reconhecimento

@brontopsbaruq

…dizem que os olhos da vítima guardam a imagem de seu assassino. Provável mentira, pois o Assassino fez uma espécie de preparação para o ato, pesquisando em pássaros, coelhos, gatos e cães e nenhum deles deixou nada além do vazio próprio dos mortos. Ainda assim, tantas vezes ouviu essa história que preferiu não arriscar. Decidiu emparedar a Vítima, solucionando dois problemas. Primeiro, desaparecia com o corpo. Segundo, existe uma sequência lógica em levantar um muro, tijolo por tijolo, e os olhos já estariam ocultos no momento de fechar o último vão.

O Assassino deixou a vítima viva atrás das pedras para sucumbir de asfixia, de fome, de sede, de escuro. Era madrugada, saiu da casa suavemente, mas o ranger das portas e o tremor da madeira sob os passos apressados pareciam clamar por testemunhas. Mas não houve ninguém, exceto as estrelas, mariposas e corujas. A casa ficaria vazia por meses até o verão chegar.

Durante o percurso de volta, o Assassino não cruzou com conhecidos; fez questão de usar trilhas menos utilizadas para evitar camponeses madrugadores. Era inverno, havia neve, a sorte deveria lhe ser favorável. Todavia, para atravessar uma ponte, houve uma testemunha, um homem parado sobre a ponte àquela hora. Parecia mau-agouro, conto barato de fantasmas, mas era apenas um bêbado com tesão suicida. O Assassino não tinha como saber disso e durante todo aquele inverno, o bêbado ressurgiu em seus sonhos, acusando-o, trazendo a Guarda, que invadia seu quarto, acorrentava-o perante sua família, levando-o para a masmorra do Duque, com o testemunho preciso daquele desconhecido.

Mas veio o degelo, a primavera e o aluguel da chácara durante o verão para uma família de barnabés da capital. Enquanto crianças nadavam nuas nas águas frias e os burocratas aproveitavam o sol sobre o gramado, havia um corpo emparedado no porão e só o Assassino sabia.

Com o passar dos anos e das estações, do ir-e-vir dos gansos sobre o bosque, o Assassino assumiu ter cometido um crime sem castigo: os olhos da vítima não registraram sua face, e, ainda que isso tivesse ocorrido, agora deveriam estar secos como uvas em panetone. Ninguém reclamou do desaparecimento da Vítima. Ela fora transposta de seu ambiente e, se alguém chorou sua ausência, não se ouviram lamentos. Os cemitérios eram repletos de covas anônimas e valas: havia epidemias, tuberculose, gente pobre indo de fome, de frio, tristeza, esquecimento.

Porém, especialmente nos outonos, quando a floresta farfalhava pedindo silêncio, a cabeça do Assassino se enchia com o barulho de seus pensamentos. O Assassino não se arrependera de nada e nada confessara ao Padre; O cura afirmava em seus sermões que só haveria perdão se houvesse sinceridade. E, desculpem a repetição, não havia nada: o Assassino se emocionava mais em uma peça de Tchecov ou quando leu sobre um desastre de trem com vários mortos: eram tênues desconhecidos, pouco além de uma fantasia. Porém eram mortes injustas e não era o caso ali.

O Assassino tinha uma longa e razoável lista de motivos, a palavra Vítima nem sempre é a mais adequada.

Ainda assim, algo o perturbava. Os anos passaram. O Assassino casou com uma boa moça, teve bons filhos, foi vivendo uma vida normal, nem muito nem menos feliz. Continuou vivendo na casa onde viveu com os pais e manteve seu emprego na administração fiscal da ferrovia. Algumas vezes, alugava a chácara para endinheirados da capital, mas com o nascimento dos pequenos, decidiu usar a casa para proveito deles.

O feriado de São Marcelo, aquele que defende contra os vampiros, era comemorado em todo o país e mesmo naquela aldeia incrustada nas montanhas haveria festividades. A maçonaria da cidade pagou e um circo se instalou na entrada da cidade, com suas tendas e animais estranhos, como um urso mascarado e uma criatura, misto de cervo e coelho, chamada canguru. O Assassino levou sua família para o circo, naquele tempo eram raras as oportunidades de se ver algo realmente inédito.

