de quem estabelece as próprias regras na competição com o futuro. Mal cresceu, de altura inclusive. Lutava ignorante, dependente da caridade desconhecida, quando teve a última bolha da inocência estourada ao tentar partilhar algum brinquedo em um tanque de areia de um parque infantil. No rosto da suposta mãe da outra criança ele leu que a sua presença não era bem-vinda.

Cedo entendeu que era odiado.

Vagueava nas ruas traçando com a régua da sobrevivência as linhas da clandestinidade. Na pressa da barriga vazia comia o que conquistava. Autodidata em um golpe ágil e semi honesto, Cassiano elegia um restaurante, de preferência com grandes janelas de vidro. A agilidade de lince mirava tocaia no andamento do serviço e entre o terminar da refeição e a louça da mesa ser retirada, o pequeno invadia o recinto. Com as mãos besuntadas de fome chicoteava para dentro do bolso o resto do bife, o cigarro mal apagado, a gorjeta, algum agrado extra para os funcionários. Aplicava o truque uma vez por dia, com sorte a cereja do bolo era a sobremesa. Mais que visado, enquanto a polícia e os empresários do setor corriam atrás dele, Cassiano avançava cidades na busca por alimento e a cada pernada peregrinada levava consigo um verso de rebeldia. E foi atravessando uma fronteira ainda não desbravada que Cassiano avistou pela primeira vez o circo.

Em um terreno descampado uma grande tenda vermelha e branca estava a ser levantada, cercada por lâmpadas. Embaixo, uma arena lotada de cadeiras ao redor. Embalado por uma música adocicada, um homem vestido com uma roupa de placas explanava as atrações do espetáculo. Pessoas circulando por todo lado carregavam grades e caixas. Um casal com roupas colantes saltava no ar, outros bambeavam sobre uma corda segurando uma vara, e mais alguns equilibravam-se em uma bicicleta de uma só roda alternando entre as mãos e o ar quatro ou cinco laranjas. Insólita, a euforia.

NOITE DE ESTREIA. INGRESSOS AQUI.

Dentro de uma apertada cabine de madeira mal pintada de amarelo uma mulher teve a atenção lastimada diante dos dedinhos magricelas que esvaziavam os bolsos. Recebeu aflita a fortuna angariada naquela tarde: poucas e pequenas moedas, um cupom de desconto para um curso de culinária por correspondência, uma bolachinha esmigalhada e um guardanapo com um pedido de desculpas para uma certa Maria do Carmo, que provavelmente leu, não perdoou e nem se deu ao trabalho de levar o guardanapo-perdão para casa.

– Sinto muito, mas isso não paga o bilhete.

Mas a mulher de cabelo azul e ar desolado demonstrou ter alguma decência, embora tenha se mantido severa na condição:

– Pode assistir à apresentação da noite desde que tome um bom banho.

E encheu com água uma bacia de alumínio ao lado do picadeiro. 


Cassiano sorriu para ela. Gostou das suas bochechas salpicadas por minúsculas luzes que cintilavam mais que as estrelas do seu céu descoberto. Gostou do vestido curto que usava, dourado, com franjas e plástico brilhantes. Das meias cor de laranja grudadas na pele. Das botas altas, brancas, sujas. Gostou de tudo que não a tornava parecida com o que ele supunha ser uma mãe. Uma mulher que se divertia. Gostou de imaginá-la feliz. Cassiano, que nunca havia pensado na possibilidade de todos os dias serem dias de festa, jurou que se saísse do submundo não seria uma pessoa comum.

Vindo da rua sem o luxo da vergonha ele tirou a cueca e as cracas secas de sujeira do corpo. Desencardiu com espuma os pés que ficaram limpos ao ponto de inspirarem confiança. Depois de friccionar bem a cabeça do menino com um sabão em barra, a bilheteira passou um pente fino nos fios. Catou os piolhos, numerando em voz alta a esmagação com as unhas e a cada cléc ouvido ele explodia de gargalhar. Com a conta perdida das lêndeas extirpadas, Cassiano vestiu uma roupa limpa, mole e colorida. Ao se ver refletido no espelho descobriu-se iluminado. Livre do impuro da imagem fez graça e jantou comida de verdade finalizando a gula com pipocas apressadas pelos assobios do público que saudavam o mestre de cerimônias. Por trás do pano seu coração rufou como os tambores ao saber a segurança de um teto, ainda que removível. No camarim dormiu o primeiro espetáculo da sua vida.

Adotado por Katarina, a bilheteira excêntrica que também atuava no papel de assistente do mágico no circo, Cassiano entrou para a trupe mambembe itinerante, abandonando de vez e para sempre a vida de rouba restos. Aprendiz de feiticeiro, ganhou funções de bastidores: organizava o picadeiro antes e após as apresentações, limpava as cadeiras, recolhia a sujeira dos cachorros-artistas, puxava palmas para acordar os espectadores que roncavam durante o show. Com o tempo, seu raciocínio rápido provou que a matemática não era um problema. Dominando a arte dos números mais que todos os palhaços juntos, Cassiano foi confiado à contabilidade dos saltimbancos, liberando Katarina para que ela pudesse se dedicar por inteira ao grande número da noite, quando tinha seu corpo cortado ao meio, intrigando o público que não piscava os olhos diante das suas duas metades dispostas no palco.