Enquanto passeavam pelos arredores, juntaram-se às pessoas que rodeavam as jaulas. Estavam diante dos tigres, quando irrompeu do meio do público uma confusão do tipo “deixa-disso” em um lugar próximo. Um rufião, um sujeito bastante desagradável e com histórico de arruaças agarrou no pescoço de um molecote. O rapazinho balançava os pés no ar e assumia coloração de asfixia e a maioria dos cavaleiros da cidade não demonstrava intenção de intervir de forma mais contundente. Uns berravam insultos, outros imploravam clemência. Ao Assassino só coube tapar os olhos de suas crianças, pois, em um gesto surpreendente, o dependurado sacou uma lâmina de estilo italiano e estocou várias vezes no gigante até o sangue ser consumido em meio ao feno e à serragem. O rapazola fugiu de lá, não sem antes chutar algumas vezes o bruto que matara.

Por várias noites, sua esposa chorou antes de dormir por ter presenciado aquele terror, incomodava-a que a selvageria pudesse estar tão próxima das pessoas de bem. O Assassino simplesmente se calava, já lutara em duas guerras pelo seu país, sabia que o boneco de neve da civilização não resistia à primavera dos homens.

Ficou sabendo que era coisa de jovens, o colosso e o Davi disputavam a mesma sirigaita, e deram a sorte de se encontrar ali. Ninguém esperaria saber mais coisa alguma do garoto, surgiram boatos que ele cruzara as fronteiras das terras do Duque, para além das Montanhas de Lava, talvez para Antípoda ou fugindo como clandestino em um navio da Costa dos Travesseiros. Os meses pareciam convencer a todos da fuga, mas um dia a carruagem da Guarda apresentou novos pássaros na praça, um vadio, uma fanchona e o tal rapaz.

O julgamento atraiu grande público, até um jornalista da capital veio assistir. O Assassino precisou pagar caro para uma cadeira numerada na galeria superior. O rapazola confessou seus crimes orgulhosamente e todos sabiam o que isso significaria: eram as galés ou a forca. A audiência reagiu ruidosamente, e o meirinho exigiu ordem. O juiz não esperava aquele destemor, quis saber do menino o motivo. Talvez já esperasse a pergunta, talvez pretendesse deixar aquela carta para os pais, não se sabe. O fato é que o réu tirou da bota uma carta dobrada cuidadosamente e a abriu para ler um discurso, muitas vezes interrompido pelos murmúrios do povo da aldeia reunido ali.

O réu explicou que não sentia medo ou vergonha de ter livrado a Terra daquele canalha, um comedor de crianças e um violador de porcos e viúvas. Afirmou que o incomodava não era ser preso, morto, escravizado ou arrastado em uma parelha de cavalos. O que ele mais temia era não ser reconhecido, ele queria seu nome nos livros e um lastro na alma daquela vagabunda que se tornou indiretamente culpada pela morte de dois homens.

Aquele jornalista da capital vendeu a notícia para duas empresas concorrentes, mas ele escreveu diferentes histórias, nenhuma delas descrevia corretamente o discurso do acusado. Em um dos jornais, o menino foi qualificado de demônio, uma espécie de Nero e Barbanegra de província. Para outro, como herói injustiçado, novo Cristo, Aníbal sertanejo. Tanto faz. As duas versões do fato foram esquecidas.

Algumas semanas depois, o carrasco foi subornado para permitir que se retirasse o corpo do molecote da forca. Sua família não tinha recursos, os amigos e parentes organizavam-se para juntar recursos, porém o Assassino antecipou-se com uma doação secreta. Com o dinheiro, deixou uma carta igualmente anônima, de próprio punho, lamentando os acontecimentos, porém agradecendo a epifania que o gesto impetuoso do menino lhe provocara.

Em uma outra noite de verão, o Assassino escreveu outra carta de próprio punho. Detalhou meticulosamente os fatos ocorridos há tanto tempo, mas ainda límpidos em sua memória. Foi interrompido uma única vez: seu filho invadiu o aposento, olhos cerrados imersos em um sonho distante. Murmurava palavras incompreensíveis, como se estivesse bêbado. O pai foi a ponte que levou o sonâmbulo de volta para a cama.

Já era madrugada quando o Assassino terminou, da vela restava uma chama queimando sobre uma poça. Ele a selou e a carimbou com o brasão da família. Depois a ocultou no último volume de uma edição bastante antiga da Enciclopédia da Academia. Estava na última prateleira, da última estante da biblioteca e seus dedos ficaram enegrecidos pelo pó, fora do alcance dos olhares. Dentro da carta, além de sua confissão, havia um esquema desenhado indicando a parede da chácara que deveria ser derrubada para que encontrassem o cadáver da Vítima.

Depois foi dormir. O Assassino sabia que o melhor Reconhecimento era aquele que ocorria por acidente.

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