Sem mapa definido ou rota antecipada, a estrada percorrida pelos circenses era a da intuição. Não planejavam aonde iam. Chegavam onde o acampamento se dava, lugares em que a receptividade se fazia maior ou ao menos não fossem recebidos com foras e pauladas. Estacionado em uma cidade de mais importância, na última matinê uma família classuda chegou cedo. Seis entradas pagas com uma nota alta jamais tocada por Cassiano. No apuro sem troco, o jovem contornou o obstáculo da caixa registradora vazia improvisando um gracejo maior que o de costume. Fora do posto na cabine, entregou os bilhetes em mãos à cada integrante da família, prolongando uma conversa fiada enquanto alguém do circo corria atrás dos trocados. Ríspido e com humor de piada pronta por gastar seu precioso tempo em uma palhaçada profissional, o pai da família não achou a menor graça no papo furado do bilheteiro. Ao contrário das filhas, especialmente a mais velha, que enternecida com os toques assanhados de Cassiano se deixou levar por um carinho que preencheu uma orfandade afetiva. E ela, a mais bela das meninas, teve sua epifania interrompida pelo estalo de dedos da mãe, que atenta ao horário não queria perder o número dos cães-equilibristas:

– Acorda, Annabel.

E foi nesse arroubo de certeza que a moça, no alarme da madrugada, abandonou a falsa vida de minueto da casa paterna para se juntar à caravana que partiria em uma hora. Na pressa para a vida errante não deixou nota de despedida ou retratação. Enrolou três vestidos debaixo do braço e enfiou em uma fronha bordada algumas fotografias, um par de sapato de salto alto, um pente para o cabelo e uma edição capa dura de Anna Karenina.

Útil desde o primeiro dia, Annabel consertou os buracos dos figurinos velhos e aplicou lantejoulas para divertir os tecidos, agora brilhantes como os dos palhaços ricos. Vivendo de pão e circo, nem o inverno se fazia vilão da história. O abraço se dava o abrigo do casal. Annabel era miúda e baixa, e Cassiano, um teco menor do que ela. Abusando do calor humano, pareciam quase dois.

Naquela estação, o cobertor usado pelo casal todos os anos resvalou uma nesga de frio no fecho imperfeito. Além disso, Annabel não conseguia se sentar. Virava de um lado, depois do outro e o incômodo duplo a deixou preocupada. Levantou, sentou, estranhou o chão. O corpo insistia em permanecer gelado e fora de registro. Descalçando os sapatos absorveu o choque entre a terra a seus pés. Havia sentido o mesmo na noite anterior, quando disfarçou o medo de ter feito algo errado. Chamou Katarina e explicou a aflição com a anca.

– A menina está grávida, não torta.

A observação certeira da sogra elevou a temperatura das duas mulheres.

Katarina aproximou-se para beijar a nora, mas o cheiro da sua bochecha provocou um enjoo tão forte em Annabel que ela mal virou o rosto. Vomitou encarando Katarina com um frio na mesma na barriga que se acostumava ao calor do bebê.

Os circenses brindaram a notícia da gravidez. Como as doses de conhaque destinadas a enfrentar a madrugada invernal foram servidas mais cedo, o espetáculo da noite foi estrelado por artistas embriagados e sem concentração. E foi nessa noite que o mágico, falho na destreza precisa do truque, tremeu, lançou a espada de uma altura condenável. Errando feio o alvo, o gesto mortal partiu de verdade Katarina ao meio e a noite foi encerrada tanto por uma saraivada de palmas clamando o maior ilusionista da face da terra quanto pelos desmaios dos que realizaram estarem diante de uma real e chocante desgraça.

Annabel caiu de cama desalinhada em uma desordem profunda. Grávida não radiosa, não ansiava o dia o parto e sim a hora do fim da vida nômade.

Na decisão de não criarem um bebê naquela rotina volátil e no esforço para superarem a morte de Katarina, o casal fez as malas. Dobraram a esquina sem choro na busca por um teto de paredes sólidas e janelas ensolaradas, jardim, varanda, cortinas dos sonhos. E foi em plena visita imobiliária que a futura mãe sentiu o primeiro chute no ventre. Anos antes de eu nascer, que a casa ao lado da minha, por anos vazia, acolheu os novos moradores, um jovem casal cheio de vida e sem nenhum parentesco com qualquer pessoa das proximidades. Recepcionados de um modo não exatamente rude, mas inflexível, os dois fizeram a mudança sob recriminações acerca da barriga de Annabel e da simpatia exagerada de Cassiano.

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